Blogue simples e personalizado, de conteúdo essencialmente literário, dando voz tanto a autores desconhecidos como veiculando autores célebres; com pequenos focos na música, pintura, fotografia, dança, cinema, séries, traduzindo e partilhando alguns dos meus gostos pessoais.
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Mostrando postagens com marcador Autoria: Sofia de Castro Sampaio. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira, 4 de março de 2011

Conto: "O Tocador de Lira" - de Florbela de Castro




Em tempos idos, em Esparta, na Grécia, quando os deuses tinham por hábito passear e relacionar-se com os humanos, existiu uma bela e culta jovem por quem o deus Apolo teve uma paixão e cortejou, sem no entanto revelar a sua identidade. Lisandra era o seu nome.
Num dos seus encontros secretos, nos arredores, fora do centro da pólis, Lisandra surgiu chorosa e ofegante. Contou que havia sido injuriada por um homem casado, que a quisera tomar como amante e como ela o havia recusado, este iniciara uma campanha difamatória que a pusera em maus lençóis.
A rapariga rogava por uma hipótese de se defender com equidade, mas não sabia como desmascarar o homem e sua esposa (pois esta se unira ao mesmo na campanha) e travar aquela redoma de calúnia. Apaixonado, Apolo, querendo ajudá-la a ilibar-se de todas as acusações, ofereceu-lhe a Lira da Verdade.
Esta lira tinha o dom de revelar a pura essência das pessoas, dos animais e de todas as formas de vida. Com o instrumento em sua posse, a jovem rapariga triunfou na sua busca por justiça.
Agradecida e enternecida, rendeu-se ao belo desconhecido, tendo nascido dessa entrega um lindo rapaz….


A lira permaneceu por algumas gerações na família de Lisandra, rodeada de lendas a seu respeito, até ao dia em que foi vendida pelo seu tetraneto, pois a família achava-se em grandes embaraços financeiros e o instrumento era de ouro.

Vários séculos mais tarde, noutro reino da Europa, havia uma família de mercadores, numa vila à beira mar. O comércio corria-lhes de feição, vivendo desafogados e até se podiam dar ao luxo de coleccionar objectos antigos. Por entre o espólio guardado encontrava-se uma lira muito antiga, cuja proveniência ninguém conseguia mais recordar. Contavam-se na família algumas lendas sobre o dito instrumento, contudo as mesmas eram demasiado fantasistas e poucos eram os que acreditavam. Uma das versões do mito era que quem tocasse a lira, conseguia revelar o verdadeiro interior de cada pessoa, independentemente do seu aspecto físico, mas tal feito jamais acontecera.
Rafael crescera no meio dessas lendas e objectos e tornara-se um belo homem de pele diáfana com corpo esguio, bem delineado e musculado, uns sedosos cabelos cacheados em castanho claro que lhe emolduravam o perfeito mas altivo rosto, um nariz aquilino mas não menos harmonioso, uns lábios cheios e rosados e, como um perfeito acabamento, uns cílios fartos e curvos que encimavam uns amendoados olhos verdes. Apesar de belo, Rafael era frio e distante, chegando a ser trocista, apreciando de longe toda e qualquer azáfama que presenciasse. Não se importava o suficiente com o sofrimento das pessoas, alimentando-se avidamente de querelas, pois estas lhe transmitiam uma sensação de adrenalina. O facto de não se querer envolver em quaisquer disputas só espelhava o seu caráter altivo de que ele próprio se encontrava acima de qualquer modelo.
Certo dia seu pai o mandara catalogar todo o espólio guardado no sótão da casa e ao achar a lira, reminiscências das lendas surgiram-lhe na mente como sussurros, sentindo uma vontade súbita de tocar o instrumento. Contudo conteve-se e guardou-o zelosamente nos seus aposentos.
Após a ceia, já recolhido na sua alcova, o rapaz lustrou a bela lira e dedilhou-a distraidamente, ao acaso. De repente, no seu campo de visão, a flor já murcha, plantada num vaso, que enfeitava o parapeito da janela, refloresceu viçosa e cheia de brilho! Os olhos do jovem mal podiam crer no que viam. Seria tal feito possível ou estaria ele a ter uma alucinação?
Rafael abanou a cabeça, concluindo que talvez bebera uns copos a mais durante a ceia, e continuou a arpejar as cordas da lira.
Naquele momento foi interrompido pela entrada da criada que o vinha instar a dormir. No instante em que olhou para a anafada e maternal serva, uma surpreendente metamorfose teve lugar: a bondosa mulher transformou-se numa elegante e bonita senhora!
Atordoado, Rafael levantou-se de rompante. Sem suspeitar da sua própria transformação, a serviçal saiu lestamente do quarto, deixando um boquiaberto Rafael, sem qualquer reacção.
Este olhou para a lira conjecturando e apercebendo-se que todas as lendas eram, afinal, verdadeiras.
A partir desse dia o rapaz passou a testar a lira, obtendo resultados surpreendentes. Na vila, quase todos os habitantes sofreram transformações ao soar do instrumento; a própria natureza em redor, tornara-se mais bela e de cores mais vivas e graciosas; até os animais transmutaram a sua aparência para algo mais grandioso.
Evidente que todas estas alterações causaram enorme estardalhaço entre os habitantes, mas nada que abalasse o jovem, que até gostava de ver o circo pegar fogo sem se importar com as consequências.
E, assim, Rafael partiu em peregrinação por montes e vales, vilas, aldeias e cidades, sempre causando o mesmo efeito quando tocava a lira, no entanto, sem se deter perante a confusão que ele acarretava. A certa altura a fama já o precedia, deixando-o envaidecido.
Numa das suas paragens por uma pequena aldeia nas montanhas, deparou-se, junto a uma fonte, com uma jovem feia mas com um ar doce e delicado. Acercou-se desta e com um trejeito trocista dispôs-se a dedilhar a lira enquanto dizia: - Queres que te toque uma música? Decerto não te vais arrepender.
A jovem virou-se de imediato e respondeu-lhe: - Sei quem sois. A sua fama precede-o. E eu não tenho intenções algumas de lucrar com a sua lira mágica.
Todavia, Rafael ignorou as palavras da rapariga com um sorriso malicioso, uma atitude superior e convencido de que a sua intervenção era indispensável e que a jovem estava, na realidade, a fazer-se de difícil. Pôs a sua lira de prontidão e tocou uma de suas músicas melodiosas, observando. Enquanto as notas harmoniosas soavam no ar, tocavam a verdadeira essência da rapariga, transfigurando-a numa formosíssima donzela de rara beleza; vastos cabelos negros, ondulados e aveludados caiam-lhe como um manto, pela cintura; seus olhos, amendoados, brilhavam em tons de castanho e dourado, reluzindo com o sol como dois diamantes; as maçãs do rosto salpicavam com pequenas sardas, pintando o rosto cor de pêssego; por fim, os lábios, que ela constantemente humedecia, eram volumosos e arredondados, formando um círculo apetecível na sua boca.
Apesar de ele já ter visto inúmeras vezes modificações semelhantes em várias mulheres, jamais em tempo algum presenciara tamanha perfeição! Este feito tocou-o de uma forma tão profunda, que Rafael caiu inesperadamente de amores pela moça. Sim, o sarcástico e impiedoso Rafael que nada lhe tocava nem demovia, se apaixonou perdidamente. Perturbado por este sentimento que ele desconhecia e tomava conta dele, Rafael apressou-se a pedir desculpas gentilmente e tartamudeando, ofereceu-se para ser seu fiel escudeiro para sempre.
Mina, assim se chamava a jovem, não se deu por convencida pelos discursos de Rafael e, terminantemente, deu de costas e retirou-se. A partir dessa data, o jovem músico passou a perseguir a donzela com galanteios, serenatas e cortejos. Porém, nada conseguia dissuadir Mina. Um dia, ferido no seu ego e sem compreender porque a moça o recusava (ele que era tão bom partido), virou-se intempestivamente para ela e jogou a lira aos seus pés, exclamando: - Já que não me queres, e dizes que a lira é a causadora da tua repulsa, não a desejo mais!
A rapariga pegou na lira afastando-se silenciosamente. Entrou em sua casa e encaminhando-se para os seus aposentos, acariciou pensativamente a lira, retirando dela alguns acordes. Assim estava, sentada no seu toucador, perto de uma janela, de onde ele não arredava pé, triste e desprezado.
Apesar da arrogância, não lhe desagradara a atitude de Rafael de se ter desfeito da lira, apenas achava que ele era imaturo e necessitava de uma lição. Porém, essa consciência interior só poderia vir de Rafael e do seu coração.
Mas como fazê-lo entender que precisava de ser sensível e honesto com tudo o que o rodeava? E enquanto assim pensava, tirando acordes da lira, como por magia, Rafael metamorfoseou-se, naquele mesmo instante, perdendo toda a sua beleza e graça!
 Apercebendo-se da sua fealdade, Rafael berrou apavorado e atónito, atraindo a atenção da rapariga que veio em seu auxílio. Esta admirou-se do sucedido, pestanejando entontecida: “Como podia isto ser possível? …”
O filho de mercadores arfava, completamente desorientado e por fim, sentindo-se envergonhado da sua aparência, afastou-se correndo para bem longe da moça.


Refugiou-se numas grutas da montanha por longo período de tempo, torturado pelo sofrimento e amor que sentia e que não davam descanso ao seu coração. A humilhação assoberbava-o alternando com estados de vergonha, consternação e derrota. No período que se seguiu, o rapaz acabou por se conformar vivendo austeramente naquele local, sobrevivendo do que plantava; após essa época, acabou mesmo por tornar-se prestável a quem passava, com muita humildade e complacência, inclusivamente tornando-se benfeitor para os mais necessitados. Havia-se transformado num eremita de longas barbas e cabelos revoltos. Novamente a fama dos seus feitos espalhou-se pelas redondezas.


Cinco anos se volveram. Numa bela manhã ensolarada, Rafael achava-se a assar um peixe, pescado num riacho próximo, quando viu um vulto a aproximar-se. Os olhos do jovem barbudo ensombraram-se quando reconheceu a figura de Mina. Saudaram-se timidamente e ela estendeu um jarro de leite de cabra e um cesto com queijos, que ele aceitou polidamente:

 - Porque me vieste visitar? - Perguntou ele, fitando-a doce e tristemente.
Mina respondeu que tinha chegado há pouco tempo da cidade, para onde fora enviada por seus progenitores para completar a sua educação. Fora inteirada, após a sua volta, da vida ascética pela qual ele enveredara e, tocada, decidira visitá-lo.
 Congratulou-o pela sua nova forma de encarar a vida e interrogou-o se ele queria que ela lhe devolvesse a lira. Rafael olhou para o chão, resignado e abalado, respondendo que o instrumento de nada lhe servia se não podia usufruir do seu amor. Comovida, os olhos de Mina marejaram-se de lágrimas, pois sentia em seu coração a verdade e profundidade dos sentimentos de Rafael. Aproximou-se dele, abraçando-o ternamente e confessou-lhe amá-lo também, manifestando que a aparência não era o que realmente importava mas sim o interior de cada pessoa. O rosto do homem iluminou-se de felicidade e preparava-se para retribuir a declaração de amor, quando deu-se um grande clarão e do meio deste, surgiu um perfeito e musculado ser masculino.
Embasbacado o casal caiu de joelhos, fitando a bela aparência daquela atlética figura, trajado de túnica branca, cabelos castanhos cacheados e expressivos olhos da mesma cor. Era imponente e extremamente alto. Mina olhava-o estupefacta, não só pela sua magnificência, mas como também pela tamanha semelhança com a fisionomia de Rafael.
Com suavidade apresentou-se como sendo Apolo, o Deus do Sol, da Música e da Luz da verdade. Contou-lhes então a história da lira e da sua proveniência e de como ela fora parar à família de Rafael. E explicou aos pasmados jovens que a lira funcionara nas mãos de Mina porque esta provinha de uma linhagem familiar de Lisandra, que emigrara para aquele reino há algumas gerações.
Antes de partir, o deus dirigiu-se a Rafael congratulando-o pelo reconhecimento e expiação dos seus erros.
- Uma das maiores provas da índole de uma pessoa, é a capacidade que ela tem de demarcar a beleza interior da exterior e saber qual é de facto a mais importante. O que traz felicidade verdadeira é ter o coração aberto ao amor absoluto. – Dissertou sabiamente Apolo, num tom indulgente. E assim desvanecendo-se, abençoou aquele Amor que passara uma das mais duras provas de vida, devolvendo ao rapaz a bela aparência de outrora, pois esta já era o espelho fiel do novo Rafael.


E assim prosseguiram as suas vidas cultivando sempre a verdade, a compaixão e o amor incondicional.



FIM

Autoria de Florbela de Castro e Sophia B.R.



Pode compartilhar livremente a obra desde que respeite os creditos. 

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segunda-feira, 27 de julho de 2009

Mudanças de Humor



Mudanças de humor,
Odeio-as!
Fazem-me discutir
Com aqueles que amo.
Fazem-me fazer e dizer
Aquilo que não sinto.
Ora estou bem,
Ora estou mal.
Estas mudanças cansam-me,
Consomem-me,
Deixam-me sem inspiração.
Pior é que me sinto triste
Quando tudo de bom me acontece,
Quando sei que me amam
E que me apoiam.
Sinto-me negra
Quando há uma aura branca
Em meu redor.
Sinto-me vazia,
Com um grande espaço por preencher.
O estômago borbulha
E o coração acelera sem padecer.
A energia fica consumida
Como chamas ateadas.
Os sentidos não respondem
Aos apelos emitidos.
O corpo esmorece
E a alma não responde mais.
Sinto-me morta.
Ninguém me ouve,
Ninguém me sente,
Ninguém me compreende.
Não sabem o que sinto.
Dizem que é só um capricho,
Uma mania, uma maldade
Da minha parte.
Firo-os sem querer
E eles nem percebem
Que preciso deles
Quando digo que os quero
Fora da minha vida.
É uma mentira
Vivo numa mentira
Sou uma mentira
Sou apenas eu
Numa mudança de humor.
E elas são constantes.



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Autor da imagem: Heise Jinyao

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Dúvidas





Jovem:
“ Que raio de sentimento é este que precisa de ser correspondido para ser belo aos olhos de todos?


Que raio de pessoas são essas que Divinizam esse sentimento como uma máxima da vida mas, na realidade, traz tudo o que há de pior em nós:
• A infelicidade;
• A dor;
• A angústia;
• A solidão;
• A tristeza;
• A insatisfação;
• A dúvida da necessidade da nossa existência.


Mas que raio! Como é que esse sentimento nos deixa assim? Aliás, como raio é que esse sentimento nasce do nada? Porque raio não o podemos excluir de nós quando queremos? Porque raio temos de permanecer com algo tão indesejado e repugnante como o amor?”


Velho:
“ Meu filho, já alguma vez sentiste vontade de amar alguém e de ter um único momento que compense toda essa repugnância?”



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Autor da imagem: Heise Jinyao

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

"Ilha"

Com o verde em imensidão
E um areal interminável
Fez da Lua o seu coração
E do seu poder indominável.
Reinam nela animais encantados
Fadas, seres e princesas,
Ogres, elfos e cavalos alados;
Seres de todas as naturezas
E de todos os formatos.
Aqui, a paz é imprescindível
A afinidade e a sinceridade, também
A desordem é indizível,
As armas usadas para o bem.
Todas as raças se misturam
Tratam-se todos como irmanados
São os habitantes da ilha Urgzan
A ilha dos seres encantados


1ª Imagem da autoria de: Anne Stokes
www.annestokes.com


2ªimagem da autoria de: Heise Jinyao
http://www.heisejinyao.com