Blogue simples e personalizado, de conteúdo essencialmente literário, dando voz tanto a autores desconhecidos como veiculando autores célebres; com pequenos focos na música, pintura, fotografia, dança, cinema, séries, traduzindo e partilhando alguns dos meus gostos pessoais.
Sejam benvindos ao meu cantinho, ao meu mundo :)
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sábado, 2 de março de 2013

"Ode à Paz" - Natália Correia



Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos do amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves Outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas materiais e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco benigna,
Ó santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
Deixa passar a Vida!


in Drujba – Amizade, revista da Associação Portugal Bulgária, Julho/Setembro de 1969

Imagem retirada da net

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Eu Não Te Conheço, Mas Sei Que Existes... - Joaquim Pessoa





Eu sei, não te conheço mas existes.

por isso os deuses não existem,

a solidão não existe

e apenas me dói a tua ausência

como uma fogueira

ou um grito.

Não me perguntes como, mas ainda me lembro

quando no outono cresceram no teu peito

duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos

e perfumaram depois a minha boca.


Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.

não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos

sobre a tua nudez

como uma sombra no deserto.

É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,

Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.

É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares

Em todas as palavras do meu canto.


Tenho construído o teu nome com todas as coisas.

tenho feito amor de muitas maneiras,

docemente,

lentamente

desesperadamente

à tua procura, sempre à tua procura

até me dar conta que estás em mim,

que em mim devo procurar-te,

e tu apenas existes porque eu existo

e eu não estou só contigo

mas é contigo que eu quero ficar só

porque é a ti,

a ti que eu amo.


Imagem: jakutinga.blogspot.com

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"Talvez" - Pablo Neruda



Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

"As Casas" - Sophia de Mello Breyner Andersen


Há sempre um deus fantástico nas casas
Em que eu vivo. E em volta dos meus passos
Eu sinto os grandes anjos cujas asas
Contêm todo o vento dos espaços.

Autoria da imagem : Carolline Anna

"Ó Véspera do Prodígio! - IV" - Natália Correia


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas,nas fadas,nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses dum astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro.Amen.


Autoria da imagem : Selina Fenech

sábado, 4 de fevereiro de 2012

"A Rainha" - Pablo Neruda


Nomeei-te rainha.
Há maiores do que tu, maiores.
Há mais puras do que tu, mais puras.
Há mais belas do que tu, há mais belas.

Mas tu és a rainha.

Quando andas pelas ruas
ninguém te reconhece.
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém olha
a passadeira de ouro vermelho
que pisas quando passas,
a passadeira que não existe.

E quando surges
todos os rios se ouvem
no meu corpo,
sinos fazem estremecer o céu,
enche-se o mundo com um hino.

Só tu e eu,
só tu e eu, meu amor,
o ouvimos.

"Suave é ..." - Pablo Neruda


Suave é a bela como se música e madeira,
ágata, telas, trigo, pêssegos transparentes,
tivessem erigido a fugitiva estátua.
Para a onda dirige seu contrário frescor.

O mar molha polidos pés copiados
à forma recém-trabalhada na areia
e é agora seu fogo feminino de rosa
uma borbulha só que o sol e o mar combatem.

Ai, que nada te toque senão o sal do frio!
Que nem o amor destrua a primavera intacta.
Formosa, revérbero da indelével espuma,

deixa que teus quadris imponham na água
uma medida nova de cisne ou de nenúfar
e navegue tua estátua pelo cristal eterno.

Autor da Imagem : Ciruelo Cabral

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Morria a noite..."Raindranh Tagore



Morria a noite... Um murmúrio corria de boca em boca:

O MENSAGEIRO! O MENSAGEIRO! AÍ VEM O MENSAGEIRO!

Inclinei a cabeça e perguntei: Vem já?

De todas as partes parece que estalava o Sim da resposta.

O meu pensamento, atormentado, dizia:

Não tenho ainda pronta a cúpula do meu palácio, nada está completo.

Veio uma voz do céu: Derruba o teu palácio.

Porquê? perguntou o meu pensamento

Porque hoje é o dia da chegada

E o teu palácio estorva a passagem!

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inner-connection.nl
Autor da Imagem: Josephine Wall

"Se..." - Rudyard Kipling



Se podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu...
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê...Se vais faminto e nu,

Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...

Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...

Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu
risonho...

Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores...

Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...

Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio, a construir de novo...

Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante...

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...

Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraia em séculos fecundos...

Então, óh ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!... 

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  • Autor da imagem: Feimo

"Sei Que Pareço" - António Aleixo



Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.

"Balada da Neve - Luar de Janeiro" - Augusto Gil


Batem leve, levemente,

como quem chama por mim.

Será chuva? Será gente?

Gente não é, certamente

e a chuva não bate assim.



É talvez a ventania:

mas há pouco, há poucochinho,

nem uma agulha bulia

na quieta melancolia

dos pinheiros do caminho...



Quem bate, assim, levemente,

com tão estranha leveza,

que mal se ouve, mal se sente?

Não é chuva, nem é gente,

nem é vento com certeza.



Fui ver. A neve caía

do azul cinzento do céu,

branca e leve, branca e fria...

- Há quanto tempo a não via!

E que saudades, Deus meu!



Olho-a através da vidraça.

Pôs tudo da cor do linho.

Passa gente e, quando passa,

os passos imprime e traça

na brancura do caminho...



Fico olhando esses sinais

da pobre gente que avança,

e noto, por entre os mais,

os traços miniaturais

duns pezitos de criança...



E descalcinhos, doridos...

a neve deixa inda vê-los,

primeiro, bem definidos,

depois, em sulcos compridos,

porque não podia erguê-los!...



Que quem já é pecador

sofra tormentos, enfim!

Mas as crianças, Senhor,

porque lhes dais tanta dor?!...

Porque padecem assim?!...



E uma infinita tristeza,

uma funda turbação

entra em mim, fica em mim presa.

Cai neve na Natureza

- e cai no meu coração.

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"Ser Poeta" - Florbela Espanca



Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!


É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!


É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!


E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!



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amantesdelpuntodecruz.blogspot.com
Autor da imagem: Josephine Wall

"Amor é Fogo que Arde Sem Se Ver" - Camões



Amor é fogo que arde sem se ver;


É ferida que dói e não se sente;


É um contentamento descontente;


É dor que desatina sem doer;




É um não querer mais que bem querer;


É solitário andar por entre a gente;


É nunca contentar-se de contente;


É cuidar que se ganha em se perder;




É querer estar preso por vontade;


É servir a quem vence, o vencedor;


É ter com quem nos mata lealdade.




Mas como causar pode seu favor


Nos corações humanos amizade,


Se tão contrário a si é o mesmo Amor?




(1524-1580)

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deshow.net
Autor da Imagem: Josephine Wall

"À Virgem Santíssima" - Antero de Quental



Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia. 




 Num sonho todo feito de incerteza,
 De noturna e indizível ansiedade,
 É que eu vi teu olhar de piedade 
 E (mais que piedade) de tristeza... 
 Não era o vulgar brilho da beleza, 
 Nem o ardor banal da mocidade... 
 Era outra luz, era outra suavidade, 
 Que até nem sei se as há na natureza... 
 Um místico sofrer... uma ventura
 Feita só do perdão, só ternura 
 E da paz da nossa hora derradeira... 
 Ó visão, visão triste e piedosa! 
 Fita-me assim calada, assim chorosa... 
 E deixa-me sonhar a vida inteira!




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dignow.org

sexta-feira, 15 de julho de 2011

"Faltam-te Pés para Viajar?..." - Rumi



Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.
A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.

Rumi

Imagem da autoria de : Jonathan Earl Bowser
http://www.jonathonart.com/neb.html

Artwork © Jonathon Earl Bowser - www.JonathonArt.com

"Desde o Início da Minha Vida" - Rumi



 "Desde o início da minha vida,

Eu tenho olhado para o Teu rosto.

Mas hoje, eu vislumbrei.

Hoje, eu vi o charme, a beleza,

a graça insondável

do rosto que eu estava procurando.

Hoje, eu encontrei-te.

E aqueles que riram e me desprezaram ontem

Arrependem-se de não estar a olhar como eu estava.

Estou perplexa com a grandiosidade de tua beleza

e gostaria de vê-la com cem olhos.

O meu coração queimou com paixão,

e tem procurado sempre,

Por esta beleza maravilhosa que eu agora contemplo

Estou envergonhada de chamar esse amor humano,

E medo de Deus chamá-lo divino.

A tua respiração fragrante, como a brisa da manhã,

Chegou à quietude do jardim.

Tu respiraste a vida nova em mim.

Tornei-me o teu sol e, também, a tua sombra.

A minha alma grita em êxtase.

Cada fibra do meu ser é apaixonada por ti.

O teu brilho acendeu um fogo no meu coração,

e você fez radiante para mim a terra eo céu.

A minha flecha do amor chegou ao alvo.

Estou na casa da misericórdia.

E  o meu coração é um lugar de oração ".








"From the beginning of my life,


I have been looking for your face.


But today,I have seen it.


Today, I’ve seen the charm, the beauty,


the unfathomable grace


of the face that I was looking for.


Today, I have found you.


And those who laughed and scorned me yesterday


are sorry that they were not looking as I did.


I am bewildered by the magnificence of your beauty


and wish to see you with a hundred eyes.


My heart has burned with passion,


and has searched forever,


for this wondrous beauty that I now behold.


I am shamed to call this love human,


And afraid of God to call it divine.


Your fragrant breath, like the morning breeze,


Has come to the stillness of the garden.


You have breathed new life into me.


I have become your sunshine and also, your shadow.


My soul is screaming in ecstasy.


Every fiber of my being is in love with you.


Your effulgence has lit a fire in my heart,


and you have made radiant for me the earth and sky.


My arrow of love has arrived at the target.


I am in the house of mercy.


And my heart is a place of prayer."


- Rumi
 




Imagem da Autoria de: Jonathan Earl Bowser
http://www.jonathonart.com/cath.html
Artwork © Jonathon Earl Bowser - www.JonathonArt.com

Web site da 2ª imagem

thehoopoesodyssey.blogspot.com