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domingo, 20 de outubro de 2013

Fábula "Aurilândia" 1ª Parte - de Florbela de Castro, Monica Hadik e Jorge Queirós





Na Aurilândia, país abençoado pelas fábulas, o dia raiava. A fauna e a flora despertavam timidamente, abraçadas pelo calor e claridade que emanavam do sol.


Ao longe avistavam-se esbeltas árvores, altas e verdejantes. A forma como se entrelaçavam não deixava transparecer qualquer tipo de vida. Logo ao lado, um lago imenso que se perdia no horizonte. Suas águas calmas e cristalinas alimentavam todo o tipo de vida presente na Aurilândia. Um campo imenso se estendia para além do lago. Verde relva alegrava aquelas paragens como se de um semblante sorridente se tratasse, solto pelas águas, onde flores repousavam e lindas aves e borboletas cantarolavam e mostravam as suas cores em todo o seu esplendor.

À medida que se afastava das águas, o terreno ia-se tornando cada mais mais árido e seco, dando lugar a um vasto campo que se estendia pela imensidão. O sol fazia realçar a sua beleza dourada. Um contraste moldado pela Mãe Natureza, também ele belo.


Todas as manhãs, com o raiar do sol, Iris despertava os restantes habitantes de Aurilândia. Com suas cores belas e reluzentes, iluminava toda a floresta encantanda. Por entre as árvores voava, como que cumprimentando tudo e todos. E com ela, o dia começava cheio de luz e alegria.




Iris era toda ela linda, como nunca ninguém antes vira ou imaginara. As curvas das suas asas, delineadas e perfeitas, batiam suavemente. E era com esse suave bater, que Iris despertava os restantes habitantes. Por onde passava Iris deixava para trás uma leve brisa perfumada que inundava Aurilândia não só de alegria, como também de esperança. O rebordo de suas asas em azul forte brilhava, não menos que os perfeitos circulos em amarelo dourado, como que salpicados, que iluminavam a selva à medida de voava por entre as árvores.

E era assim, que todos os dias se fazia luz na Aurilândia.

Um a um os habitantes da Aurilândia despertaram para um novo dia.



Giselle esticava o seu pescoço como que a confirmar se o dia realmente nascera. Sua postura era altiva. Habituada a ver o mundo lá do alto, questionava tudo e todos, confiando somente naquilo que seus olhos viam, vivendo num universo paralelo aos demais.


- “Ninguém vê o mundo como eu! Consigo avistar a quilómetros de distância. Daqui até ao Além!” – Pensava, no alto da sua superioridade. Segundo ela, isso a tornava mais sábia que todos os outros habitantes.



- “Cuidado! Nem tudo o que é importante está ao alcance da vista!” – Avisava, sabiamente, o mocho Oziel – “Há coisas mais importantes que só conseguimos ver com o coração!” – Oziel viajava pelo mundo fora de forma a transmitir os seus ensinamentos. Com seus grandes olhos brilhantes, cor de amêndoa e um coração doce como o mel, conseguia ver para além da aparência. Oziel conseguia ver a essência de cada um, representando no seu olhar a luz da Sabedoria e do Bem.

Assim, mal pressentiu que algo de errado se passava na Aurilândia, encontrou poiso na árvore mais baixa que encontrou. Daí conseguia avistar cada um dos habitantes e vivenciar o dia-a-dia de cada um. Oziel tornara-se assim um novo habitante de Aurilândia.

Apesar de sua presença ser notada por todos, ninguém lhe prestava a devida atenção. Cada qual vivia a sua vida indiferente à presença daqueles que partilhavam o mesmo habitat, não reparando sequer no sinal que lhes fora enviado pelo Divino. Por entre a penumbra somente os olhos de Oziel se avistavam, como se de duas estrelas se tratassem.

- “Porque não levas a tua filha a banhar-se nas águas do grande lago?!” – Perguntava Oziel a Olímpia – “As águas estão calmas e claras! As crianças gostam de brincar nas águas!


Olímpia tinha medo. Apesar da sua aparência majestosa, tinha um coração de ouro. No entanto, achava que devido ao seu tamanho, os outros habitantes iriam temê-la e anos mais tarde, à sua filha também. Por isso, preferia refugiar-se entre as árvores, onde podia assim evitar as grandes convivências com os restantes animais.





- “As águas desse imenso lago são lindas e espelhantes. Não quero que Ellie veja a sua real aparência!” – Respondia ela a Oziel.



- “Não deves privar tua filha de conviver com os restantes animais somente pela vossa grandiosa postura! Pois apesar de grande e imponente, Ellie tem um bom coração! Nada faria que pudesse ferir os seus familiares e amigos!”



Entretanto, o macaco Taruk acompanhava o raiar de um novo dia com um acordar preguiçoso e despreocupado. A sua companheira, Mara, já havia tratado da filhota Mimi com o seu zelo de mãe protetora, assim como recolhendo da natureza o alimento necessário para o dia que se avizinhava.

Ciente disso, Taruk tinha o dia só para si. Como sempre. O resto estava garantido.Assim sendo, desceu de um só lanço a árvore que albergava a família e iniciou o seu quotidiano rotineiro mas que muito apreciava: observar tudo e todos e se possível fazer-se notar, com o recurso às macacadas mais imprevisíveis, se preciso fosse.

Oziel a tudo assistia sem nada dizer. O comportamento algo irresponsável de Taruk merecia-lhe reparos, mas não havia chegado o momento de o fazer, respeitando o curso natural da vida.



Por seu turno, Tairo, o tigre, espreguiçou-se majestosamente e fitou a natureza em seu redor com a firmeza e ferocidade de quem se acha o válido governador daqueles dominios. Sentia-se calmo por se achar o melhor mas ao mesmo tempo congeminava numa forma de ser aceite pelos outros como o Rei da Aurilândia. Leões? Bah, decerto todos estavam fartos do seu domínio e já era hora de mudarem para um governante realmente capaz e astuto. Rei morto, rei posto.



Lilly pressentia o que Tairo pensava. Suave gazela, presa fácil dos grandes predadores, era doce, assustadiça, graciosa e insegura do seu valor. Olhou o seu reflexo nas águas do lago, que lhe devolveu a sua imagem, de enormes olhos castanhos-escuros, pêlo sedoso e figura esbelta. Estava sempre em alerta, pronta a fugir ao menor som. Pouco convivia com os outros. Gostava da borboleta e observava os outros ao longe. Levantou a cabeça, avistando Oziel e ficou parada como que tentando sentir se podia confiar ou não.

- Nada temas de mim - Assegurou Oziel - Não sou um grande predador, mas sim alguém que correu mundo e já viu muito.

- Se eu tivesse asas estaria a salvo de outros predadores. - murmurou Lily insegura.

- Isso é porque não valorizas o teu porte e graciosidade... Um dos animais mais belos do reino - afiançou Oziel com um sorriso. E depois acrescentou em tom confidente - Tairo nada fará contra ti no presente momento. Interessa-lhe ganhar a confiança dos animais da selva para depôr o leão.


Lily suspirou aliviada. Sempre era um peso que lhe saía, ainda que por tempo indefinido.

Oziel por seu turno, meditava em como as coisas poderiam ser diferentes em Aurilândia Contudo já chegara à conclusão que todos viviam para si mesmos e não em comunidade, totalmente desagregados uns dos outros, com comportamento inflexível e sem abertura às mudanças. Com tanta intolerância, Oziel reflectia que só um grande acontecimento poderia transformar tudo e todos.


Fim 1ª parte


imagens retiradas da net
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