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terça-feira, 3 de março de 2015

"Entrega à Essência Feminina" - por Florbela de Castro

Tela em Acrilico
Autoria de Florbela de Castro
2014


Pode compartilhar livremente a obra desde que respeite os créditos.

 Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

""Ventos e Mar de Cores" - de Florbela de Castro

Autoria de Florbela de Castro
2014
25x30cm
Tela em acrilico

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 Todos os direitos reservados.

domingo, 31 de agosto de 2014

"Lights of Green - New Earth" - Florbela de Castro


Autoria de Florbela de Castro
Pintado em acrilico
50x70cm
2014

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Açucena- 12º Capitulo - 2ªa Temporada - de Florbela de Castro



Philippe não queria saber duma versão melhorada de Edouard. Teimava em não querer acreditar, mesmo que lá no fundo soubesse que isso era verdade. Se ele acreditasse, a sua vingança pessoal poderia perder sentido.
Havia instalado Charlotte no seu palácio. Olhou-a com pena e preocupação. Ela havia-lhe contado a sua história o que deixara o príncipe apreensivo. Não sabia bem como ajudá-la.
Alguns dias passaram e ele cuidava da rapariga que recobrava as forças. Sentia-a um pouco órfã no mundo. Ela era novinha. Talvez tivesse vinte anos. Naquela noite ela chorara mais uma vez pelas traições de Edouard. Passou nos seus aposentos e vira a porta entreaberta e percebeu que ela adormecera vestida e a chorar. Suavemente e com gestos fraternos desapertou-lhe o corpete, procurando aconchegá-la. Charlotte entreabriu os olhos sorrindo ensonada.
- Que significa isto?? – Gritava Açucena completamente desvairada.
Surpreendidos os dois não tiveram reação. Açucena, alucinada, esmurrou o príncipe com as duas mãos. Este agarrou-lhe os pulsos com força enquanto ela se debatia. O resultado foi ela libertar-se num ímpeto, batendo com a cabeça numa mesinha. Tudo ficou negro e silencioso.
Quando começou a recuperar os sentidos Açucena, ouviu uma azáfama e vozes distantes. O dia raiava há muito por entre os reposteiros. Ao abrir os olhos foi mirada por caras estranhas, desconhecidas.
-Acordou. – Disse um homem careca e de bigode que tinha um monóculo. Outro homem alto e largo como um armário levantou-a sem cerimónia e sentou-a numa cadeira. O seu pé embateu num tecido volumoso. Olhou. Charlotte jazia no soalho com tez cinza e uma ferida enorme numa das fontes. De Philippe nem sinal.
- Desculpe-nos mas teremos de levar a menina até ao cárcere do rei para depois ser interrogada.
Açucena empalideceu e assustada quis fugir. O homem armário impediu-a pegando nela como quem pega uma trouxa leve.
Atordoada e sem querer acreditar no que lhe estava a acontecer, a duquesa viu-se a ser levada para a prisão real. Atirada para uma cela depois de despojada das suas jóias e vestido e enfiada numa túnica de serapilheira, agachou-se num canto. Nem meia hora depois voltava o homem do monóculo e o homem-armário. Agarraram-na sem cerimónia enquanto despejavam um grande balde de água fria em cima dela.
 - Onde está o príncipe de Angelis? Porque você assassinou esta jovem?
A jovem mulher quis protestar mas não a deixaram falar, esbofeteando-a violentamente. Prosseguiram assim por algum tempo que pareceu infindável para ela. Finalmente saíram.
Após longos momentos, talvez horas, em que a duquesa se perguntou do porquê desta situação, tentou relembrar o aparecimento de Charlotte em sua casa e o facto de Edouard as ter surpreendido.
Gerara-se um tremenda discussão entre a outra jovem e Edouard em que este perdera a paciência ameaçando Charlotte de a surrar. Fôra então que ela fugira.
Jamais esperara encontrá-la na casa de Philippe. Açucena gemeu dorida tanto por fora como por dentro. Não percebia o que se passava.
A noite já ia alta e a lua iluminava pelo quadrado gradeado quando o homem-armário voltou. Trouxe-lhe água. Hesitante ela aceitou. Ele acariciou-lhe o cabelo. Ela repudiou-o mas de nada adiantou. O homem rasgou-lhe a túnica e sem cerimónia penetrou-a enquanto lhe tapava a boca. Açucena gemeu de dor, enquanto lágrimas escorriam pelas faces. Humilhação suprema.
Dali em diante o homem armário aparecia à mesma hora e o ritual repetia-se. Açucena vivia aqueles momentos com repulsa e sacrifício.
Até que um dia em que o ritual se repetira, o homem estacou de repente com os olhos esbugalhados e caiu pesadamente a seu lado. Nas suas costas encontrava-se cravado um punhal. A figura dum guarda recortava-se na sombra da cela. Açucena não reconheceu nenhuma cara amiga.
- Com os cumprimentos do rei. – Anunciou o jovem homem com respeito. E saiu tão enigmaticamente como entrara. Açucena interrogou-se intrigada : “ O rei livra-me da violação mas não da prisão. Qual será o seu intuito?” Conjeturou: “ E onde estarão Philippe e Edouard que não apareceram? Nem mesmo Evelyn surgiu ou me veio tentar salvar!”
Não longe dali, três dias antes, os dois homens amordaçados tinham sido postos numa galera real para terras distantes.


Evelyn evaporara-se simplesmente.


Imagem de Phoenix Lu

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Açucena - 11º Capitulo - 2ª Temporada - de Florbela de Castro



Philippe passeava de mãos na cintura pela sala com ar preocupado enquanto Evelyn esfregava as mãos nervosamente.
- Não estava previsto no nosso plano apaixonares-te pelo Edouard! O intuito era destrui-lo.
- Sim… mas julgo que consigo transformá-lo…
Philippe parou de andar e olhou fixamente a amiga.- Acho isso pura ilusão! Não sei o que vocês veem nele!
- Estás com ciúmes?? – Ripostou Evelyn com vivacidade, logo semicerrando os olhos e voltando a falar mas agora em tom baixo e provocador: - Meus ou dela?
O homem loiro olhou-a intensamente, erguendo uma sobrancelha.
- De que falas?
- Do nosso caso, Philippe! – Não te faças desentendido!
- Caso?? O que se passou entre nós não foi um caso. Foram momentos de entreajuda… - Exclamou ele, rematando: - E já foi há muito tempo!
Evelyn soltou uma gargalhada – Estás com receio de relembrar o prazer que sentiste comigo? Quando chegaste às minhas mãos estavas um caco como homem. Sem amor-próprio e sem nada… E eu fiz-te vibrar de novo, fiz brotar em ti essa sensualidade que a tua querida Açucena tanto aprecia nos dias de hoje e que a faz suspirar quando estás em cima dela.
- Pára de falar essas coisas! Ok ajudaste-me muito e não só nesse sentido. Mas lembra-te que o que me trouxe aqui foi recuperar Açucena e vingar-me de Edouard!
- Sabes, há momentos em que duvido se realmente amas Açucena…Ou se é só o teu orgulho ferido…Ela é tão insossa e não sei o que tu e o Edouard viram nela.
- Ela desperta em mim algo que não sei explicar…É uma doçura tão grande! E por favor não me compares com Edouard! – Ripostou ele com a sua voz grave. – Estás aqui para me ajudar ou não??
- Estou. – Respondeu ela já mais séria – Pela honra da nossa Família pois ainda somos primos. Mas vamos ter de mudar os planos pois desejo manter Edouard para mim…Além disso o meu grã-ducado permite-me estar longe da tua vista.

Philippe suspirou pesadamente como resposta e saiu com largas passadas.
Saiu para a rua para respirar o ar frio da noite e pensar. Contra a sua vontade as lembranças dos momentos quentes com a prima voltavam-lhe à cabeça. Evelyn realmente sabia fazer um homem sentir um fogo vindo das entranhas e capaz de deixar qualquer um louco de paixão. Ele escapara desse sentimento de entrega pois conhecera já o amor da sua vida e fora ferido por ela, mas reconhecia os talentos de Evelyn. Estremeceu com as recordações e sentiu-se culpado pensando em Açucena. Fixou o seu pensamento nela e aos poucos o seu coração amansou dessa impressão culposa. Sorriu para os seus botões.
Nesse momento um vulto encapuçado deu-lhe um encontrão.
A cabeça de Charlotte ficou a descoberto, revelando uma expressão confusa num semblante pálido.
Instintivamente Philippe segurou-a, porém Charlotte, desnorteada, tentou livrar-se dos braços que a pareciam reter.
- Nada temais jovem senhora! – Afiançou o príncipe com voz tranquilizante. A mulher percebeu o seu porte distinto e acalmou-se. – Posso ajudar-vos?...
Charlotte abriu a boca para responder mas uma voz masculina soou feroz:
- Vós! Sempre no meu caminho, Philippe!
O alto e louro homem assumiu uma atitude defensiva enquanto a mulher se escudava nele.
- Edouard! Que podereis querer desta jovem dama??
- Nada que vos diga respeito! Afastai-vos Príncipe de Angelis!
Mas Philippe permaneceu à sua frente com o sobrolho carregado.
- De Angelis, deixai-me resolver os meus assuntos com essa dama! – Instou Edouard contendo a sua impaciência e esforçando-se por ficar calmo mas firme.
- Duvido das vossas boas intenções! – Exclamou o príncipe com impetuosidade. – Sei bem como eréis violento com Açucena!
- Não tem nada a ver com isso este assunto! – Mastigou Edouard impaciente. Mas Philippe não lhe deu ouvidos e saiu correndo e levando Charlotte, deixando o duque desorientado.

Imagem da autoria de Phoenix Lu 
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domingo, 24 de agosto de 2014

"Pirâmide no Oceano -



Tela em acrílico
25x30cm
Autoria de Florbela de Castro
2014
Todo os direitos reservados.
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domingo, 8 de junho de 2014

Açucena : 10º Capitulo - 2ª Temporada - de Florbela de Castro




Édouard jamais experenciara tais delícias. Movimentar-se com o corpo colado ao de Evelyn suscitava-lhe em uníssono um fogo ardente e uma doçura tremenda. Após um extase sentido, deixou-se cair languidamente ao lado da jovem de cabelos vermelhos, beijando-lhe o braço repetidamente. Era a primeira vez que o arrogante nobre se derretia tão profundamente por alguma mulher. Mesmo com Açucena fôra uma paixão carnal e caprichosa. Então com Charlotte nem se comparava; esta permanecia no campo do semi-desinteresse.
Mas Evelyn trazia a Édouard uma nova vida, como que se lhe tivesse insuflado um novo sopro, uma nova alma.
O que Édouard sentia centrava-se no coração e trazia-lhe um fogo irresistível.
Refletindo sobre isto o homem suspirou baixinho e com um olhar doce e verdadeiro, puxou-a de novo para si. Desejava fundir-se de novo na embriaguez daquela mulher.
E fundiu-se.
Evelyn sentia a rendição do ex-don juan, sorrindo internamente. Agradava-lhe a entrega e a mudança. Mas mantinha-se erecta no seu pedestal sem sucumbir demasiado aos apelos do coração. No entanto não podia negar que as delícias nos braços de Édouard eram extremamente gratificantes.
A forma vuluptuosa como cada um se mexia contagiava o outro, num circulo infindável de prazer, as mãos entrelaçavam-se, os corpos movimentavam-se num ritmo crescente, enquanto trocavam beijos sensuais e gemidos sentidos.
Eram assim os seus encontros pautados igualmente por muito diálogo, algo de estranhar em Édouard, que raramente conversava com as suas conquistas. Mas com Evelyn sentia-se tão à vontade ou ainda mais, do que com os seus amigos.
Sempre que voltava para casa, Açucena encontrava um marido pensativo e distante,mas pelo menos não embriagado nem violento. Aliás, ele mal lhe falava e nem a tocava. Não se tratava de um ignorar da sua presença mas sim dum respeitar da sua pessoa e do seu espaço.
Entretanto, passado algum tempo Evelyn acabou por revelar ao seu amigo, o principe Phillipe, a sua relação com o duque. O amigo ouviu-a surpreendido, não com o facto da sua amiga manter um romance clandestino, pois conhecia a natureza indomável e forte de Evelyn, mas sim por saber que o duque se encontrava rendido. Refletindo, decidiu não contar nada a Açucena. Além disso Édouard não sabia da amizade de Evelyn com o principe nem do romance do principe com sua esposa, Açucena.
Aos poucos o duque largara a bebida e largava também o vício do jogo. Passava quase todos os dias na residencia luxuosa de Evelyn, fosse muito ou pouco tempo.
Deixara igualmente de aparecer para visitar Charlotte e esta estranhava a sua ausência. Não sabia exatamente onde Édouard vivia, nem qual seu sobrenome, mas guardava um retrato pequeno dele em oval, pintado à mão, que o próprio lhe oferecera, devido aos filhos que haviam tido juntos.
Munida desse retrato, Charlotte partiu um dia para a grande cidade a fim de o procurar e após dois dias de indagações, chegou ao palacete de Édouard.
Quem a recebeu foi uma surpresa Açucena, que ao início não esclareceu a sua própria identidade à interlocutora. Esta contou a natureza da sua ligação com Édouard e os filhos nascidos, julgando que Açucena era irmã dele.
A jovem duquesa ficou siderada com a revelação de Charlotte sobre sua existência e das crianças. Charlotte falava, desabafando. Açucena sentia-se sem coragem para se revelar. Naquele momento, a ama entrou com a filha de ambos. Ao início Charlotte sorriu ao ver a criança congratulando-a pela beleza da menina, mas algo na atitude embaraçada de Açucena deu-lhe o alerta. De olhos esbugalhados, mirou a criança e a jovem de cabelos cor-de-mel e de repente percebeu tudo. Estremeceu empalidecendo e caiu desmaiada.
Açucena socorreu-a sentindo pena dela. Levou-a para salinha contígua aos seus aposentos para ela recobrar os sentidos.Ofereceu-lhe chá e algo doce para lhe voltarem as cores à faces, ao qual Charlotte aceitou, muda e cabisbaixa. Açucena entreolhava-a condoída e sem saber o que fazer, enquanto na cabeça de Charlotte múltiplos pensamentos se cruzavam e um deles era fugir dali o mais rápido que pudesse, mal as suas pernas fracas o permitissem. Foi lá que o duque as foi encontrar.


Imagem  da autoria de Jasmin Darnell

link do 9º capitulo da 1ªa Temporada:http://artlira.blogspot.pt/2011/07/edouard-abriu-os-olhos-vagarosamente-e.html
Link do 11ª Capitulo : http://artlira.blogspot.pt/2014/08/acucena-11-capitulo-2-temporada-de.html


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domingo, 1 de junho de 2014

Conto : "O Principe - Trovador" - 3ª Parte e última Parte - De Florbela de Castro





Raimundo, a partir da data do encontro com Aurora, passara a compor belas melodias em homenagem ao seu belo amor, deixando também pequenos versos românticos espalhados pelo palácio, na esperança furtiva de que a jovem misteriosa fosse realmente Aurora. Os nobres que frequentavam a corte sorriam e aclamavam alegremente as trovas, encarando-as como uma forma criativa e artística do seu principe expressar a sua inspiração ou até de homenagear a sua prometida.

Mesmo sem voz e sabendo da cegueira do seu amado, Aurora sentia no seu coração e alma que as trovas e versos lhe eram dirigidos, enchendo-se de contentamento. Porém, mantinha uma postura discreta para não revelar a sua identidade.

Varynia, a nova princesa, era geniosa e imprevisìvel. Mas perante a sociedade ela afivelava uma máscara de grande benignidade.Os serviçais temiam-na e viviam subjugados pelo seu poder e pelo medo. A família real parecia não se aperceber da verdadeira personalidade da princesa. O principe Raimundo acompanhava-a em passeios, refeições e pequenos espetáculos de diversão, sendo sempre amável e solícito.

Por seu turno, Aurora escutava e assistia ao desvelar da verdadeira princesa. Tal como todos, ouvia os impropérios proferidos por esta quando as coisas não se encontravam à sua feição. Aurora pensava para si mesma que o principe tinha caído num grande engano, contudo não estava em posição de intervir.

A linda bordadeira pensava na sua fada-madrinha para vir em seu auxílio mas agora não vivia nem dormia sozinha e era arriscado expôr-se dessa forma.

Numa das suas folgas dirigiu-se sozinha aos arredores da cidade, adentrando o bosques. Abalara cedo de manhã pois a orla da floresta ainda era distante.

Duas horas depois chegou perto dum ribeiro que uns quilómetros mais adiante se fundia com o mar. Descansou na relva atapetada de flores e então dispôs-se a chamar pela fada-madrinha com o seu pensamento, visto que estava muda.

Porém, não obteve resposta. Em vez disso, viu um redemoinho surgir na água e uma mulher de aspeto transparente e vestido azul, materializar-se. Aurora ficou perplexa e recuou um pouco, mas a aparição instou-a a aproximar-se e apresentou-se como sendo a Senhora Das Águas. A senhora aquática parecia ouvir os pensamentos de Aurora e transmitiu-lhe que os sentimentos e pensamentos eram como as ondas do mar e as correntes dos rios. A morena mulher sentia uma calma e uma pacificidade junto da inusitada presença feminina. Esta convidou-a a mergulhar nas águas para conhecer o seu palácio no mar. A jovem mulher olhou-a assustada e confusa, enquanto a Aquática Presença soltava uma gargalhada que se assemelhava ao borbulhar da água e lhe estendia um búzio cheio de água para ela beber. Depois deu-lhe a mão e as duas mergulharam, com Aurora em suspense.

A bela moça terrestre visitou, encantada, o belo palácio de madrepérola e coral, entendendo-se com os conterrâneos aquáticos e demais espécies apenas através de pensamentos. Longo tempo depois foi levada de volta à terra. Já na margem, a Senhora das Águas transmitiu-lhe que não podia intervir do mesmo modo que a fada mas que lhe presenteava com algo: a sua voz. Assim já poderia lidar com mais independência, com a situaçao de Varynia e o principe Raimundo. E docemente, despediu-se num murmurar de águas.

Com uma gargalhada sonora Aurora rodopiou quase como que dançando, porém foi bruscamente parada por uma exclamação de fúria e escárnio: - Não tão rápido minha menina! Já sei quem tu és e quais as tuas intenções! - A voz de Varynia soava ameaçadora – Mas lamento informar-te que jamais te poderás reunir ao teu querido principe! Sabes porquê?

E pronunciando isto, enterrou as mãos na terra erguendo-as, vociferando:

- Porque eu tenho poder da terra e por isso comando que te transformes numa árvore!

Perante estas palavras, a mulher metamorfoseou-se numa árvore de copa frondosa.


O principe Raimundo recordava muito Aurora. Sabia que a sua vida tinha de prosseguir mas sentira nos últimos tempos a sua presença de uma forma marcante e de repente... Nada. Tudo parara. Será que Aurora estivera realmente presente na sua corte, no palácio real? Se assim fora, porque não lhe falara? A ideia tanto lhe parecia descabida como também a mais coerente.

Bateram à porta. O seu fiel escudeiro chamava-o para o seu passeio matinal. Apesar de cego, o principe continuava a cavalgar. Ao passarem nos pátios exteriores junto `as cavalariças, Raimundo ouviu duas crianças soluçar. Condoído perguntou o motivo da tristeza deles. Estas responderam que a sua mãe havia desaparecido e eles estavam sós no mundo.

Comovido, o principe sossegou as crianças quanto ao seu futuro e tomou-os em sua proteção. Entretanto indagou-os dos pormenores do desaparecimento da progenitora. Mas as crianças pouco lhe adiantaram. Uma outra serviçal acabou por se aproximar acanhadamente, explicando ao principe quem era a mãe das crianças e como viera para o palácio e que havia uma semana que ela saíra para os arredores do bosque e jamais voltara.

Raimundo achou tudo muito estranho. E a suspeita de que aquela poderia ser Aurora, solidificou-se. Era o que o seu coração lhe dizia.

“Mas então... se ela era Aurora as crianças eram... Seus filhos!”

Aquele pensamento fê-lo estremecer alvoroçado.

Imediatamente nomeou uma dama da corte para ama das crianças e acompanhado do seu escudeiro, dirigiu-se aos aposentos de Aurora e demais serviçais, pedindo para lhe entregarem os seus haveres. Não tardou em descobrir a capa azul e pelo toque e aroma reconheceu ser a de Aurora. Imediatamente a janela do quarto se abriu e surgiu a fada-madrinha de Aurora.

Com vivacidade contou-lhe todos os pormenores da vida de Aurora desde o afastamento do principe atá à data presente. Revelou-lhe a verdadeira índole de Varynia, o que ela fizera à sua amada e o prévio encontro desta com a Senhora das Águas. E finalizando, proferiu que estava nas mãos de Raimundo inverter aquela situação. Após declarar isto, retirou-se.

Raimundo ouviu-a siderado. Não sabia o que fazer para a salvar. Sufocado, o principe saiu com o seu escudeiro numa cavalgada desenfreada até ao local onde estava Aurora transformada em árvore. Ali chorou copiosamente. As suas lágrimas ao tocarem no solo transformavam-se em belas margaridas. Cedo o solo em redor ficou atapetado das ditas flores, pois o principe passou a rumar àquele local diariamente.


Haviam decorrido poucos dias e a canícula fazia-os suar debaixo das suas fardas.

Na sua visita diária Raimundo decidiu refrescar-se no ribeiro, por esse mesmo motivo e para limpar as suas lágrimas. Dispôs as suas mãos em concha e limpou abundamentemente o seu rosto com a água. Qual não foi o seu pasmo quando percebeu que voltara a ver! No seu rosto rasgou-se um sorriso exultante e cheio de alegria partilhou com o seu amigo e fiel escudeiro a boa nova. Os dois abraçaram-se radiantes e Raimundo dispôs-se a tocar uma das suas trovas com o seu alaúde, sentados confortavelmente junto à arvore.

Porém algo ainda mais assombroso os esperava: à medida que o principe dedilhava as notas no instrumento e cantava, a árvore foi gradualmente transformando-se em Aurora!

O encontro foi de um sentimento indescritível. Abraçavam-se, tocavam-se, riam-se, falavam quase ao mesmo tempo.

Após o fervor inicial, dispuseram-se a rumar ao palácio. Todavia a ventura ainda não se firmara nas vidas deles. Mal tinha dado uns passos quando Raimundo foi envolvido por um ramo de árvore, sendo arremessado a uns metros de distância.

Frente a eles estava Varynia.

- Se eu não posso ficar com Raimundo, ele não será de mais ninguém!

E dizendo isto, revirou a mão fazendo abrir um buraco no solo, onde Aurora foi-se afundando.

Subitamente um rumor ouviu-se das águas do ribeiro e erguendo-se do mesmo surgiu a Senhora das Águas. Com um jato de água saído duma das mãos, inundou Varynia, fazendo-a rodopiar num redemoinho e depois ser arrastada pela correnteza do ribeiro, levada para longe até ao mar. Seguidamente com um repuxo retirou Aurora da cavidade onde estava enterrada. Raimundo aproximou-se com alguns arranhões e nódoas negras.

A senhora das Águas percorreu a distância que os separava, caminhando sobre as águas.

Parabenizou-os, revelando que já conhecia Raimundo por velejar nas águas do oceano e congratulou-os pela união.

Assim voltaram para o palácio, sendo revelada toda a trama de Varynia e a identidade e história de Aurora e os filhos.





Pouco tempo depois, foi anunciado o casamento e houve vários dias de festa por todo o reino.

A boda teve lugar no bosque mesmo junto ao ribeiro, sendo assistida por uma multidão de pessoas e abençoada pela fada-madrinha e celebrada pela Senhora das Águas. Os trajes de Aurora e o principe eram de cetim branco bordados a prata, com capa e véu, respetivamente, em cetim e gaze cor de champanhe.

A Senhora das Águas selou a união com Água e pérolas e no final todos festejaram, parte em terra, parte na água, mergulhando todos, após beberem água de um búzio.

A lua de mel foi uma longa viagem em alto mar, cruzando oceanos e conhecendo novas paragens, tanto cidades populosas, como ilhas quase desertas.

Raimundo reinou por longo tempo, sendo conhecido pela sua aliança e respeito pela água e pela natureza, seguindo sempre a voz do seu coração e contando sempre com o apoio e partilha em amor e cumplicidade, da sua rainha Aurora. Os seus filhos sucederam-lhe, seguindo o seu exemplo de respeito por tudo à sua volta, bem como o amor pelas artes.

FIM
 http://artlira.blogspot.pt/2013/04/conto-o-principe-trovador-1-parte-de.html
http://artlira.blogspot.pt/2013/06/conto-o-principe-trovador-2-parte-de.html

Imagens:
Meghan Photography
Joseph Brewster Photography
Rowena Morrill

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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Conto: " O Despertar" - de Florbela de Castro


Daniel olhava para a sua chávena de café, sentado sozinho numa mesa. O frio da rua congelara-lhe os músculos da face e as mãos enregeladas como que aconchegavam a chávena quente, numa tentativa vã de aquecer as mesmas. Nem se atrevera a tirar o gorro que cobria os seus cabelos cor de mel.

O seu olhar perdido no fundo da chávena traduzia o seu profundo estado de aborrecimento, o que nas últimas semanas se tornara frequente.

A vida era sempre a mesma coisa, sem sabor nenhum. Casa-trabalho, trabalho-casa. Sem namorada;sem passatempos. Nada de diferente se passava além da rotina habitual. A vida nocturna deixara de ser apelativa; as conversas dos amigos também o haviam desmotivado há muito. Vogava num marasmo que lhe apertava o peito a cada dia que passava e ao mesmo tempo o fazia viver num limbo constante.

Saiu para a rua deixando que o sol brilhante daquele inverno lhe ferisse os olhos claros. Que fazia ele cá no mundo? A interrogação bailava-lhe no pensamento, enquanto os olhos se marejavam de lágrimas. Não se importava de chorar em plena rua. Que lhe importava a multidao?Aliás, como conseguiriam eles viver a vida? Seria dificil? Vazia? Intensa?

Os pensamentos invadiam-lhe a mente em catadupa e desordenados, caóticos. Sentiu uma vertigem. Podia ser fraqueza. Afinal acordara cedo e ainda não comera nada sólido. Ainda não era meio-dia mas decidiu comer um cachorro quente numa roulotte. Doia-lhe o corpo todo e a vertigem voltara, mesmo já tendo comido quase todo o apetitoso e recheado cachorro. Tentou equilibrar-se e olhou em volta cautelosamente, porém a paisagem fechou-se numa tela escura, de forma abrupta.

Quando acordou encontrava-se no hospital. Panóplias de exames, azáfama.

O veredito atingiu-o como um raio que fende uma árvore até à sua raiz: Cancro.

Mas como?... Como o cancro se atrevia a vir ceifá-lo quando ainda se encontrava no inicio da sua terceira década de vida?!

Perplexo, revoltado e apavorado. Como a vida era irónica! Ainda há dois dias atrás Daniel pusera a hipótese de não viver mais, e agora...

De dia passaram a ser os exames e tratamentos e à noite as lágrimas do medo e do alivio de ainda estar vivo.

Cada noite Daniel pensava em todas as coisas que poderia ainda realizar, coisas que não lhe interessavam antes mas que agora pareciam ter um valor precioso. O sol, as estrelas, o cheiro da relva molhada e das árvores no inverno ou aroma da primavera... Pintar, escrever, andar, ir a feira popular, tirar fotos, visitar monumentos, cozinhar.

Todos os dias pensava nisso, sonhava como essas pequenas coisas. Até que esses pensamentos se tornaram em bálsamos para a sua dor interna e para a suas dores fisicas também.

Os meses passaram e Daniel foi recuperando. Saiu de casa dos pais e voltou para o seu t0. Redecorou-o, pintou-o de cores vivas e padrões vivos e formas loucas.Cozinhou,passeou, praticou yoga e tornou-se amante da Natureza. Parecia ter morrido e renascido como uma fénix renasce das cinzas.

Contudo uma das coisas que puxou mesmo o homem renovado foi escrever. Cantar no papel o que alma lhe entoava. Enchia folhas de poemas e textos e mais tarde de belos contos imaginados. Sentia-se leve como uma pena e brilhante como uma borboleta.




Daniel olhava para o seu copo de água sentado numa mesa comprida e com outras pessoas. O calor do local permitia-lhe ter as mãos quentes. Recordava com benevolência o seu doloroso despertar e de como a sua vida fora impulsionada para uma enorme transformação a todos os niveis.

E esse caminho levara-o aqui.

Era o trigésimo livro que autografava. Passou a mão nos cabelos grisalhos de seis décadas e meia.

Sorriu cúmplice para a sua amada doce e graciosa mesmo com o passar dos anos. Como era bom abraçar a vida a cada instante.

FIM



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Imagem :
http://www.sodahead.com


domingo, 23 de março de 2014

domingo, 20 de outubro de 2013

Fábula "Aurilândia" 1ª Parte - de Florbela de Castro, Monica Hadik e Jorge Queirós





Na Aurilândia, país abençoado pelas fábulas, o dia raiava. A fauna e a flora despertavam timidamente, abraçadas pelo calor e claridade que emanavam do sol.


Ao longe avistavam-se esbeltas árvores, altas e verdejantes. A forma como se entrelaçavam não deixava transparecer qualquer tipo de vida. Logo ao lado, um lago imenso que se perdia no horizonte. Suas águas calmas e cristalinas alimentavam todo o tipo de vida presente na Aurilândia. Um campo imenso se estendia para além do lago. Verde relva alegrava aquelas paragens como se de um semblante sorridente se tratasse, solto pelas águas, onde flores repousavam e lindas aves e borboletas cantarolavam e mostravam as suas cores em todo o seu esplendor.

À medida que se afastava das águas, o terreno ia-se tornando cada mais mais árido e seco, dando lugar a um vasto campo que se estendia pela imensidão. O sol fazia realçar a sua beleza dourada. Um contraste moldado pela Mãe Natureza, também ele belo.


Todas as manhãs, com o raiar do sol, Iris despertava os restantes habitantes de Aurilândia. Com suas cores belas e reluzentes, iluminava toda a floresta encantanda. Por entre as árvores voava, como que cumprimentando tudo e todos. E com ela, o dia começava cheio de luz e alegria.




Iris era toda ela linda, como nunca ninguém antes vira ou imaginara. As curvas das suas asas, delineadas e perfeitas, batiam suavemente. E era com esse suave bater, que Iris despertava os restantes habitantes. Por onde passava Iris deixava para trás uma leve brisa perfumada que inundava Aurilândia não só de alegria, como também de esperança. O rebordo de suas asas em azul forte brilhava, não menos que os perfeitos circulos em amarelo dourado, como que salpicados, que iluminavam a selva à medida de voava por entre as árvores.

E era assim, que todos os dias se fazia luz na Aurilândia.

Um a um os habitantes da Aurilândia despertaram para um novo dia.



Giselle esticava o seu pescoço como que a confirmar se o dia realmente nascera. Sua postura era altiva. Habituada a ver o mundo lá do alto, questionava tudo e todos, confiando somente naquilo que seus olhos viam, vivendo num universo paralelo aos demais.


- “Ninguém vê o mundo como eu! Consigo avistar a quilómetros de distância. Daqui até ao Além!” – Pensava, no alto da sua superioridade. Segundo ela, isso a tornava mais sábia que todos os outros habitantes.



- “Cuidado! Nem tudo o que é importante está ao alcance da vista!” – Avisava, sabiamente, o mocho Oziel – “Há coisas mais importantes que só conseguimos ver com o coração!” – Oziel viajava pelo mundo fora de forma a transmitir os seus ensinamentos. Com seus grandes olhos brilhantes, cor de amêndoa e um coração doce como o mel, conseguia ver para além da aparência. Oziel conseguia ver a essência de cada um, representando no seu olhar a luz da Sabedoria e do Bem.

Assim, mal pressentiu que algo de errado se passava na Aurilândia, encontrou poiso na árvore mais baixa que encontrou. Daí conseguia avistar cada um dos habitantes e vivenciar o dia-a-dia de cada um. Oziel tornara-se assim um novo habitante de Aurilândia.

Apesar de sua presença ser notada por todos, ninguém lhe prestava a devida atenção. Cada qual vivia a sua vida indiferente à presença daqueles que partilhavam o mesmo habitat, não reparando sequer no sinal que lhes fora enviado pelo Divino. Por entre a penumbra somente os olhos de Oziel se avistavam, como se de duas estrelas se tratassem.

- “Porque não levas a tua filha a banhar-se nas águas do grande lago?!” – Perguntava Oziel a Olímpia – “As águas estão calmas e claras! As crianças gostam de brincar nas águas!


Olímpia tinha medo. Apesar da sua aparência majestosa, tinha um coração de ouro. No entanto, achava que devido ao seu tamanho, os outros habitantes iriam temê-la e anos mais tarde, à sua filha também. Por isso, preferia refugiar-se entre as árvores, onde podia assim evitar as grandes convivências com os restantes animais.





- “As águas desse imenso lago são lindas e espelhantes. Não quero que Ellie veja a sua real aparência!” – Respondia ela a Oziel.



- “Não deves privar tua filha de conviver com os restantes animais somente pela vossa grandiosa postura! Pois apesar de grande e imponente, Ellie tem um bom coração! Nada faria que pudesse ferir os seus familiares e amigos!”



Entretanto, o macaco Taruk acompanhava o raiar de um novo dia com um acordar preguiçoso e despreocupado. A sua companheira, Mara, já havia tratado da filhota Mimi com o seu zelo de mãe protetora, assim como recolhendo da natureza o alimento necessário para o dia que se avizinhava.

Ciente disso, Taruk tinha o dia só para si. Como sempre. O resto estava garantido.Assim sendo, desceu de um só lanço a árvore que albergava a família e iniciou o seu quotidiano rotineiro mas que muito apreciava: observar tudo e todos e se possível fazer-se notar, com o recurso às macacadas mais imprevisíveis, se preciso fosse.

Oziel a tudo assistia sem nada dizer. O comportamento algo irresponsável de Taruk merecia-lhe reparos, mas não havia chegado o momento de o fazer, respeitando o curso natural da vida.



Por seu turno, Tairo, o tigre, espreguiçou-se majestosamente e fitou a natureza em seu redor com a firmeza e ferocidade de quem se acha o válido governador daqueles dominios. Sentia-se calmo por se achar o melhor mas ao mesmo tempo congeminava numa forma de ser aceite pelos outros como o Rei da Aurilândia. Leões? Bah, decerto todos estavam fartos do seu domínio e já era hora de mudarem para um governante realmente capaz e astuto. Rei morto, rei posto.



Lilly pressentia o que Tairo pensava. Suave gazela, presa fácil dos grandes predadores, era doce, assustadiça, graciosa e insegura do seu valor. Olhou o seu reflexo nas águas do lago, que lhe devolveu a sua imagem, de enormes olhos castanhos-escuros, pêlo sedoso e figura esbelta. Estava sempre em alerta, pronta a fugir ao menor som. Pouco convivia com os outros. Gostava da borboleta e observava os outros ao longe. Levantou a cabeça, avistando Oziel e ficou parada como que tentando sentir se podia confiar ou não.

- Nada temas de mim - Assegurou Oziel - Não sou um grande predador, mas sim alguém que correu mundo e já viu muito.

- Se eu tivesse asas estaria a salvo de outros predadores. - murmurou Lily insegura.

- Isso é porque não valorizas o teu porte e graciosidade... Um dos animais mais belos do reino - afiançou Oziel com um sorriso. E depois acrescentou em tom confidente - Tairo nada fará contra ti no presente momento. Interessa-lhe ganhar a confiança dos animais da selva para depôr o leão.


Lily suspirou aliviada. Sempre era um peso que lhe saía, ainda que por tempo indefinido.

Oziel por seu turno, meditava em como as coisas poderiam ser diferentes em Aurilândia Contudo já chegara à conclusão que todos viviam para si mesmos e não em comunidade, totalmente desagregados uns dos outros, com comportamento inflexível e sem abertura às mudanças. Com tanta intolerância, Oziel reflectia que só um grande acontecimento poderia transformar tudo e todos.


Fim 1ª parte


imagens retiradas da net

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Conto: " O Príncipe Trovador" - 2ª parte - de Florbela de Castro


Seis anos volveram. Aurora nunca mais ouvira falar de Raimundo. Na Primavera seguinte ao nascimento das crianças, Aurora arranjou trabalho numa terra longe dali. Foi com algum pesar que abandonou a sua linda cabana e partiu.
Trabalhava por vezes sozinha em encomendas e outras vezes com outras costureiras e bordadeiras.
Um belo dia ouviu um burburinho nas ruas da aldeia: O príncipe daquele reino ia casar. A futura princesa já chegara de terras distantes com o seu séquito e encomendara a confecção do seu traje nupcial às melhores bordadeiras do reino.
Durante 4 longos anos, Raimundo esteve fora do país comandando a frota de navios do reino.
Ao quinto ano voltou, finda a sua missão. Não tardou em procurar Aurora e a sua cabana. Selou o cavalo e antes disfarçou-se como costumava fazer antes.
Porém, quando chegou ao local da cabana encontrou tudo abandonado. Raimundo procurou angustiado. Nada. Ela desaparecera. Atormentado, correu desorientado, chamando por Aurora. Seria possível ela tê-lo esquecido? Negou esse pensamento violentamente, mas esta dúvida insinuou-se cada vez com mais força no coração do Príncipe, até se instalar como uma certeza indubitável. Raimundo corria agoniado adentrando a floresta cerrada e enublado pelas lágrimas que lhe jorravam pelos olhos. Uma poeira vermelha e ardente parou-lhe a corrida, cegando-o por completo, enquanto ele caía sem sentidos.
Encontraram-no quase dois dias depois. A convalescença física durou poucas semanas. Mas a ferida na alma e nos olhos de Raimundo ficara para sempre.
Aurora bordava encantada as maravilhosas pérolas no vestido de noiva. Brevemente um grupo de bordadeiras se deslocaria ao palácio para a prova do traje.
Esse dia chegou e foi uma comitiva de costureiras e bordadeiras entusiasmadas que fez a sua entrada no Paço real. A princesa revelou-se autoritária e fria. Contudo Aurora fez por ser solícita e caiu de tal forma nas boas graças da princesa que esta a convidou para aia após o casamento com o príncipe. Era um pulo para uma vida melhor. No entanto Aurora tinha as suas reservas. Não gostava da corte e apesar dos murmúrios de protesto das colegas, não deu uma resposta definitiva para a futura princesa do reino.

Três dias antes da boda, já a noite ia alta, quando da lua surgiu a fada que Aurora vira em tempos.
- Sei que recebeste um convite para trabalhar no paço que pensas não aceitar. No entanto preciso que vejas uma coisa que pode realmente te mostrar qual o teu caminho.
E com a varinha de condão tocou em Aurora que assim se viu trajada com maravilhoso vestido de brocado Ouro velho entremeado num tom de laranja quente quase como uma chama, com saiotes em cetim laranja fogo e gaze dourado; Os sapatos eram de cetim dourado com pequeno laço de gaze laranja preso cm um magnífico diamante; os belos cabelos escuros encontravam-se entrançados no alto enquanto a cabeça era rodeada de uma magnifica fieira de diamantes em finíssimo fio de ouro.
Quando Aurora viu-se ao espelho não pode reprimir um grito de espanto. A fada recomendou que ela levasse a capa azul com que Raimundo a tinha conhecido e nunca a tirasse durante o baile. Assim permaneceria irreconhecível para os demais, enquanto que para o príncipe seria um elo de reconhecimento.
Aurora compareceu no baile onde foi contemplada por todos os presentes. Maravilhosos trajes de damas e gentis-homens proliferavam por todo o salão. Cedo ela foi apresentada à família real e à futura princesa do reino que, como já era esperado, não a reconheceu. Ao ver o príncipe, Aurora ficou como que fulminada: Raimundo!
Por pouco não perdeu os sentidos. Agora ela percebia tudo. Especialmente o porquê dele ter desparecido…
  Este por sua vez reconheceu a sua presença e perturbado quis tirá-la para dançar. Um gentil-homem do seu séquito fez o papel de mediador.
Sentia que era a sua amada mas não podia ter a certeza porque não via. Mas o seu coração gritava-lhe que sim.
Enquanto dançavam tentou falar com ela, porém a comoção vivida por Aurora emudecera-a. Tinha perdido a voz.
Mesmo com o gentil-homem servindo de intermediário, o príncipe não conseguiu descobrir a sua identidade. Seria preciso um intermediário também que conhecesse Aurora e esta não podia revelar o seu disfarce.
Por questões de etiqueta, Raimundo teve de se afastar do seu par pois a família real reunia-se à volta do cravo. Apesar de cego o príncipe continuava a cantar e tocar e compor.
Juntamente com o mesmo gentil-homem, um com o alaúde e o outro no cravo e mais na flauta, cantou uma bela cantiga de amor, sobre um amor perdido no tempo mas jamais esquecido e por ele sempre alimentado.
Pareceu a Aurora que ele lhe dedicava a cantiga. O seu coração mudou enquanto ouvia a música. Era um sinal inequívoco de que ele se lhe dirigia.
Os três belos varões foram ovacionados pela maravilhosa melodia. A corte felicitava-os entusiasticamente. Aurora aproveitou a ocasião para se escapulir, voando para o exterior. Breve a rica carruagem a deixou na sua casa e desaparecia como por encanto. Já no quarto, à medida que se despia dos seus atavios, estes iam desaparecendo. Para sua surpresa a capa também desaparecera. Chorosa e confusa, Aurora deitou-se após verificar as duas crianças que dormiam há muito.

A fada deixara um bilhete em que a aconselhava a aceitar o convite de trabalhar como aia da nova princesa, após o que tinha visto. A Aurora só lhe apetecia desaparecer, mas acatou o conselho da fada.


No dia seguinte rumava para o palácio, enquanto que o príncipe mandava secretamente procurar por todo o reino, pela jovem de capa azul.


Fim da 2ª parte

Autoria Florbela de Castro
2013


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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Conto: " O Príncipe Trovador" - 1ª parte - de Florbela de Castro





Era uma vez numa cidade de Itália um belo príncipe de caracóis escuros e olhos azuis que já passara da idade casadoira. Seu nome era Raimundo. O príncipe Raimundo adorava navegar e trovar. Era frequente ouvi-lo dedilhar o seu alaúde ou escrever quadras. Não se interessava pelo governo do reino o que muito exasperava seu pai, o rei. Amava o mar e também o campo, para onde frequentemente se escapava sozinho ou escassas vezes acompanhado dum único escudeiro seu amigo. Ia sempre disfarçado para que não o reconhecessem.

De vez em quando o rei concebia bailes chamando várias princesas com o intuito de arranjar uma que satisfizesse o príncipe e o levasse a casar. Mas este não se decidia por nenhuma.

Aurora era uma linda tecedeira e bordadeira que vivia no campo, longe do palácio Real. Habitava numa bonita e graciosa cabana rodeada de flores e um tapete verdejante ao seu redor e rendas no seu interior. Adorava o campo e o mar mas raramente via este último pois era longe de sua casinha. Falava com as plantas e as flores e os animais eram seus amigos. Admirava o sol e a lua. Uma noite em que o céu estava límpido e estrelado e a lua estava cheia, deixou-se levar pelos seus pensamentos sonhando com um amor e uma família, a certa altura viu da própria lua sair uma bola de fogo branca que se aproximou da sua janela. A bola tomou a forma duma linda mulher etérea que se apresentou como sendo uma fada.

- Minha querida, sei que sonhais com um grande Amor. Em breve, quando chegar o Outono, vai-te aparecer alguém para concretizar esse sonho, no entanto precisas de estar preparada. Confia em mim. Faz uma capa para estares preparada para o seu aparecimento.

- Mas como saberei que é ele?- interrogou Aurora curiosa.

- O vosso coração o reconhecerá. Chama-me quando terminares a capa.

A jovem mulher deitou mãos à obra e como tinha poucos recursos costurou uma capa de chita com capuz. Quando terminou, chamou a fada e esta surgiu, olhou para a capa e tocou-a com a sua varinha de condão e transformou-a numa belíssima capa de veludo azul, recomendando-lhe que a usasse sempre ao fim da tarde.

Aurora assim fez. Quando chegou o outono dava pequenos passeios nas imediações da sua cabana ao fim da tarde ficando a admirar o pôr-do-sol e depois as estrelas.

Raimundo entediava-se no Palácio. Passara todo o Verão em festas próprias da estação, mas agora que o Outono dava ar da sua graça, sentia um vazio dentro de si. A vida no palácio podia ser frenética mas não o preenchia. Levantou-se repentinamente, mudou para uns trajes modestos e dirigiu-se às cavalariças, selando um cavalo.

Pouco tempo depois cavalgava veloz, sentindo, deliciado, o vento no rosto e cabelos.

De repente vislumbrou um vulto embuçado junto a um tapete de flores. Apeou-se curioso. Quando já estava perto a pessoa voltou-se para ele revelando a sua beleza feminina. O príncipe sentiu-se imediatamente fascinado.

Aurora olhou o desconhecido com o coração exultante. Era Ele.

- As mais belas flores não fazem jus à tua formusura. – Declarou Raimundo com voz suave.

Aurora corou, sentindo-se emocionada.

Raimundo permaneceu na companhia da linda mulher até ser noite cerrada, sem no entanto revelar a sua verdadeira identidade. Por seu turno Aurora jamais tirava a sua capa.

A partir daquele dia, o príncipe rumava frequentemente para a cabana de Aurora. Todas essas vezes, ele oferecia-lhe flores e frutos, comiam juntos, falavam, brincavam e amavam-se. Raimundo levava o seu alaúde e dedilhava-o, tocando e cantando belos versos de amor que lhe saíam do seu coração. Aurora escutava-o embevecida. Cheios de cumplicidade trocavam frases de amor que se tornavam em belas quadras.

Assim se passou o Outono e grande parte do Inverno, com momentos cheios de amor, felicidade e cumplicidade.



Um dia, caiu um forte nevão e o príncipe viu-se impedido de aparecer. E no dia seguinte. E no dia seguinte também. Raimundo ardia de impaciência e o rei acabou por reparar no seu estado agitado. Aliás o rei já há muito que desconfiava das saídas secretas do seu filho. Convocou o seu ministro e declarou:

- Temos um problema, suspeito que o meu filho tenha um romance clandestino. E tenho de impedir que continue!

- Podeis mandá-lo além-mar, o príncipe adora velejar! Mesmo estando a nevar podeis enviá-lo até a outra zona do nosso vasto país e daí fazê-lo embarcar. – Sugeriu o ministro com voz melíflua.

O rei concordou satisfeito. Naquela mesma tarde anunciou a dita viagem ao príncipe. Este pensou em Aurora, mas adorava velejar e aquela viagem era necessária para o reino. Voltaria a vê-la mal voltasse.

Aurora esperava ansiosa pela volta de Raimundo. Calculava que o nevão o impedia de lá voltar mas o tempo passou, o nevão passou, o inverno passou e Raimundo não aparecia. A bela mulher chamava a fada nas luas cheias mas não obtinha resposta. Ficou só vendo o seu ventre crescer pouco a pouco. Sentia-se desventurada pela ausência do seu amado e nada lhe devolvia a alegria. Soluçava diariamente saudosa do seu amado, sem compreender o porquê do seu desaparecimento. Somente o fruto que crescia dentro de si lhe trazia esperança e alegria. Podia ser que ele retornasse um dia. Mas os meses sucediam-se e nem sinal de Raimundo.

Perto do Outono seguinte Aurora deu à luz um lindo casal de gémeos.

Embrulhou-os na capa de veludo tristemente, pensando no seu amado e beijando as crianças com amor. Estava só no mundo. Que seria agora do seu destino? Em voz alta perguntou com todo o seu coração:

- Meu amor, porque me abandonaste?

Lá longe, Raimundo pensava em Aurora imensas vezes, sentindo uma saudade imensa e desconhecendo que fora pai.

Olhou o céu sentindo um aperto no coração e murmurou:

-Meu amor, não te esqueci, não te abandonei, espera que eu volto.

E fechou os olhos deixando rolar algumas lágrimas pelo seu rosto.




Fim da 1ª parte

Autoria de Florbela de Castro

Imagens retiradas da net

2ª imagem por Sharon Shar

Link da 2ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2013/06/conto-o-principe-trovador-2-parte.html

Pode compartilhar livremente a obra desde que respeite os créditos. 
Todos os direitos reservados.  


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