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domingo, 31 de agosto de 2014

Açucena- 12º Capitulo - 2ªa Temporada - de Florbela de Castro



Philippe não queria saber duma versão melhorada de Edouard. Teimava em não querer acreditar, mesmo que lá no fundo soubesse que isso era verdade. Se ele acreditasse, a sua vingança pessoal poderia perder sentido.
Havia instalado Charlotte no seu palácio. Olhou-a com pena e preocupação. Ela havia-lhe contado a sua história o que deixara o príncipe apreensivo. Não sabia bem como ajudá-la.
Alguns dias passaram e ele cuidava da rapariga que recobrava as forças. Sentia-a um pouco órfã no mundo. Ela era novinha. Talvez tivesse vinte anos. Naquela noite ela chorara mais uma vez pelas traições de Edouard. Passou nos seus aposentos e vira a porta entreaberta e percebeu que ela adormecera vestida e a chorar. Suavemente e com gestos fraternos desapertou-lhe o corpete, procurando aconchegá-la. Charlotte entreabriu os olhos sorrindo ensonada.
- Que significa isto?? – Gritava Açucena completamente desvairada.
Surpreendidos os dois não tiveram reação. Açucena, alucinada, esmurrou o príncipe com as duas mãos. Este agarrou-lhe os pulsos com força enquanto ela se debatia. O resultado foi ela libertar-se num ímpeto, batendo com a cabeça numa mesinha. Tudo ficou negro e silencioso.
Quando começou a recuperar os sentidos Açucena, ouviu uma azáfama e vozes distantes. O dia raiava há muito por entre os reposteiros. Ao abrir os olhos foi mirada por caras estranhas, desconhecidas.
-Acordou. – Disse um homem careca e de bigode que tinha um monóculo. Outro homem alto e largo como um armário levantou-a sem cerimónia e sentou-a numa cadeira. O seu pé embateu num tecido volumoso. Olhou. Charlotte jazia no soalho com tez cinza e uma ferida enorme numa das fontes. De Philippe nem sinal.
- Desculpe-nos mas teremos de levar a menina até ao cárcere do rei para depois ser interrogada.
Açucena empalideceu e assustada quis fugir. O homem armário impediu-a pegando nela como quem pega uma trouxa leve.
Atordoada e sem querer acreditar no que lhe estava a acontecer, a duquesa viu-se a ser levada para a prisão real. Atirada para uma cela depois de despojada das suas jóias e vestido e enfiada numa túnica de serapilheira, agachou-se num canto. Nem meia hora depois voltava o homem do monóculo e o homem-armário. Agarraram-na sem cerimónia enquanto despejavam um grande balde de água fria em cima dela.
 - Onde está o príncipe de Angelis? Porque você assassinou esta jovem?
A jovem mulher quis protestar mas não a deixaram falar, esbofeteando-a violentamente. Prosseguiram assim por algum tempo que pareceu infindável para ela. Finalmente saíram.
Após longos momentos, talvez horas, em que a duquesa se perguntou do porquê desta situação, tentou relembrar o aparecimento de Charlotte em sua casa e o facto de Edouard as ter surpreendido.
Gerara-se um tremenda discussão entre a outra jovem e Edouard em que este perdera a paciência ameaçando Charlotte de a surrar. Fôra então que ela fugira.
Jamais esperara encontrá-la na casa de Philippe. Açucena gemeu dorida tanto por fora como por dentro. Não percebia o que se passava.
A noite já ia alta e a lua iluminava pelo quadrado gradeado quando o homem-armário voltou. Trouxe-lhe água. Hesitante ela aceitou. Ele acariciou-lhe o cabelo. Ela repudiou-o mas de nada adiantou. O homem rasgou-lhe a túnica e sem cerimónia penetrou-a enquanto lhe tapava a boca. Açucena gemeu de dor, enquanto lágrimas escorriam pelas faces. Humilhação suprema.
Dali em diante o homem armário aparecia à mesma hora e o ritual repetia-se. Açucena vivia aqueles momentos com repulsa e sacrifício.
Até que um dia em que o ritual se repetira, o homem estacou de repente com os olhos esbugalhados e caiu pesadamente a seu lado. Nas suas costas encontrava-se cravado um punhal. A figura dum guarda recortava-se na sombra da cela. Açucena não reconheceu nenhuma cara amiga.
- Com os cumprimentos do rei. – Anunciou o jovem homem com respeito. E saiu tão enigmaticamente como entrara. Açucena interrogou-se intrigada : “ O rei livra-me da violação mas não da prisão. Qual será o seu intuito?” Conjeturou: “ E onde estarão Philippe e Edouard que não apareceram? Nem mesmo Evelyn surgiu ou me veio tentar salvar!”
Não longe dali, três dias antes, os dois homens amordaçados tinham sido postos numa galera real para terras distantes.


Evelyn evaporara-se simplesmente.


Imagem de Phoenix Lu

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Açucena - 11º Capitulo - 2ª Temporada - de Florbela de Castro



Philippe passeava de mãos na cintura pela sala com ar preocupado enquanto Evelyn esfregava as mãos nervosamente.
- Não estava previsto no nosso plano apaixonares-te pelo Edouard! O intuito era destrui-lo.
- Sim… mas julgo que consigo transformá-lo…
Philippe parou de andar e olhou fixamente a amiga.- Acho isso pura ilusão! Não sei o que vocês veem nele!
- Estás com ciúmes?? – Ripostou Evelyn com vivacidade, logo semicerrando os olhos e voltando a falar mas agora em tom baixo e provocador: - Meus ou dela?
O homem loiro olhou-a intensamente, erguendo uma sobrancelha.
- De que falas?
- Do nosso caso, Philippe! – Não te faças desentendido!
- Caso?? O que se passou entre nós não foi um caso. Foram momentos de entreajuda… - Exclamou ele, rematando: - E já foi há muito tempo!
Evelyn soltou uma gargalhada – Estás com receio de relembrar o prazer que sentiste comigo? Quando chegaste às minhas mãos estavas um caco como homem. Sem amor-próprio e sem nada… E eu fiz-te vibrar de novo, fiz brotar em ti essa sensualidade que a tua querida Açucena tanto aprecia nos dias de hoje e que a faz suspirar quando estás em cima dela.
- Pára de falar essas coisas! Ok ajudaste-me muito e não só nesse sentido. Mas lembra-te que o que me trouxe aqui foi recuperar Açucena e vingar-me de Edouard!
- Sabes, há momentos em que duvido se realmente amas Açucena…Ou se é só o teu orgulho ferido…Ela é tão insossa e não sei o que tu e o Edouard viram nela.
- Ela desperta em mim algo que não sei explicar…É uma doçura tão grande! E por favor não me compares com Edouard! – Ripostou ele com a sua voz grave. – Estás aqui para me ajudar ou não??
- Estou. – Respondeu ela já mais séria – Pela honra da nossa Família pois ainda somos primos. Mas vamos ter de mudar os planos pois desejo manter Edouard para mim…Além disso o meu grã-ducado permite-me estar longe da tua vista.

Philippe suspirou pesadamente como resposta e saiu com largas passadas.
Saiu para a rua para respirar o ar frio da noite e pensar. Contra a sua vontade as lembranças dos momentos quentes com a prima voltavam-lhe à cabeça. Evelyn realmente sabia fazer um homem sentir um fogo vindo das entranhas e capaz de deixar qualquer um louco de paixão. Ele escapara desse sentimento de entrega pois conhecera já o amor da sua vida e fora ferido por ela, mas reconhecia os talentos de Evelyn. Estremeceu com as recordações e sentiu-se culpado pensando em Açucena. Fixou o seu pensamento nela e aos poucos o seu coração amansou dessa impressão culposa. Sorriu para os seus botões.
Nesse momento um vulto encapuçado deu-lhe um encontrão.
A cabeça de Charlotte ficou a descoberto, revelando uma expressão confusa num semblante pálido.
Instintivamente Philippe segurou-a, porém Charlotte, desnorteada, tentou livrar-se dos braços que a pareciam reter.
- Nada temais jovem senhora! – Afiançou o príncipe com voz tranquilizante. A mulher percebeu o seu porte distinto e acalmou-se. – Posso ajudar-vos?...
Charlotte abriu a boca para responder mas uma voz masculina soou feroz:
- Vós! Sempre no meu caminho, Philippe!
O alto e louro homem assumiu uma atitude defensiva enquanto a mulher se escudava nele.
- Edouard! Que podereis querer desta jovem dama??
- Nada que vos diga respeito! Afastai-vos Príncipe de Angelis!
Mas Philippe permaneceu à sua frente com o sobrolho carregado.
- De Angelis, deixai-me resolver os meus assuntos com essa dama! – Instou Edouard contendo a sua impaciência e esforçando-se por ficar calmo mas firme.
- Duvido das vossas boas intenções! – Exclamou o príncipe com impetuosidade. – Sei bem como eréis violento com Açucena!
- Não tem nada a ver com isso este assunto! – Mastigou Edouard impaciente. Mas Philippe não lhe deu ouvidos e saiu correndo e levando Charlotte, deixando o duque desorientado.

Imagem da autoria de Phoenix Lu 
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domingo, 8 de junho de 2014

Açucena : 10º Capitulo - 2ª Temporada - de Florbela de Castro




Édouard jamais experenciara tais delícias. Movimentar-se com o corpo colado ao de Evelyn suscitava-lhe em uníssono um fogo ardente e uma doçura tremenda. Após um extase sentido, deixou-se cair languidamente ao lado da jovem de cabelos vermelhos, beijando-lhe o braço repetidamente. Era a primeira vez que o arrogante nobre se derretia tão profundamente por alguma mulher. Mesmo com Açucena fôra uma paixão carnal e caprichosa. Então com Charlotte nem se comparava; esta permanecia no campo do semi-desinteresse.
Mas Evelyn trazia a Édouard uma nova vida, como que se lhe tivesse insuflado um novo sopro, uma nova alma.
O que Édouard sentia centrava-se no coração e trazia-lhe um fogo irresistível.
Refletindo sobre isto o homem suspirou baixinho e com um olhar doce e verdadeiro, puxou-a de novo para si. Desejava fundir-se de novo na embriaguez daquela mulher.
E fundiu-se.
Evelyn sentia a rendição do ex-don juan, sorrindo internamente. Agradava-lhe a entrega e a mudança. Mas mantinha-se erecta no seu pedestal sem sucumbir demasiado aos apelos do coração. No entanto não podia negar que as delícias nos braços de Édouard eram extremamente gratificantes.
A forma vuluptuosa como cada um se mexia contagiava o outro, num circulo infindável de prazer, as mãos entrelaçavam-se, os corpos movimentavam-se num ritmo crescente, enquanto trocavam beijos sensuais e gemidos sentidos.
Eram assim os seus encontros pautados igualmente por muito diálogo, algo de estranhar em Édouard, que raramente conversava com as suas conquistas. Mas com Evelyn sentia-se tão à vontade ou ainda mais, do que com os seus amigos.
Sempre que voltava para casa, Açucena encontrava um marido pensativo e distante,mas pelo menos não embriagado nem violento. Aliás, ele mal lhe falava e nem a tocava. Não se tratava de um ignorar da sua presença mas sim dum respeitar da sua pessoa e do seu espaço.
Entretanto, passado algum tempo Evelyn acabou por revelar ao seu amigo, o principe Phillipe, a sua relação com o duque. O amigo ouviu-a surpreendido, não com o facto da sua amiga manter um romance clandestino, pois conhecia a natureza indomável e forte de Evelyn, mas sim por saber que o duque se encontrava rendido. Refletindo, decidiu não contar nada a Açucena. Além disso Édouard não sabia da amizade de Evelyn com o principe nem do romance do principe com sua esposa, Açucena.
Aos poucos o duque largara a bebida e largava também o vício do jogo. Passava quase todos os dias na residencia luxuosa de Evelyn, fosse muito ou pouco tempo.
Deixara igualmente de aparecer para visitar Charlotte e esta estranhava a sua ausência. Não sabia exatamente onde Édouard vivia, nem qual seu sobrenome, mas guardava um retrato pequeno dele em oval, pintado à mão, que o próprio lhe oferecera, devido aos filhos que haviam tido juntos.
Munida desse retrato, Charlotte partiu um dia para a grande cidade a fim de o procurar e após dois dias de indagações, chegou ao palacete de Édouard.
Quem a recebeu foi uma surpresa Açucena, que ao início não esclareceu a sua própria identidade à interlocutora. Esta contou a natureza da sua ligação com Édouard e os filhos nascidos, julgando que Açucena era irmã dele.
A jovem duquesa ficou siderada com a revelação de Charlotte sobre sua existência e das crianças. Charlotte falava, desabafando. Açucena sentia-se sem coragem para se revelar. Naquele momento, a ama entrou com a filha de ambos. Ao início Charlotte sorriu ao ver a criança congratulando-a pela beleza da menina, mas algo na atitude embaraçada de Açucena deu-lhe o alerta. De olhos esbugalhados, mirou a criança e a jovem de cabelos cor-de-mel e de repente percebeu tudo. Estremeceu empalidecendo e caiu desmaiada.
Açucena socorreu-a sentindo pena dela. Levou-a para salinha contígua aos seus aposentos para ela recobrar os sentidos.Ofereceu-lhe chá e algo doce para lhe voltarem as cores à faces, ao qual Charlotte aceitou, muda e cabisbaixa. Açucena entreolhava-a condoída e sem saber o que fazer, enquanto na cabeça de Charlotte múltiplos pensamentos se cruzavam e um deles era fugir dali o mais rápido que pudesse, mal as suas pernas fracas o permitissem. Foi lá que o duque as foi encontrar.


Imagem  da autoria de Jasmin Darnell

link do 9º capitulo da 1ªa Temporada:http://artlira.blogspot.pt/2011/07/edouard-abriu-os-olhos-vagarosamente-e.html
Link do 11ª Capitulo : http://artlira.blogspot.pt/2014/08/acucena-11-capitulo-2-temporada-de.html


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domingo, 1 de junho de 2014

Conto : "O Principe - Trovador" - 3ª Parte e última Parte - De Florbela de Castro





Raimundo, a partir da data do encontro com Aurora, passara a compor belas melodias em homenagem ao seu belo amor, deixando também pequenos versos românticos espalhados pelo palácio, na esperança furtiva de que a jovem misteriosa fosse realmente Aurora. Os nobres que frequentavam a corte sorriam e aclamavam alegremente as trovas, encarando-as como uma forma criativa e artística do seu principe expressar a sua inspiração ou até de homenagear a sua prometida.

Mesmo sem voz e sabendo da cegueira do seu amado, Aurora sentia no seu coração e alma que as trovas e versos lhe eram dirigidos, enchendo-se de contentamento. Porém, mantinha uma postura discreta para não revelar a sua identidade.

Varynia, a nova princesa, era geniosa e imprevisìvel. Mas perante a sociedade ela afivelava uma máscara de grande benignidade.Os serviçais temiam-na e viviam subjugados pelo seu poder e pelo medo. A família real parecia não se aperceber da verdadeira personalidade da princesa. O principe Raimundo acompanhava-a em passeios, refeições e pequenos espetáculos de diversão, sendo sempre amável e solícito.

Por seu turno, Aurora escutava e assistia ao desvelar da verdadeira princesa. Tal como todos, ouvia os impropérios proferidos por esta quando as coisas não se encontravam à sua feição. Aurora pensava para si mesma que o principe tinha caído num grande engano, contudo não estava em posição de intervir.

A linda bordadeira pensava na sua fada-madrinha para vir em seu auxílio mas agora não vivia nem dormia sozinha e era arriscado expôr-se dessa forma.

Numa das suas folgas dirigiu-se sozinha aos arredores da cidade, adentrando o bosques. Abalara cedo de manhã pois a orla da floresta ainda era distante.

Duas horas depois chegou perto dum ribeiro que uns quilómetros mais adiante se fundia com o mar. Descansou na relva atapetada de flores e então dispôs-se a chamar pela fada-madrinha com o seu pensamento, visto que estava muda.

Porém, não obteve resposta. Em vez disso, viu um redemoinho surgir na água e uma mulher de aspeto transparente e vestido azul, materializar-se. Aurora ficou perplexa e recuou um pouco, mas a aparição instou-a a aproximar-se e apresentou-se como sendo a Senhora Das Águas. A senhora aquática parecia ouvir os pensamentos de Aurora e transmitiu-lhe que os sentimentos e pensamentos eram como as ondas do mar e as correntes dos rios. A morena mulher sentia uma calma e uma pacificidade junto da inusitada presença feminina. Esta convidou-a a mergulhar nas águas para conhecer o seu palácio no mar. A jovem mulher olhou-a assustada e confusa, enquanto a Aquática Presença soltava uma gargalhada que se assemelhava ao borbulhar da água e lhe estendia um búzio cheio de água para ela beber. Depois deu-lhe a mão e as duas mergulharam, com Aurora em suspense.

A bela moça terrestre visitou, encantada, o belo palácio de madrepérola e coral, entendendo-se com os conterrâneos aquáticos e demais espécies apenas através de pensamentos. Longo tempo depois foi levada de volta à terra. Já na margem, a Senhora das Águas transmitiu-lhe que não podia intervir do mesmo modo que a fada mas que lhe presenteava com algo: a sua voz. Assim já poderia lidar com mais independência, com a situaçao de Varynia e o principe Raimundo. E docemente, despediu-se num murmurar de águas.

Com uma gargalhada sonora Aurora rodopiou quase como que dançando, porém foi bruscamente parada por uma exclamação de fúria e escárnio: - Não tão rápido minha menina! Já sei quem tu és e quais as tuas intenções! - A voz de Varynia soava ameaçadora – Mas lamento informar-te que jamais te poderás reunir ao teu querido principe! Sabes porquê?

E pronunciando isto, enterrou as mãos na terra erguendo-as, vociferando:

- Porque eu tenho poder da terra e por isso comando que te transformes numa árvore!

Perante estas palavras, a mulher metamorfoseou-se numa árvore de copa frondosa.


O principe Raimundo recordava muito Aurora. Sabia que a sua vida tinha de prosseguir mas sentira nos últimos tempos a sua presença de uma forma marcante e de repente... Nada. Tudo parara. Será que Aurora estivera realmente presente na sua corte, no palácio real? Se assim fora, porque não lhe falara? A ideia tanto lhe parecia descabida como também a mais coerente.

Bateram à porta. O seu fiel escudeiro chamava-o para o seu passeio matinal. Apesar de cego, o principe continuava a cavalgar. Ao passarem nos pátios exteriores junto `as cavalariças, Raimundo ouviu duas crianças soluçar. Condoído perguntou o motivo da tristeza deles. Estas responderam que a sua mãe havia desaparecido e eles estavam sós no mundo.

Comovido, o principe sossegou as crianças quanto ao seu futuro e tomou-os em sua proteção. Entretanto indagou-os dos pormenores do desaparecimento da progenitora. Mas as crianças pouco lhe adiantaram. Uma outra serviçal acabou por se aproximar acanhadamente, explicando ao principe quem era a mãe das crianças e como viera para o palácio e que havia uma semana que ela saíra para os arredores do bosque e jamais voltara.

Raimundo achou tudo muito estranho. E a suspeita de que aquela poderia ser Aurora, solidificou-se. Era o que o seu coração lhe dizia.

“Mas então... se ela era Aurora as crianças eram... Seus filhos!”

Aquele pensamento fê-lo estremecer alvoroçado.

Imediatamente nomeou uma dama da corte para ama das crianças e acompanhado do seu escudeiro, dirigiu-se aos aposentos de Aurora e demais serviçais, pedindo para lhe entregarem os seus haveres. Não tardou em descobrir a capa azul e pelo toque e aroma reconheceu ser a de Aurora. Imediatamente a janela do quarto se abriu e surgiu a fada-madrinha de Aurora.

Com vivacidade contou-lhe todos os pormenores da vida de Aurora desde o afastamento do principe atá à data presente. Revelou-lhe a verdadeira índole de Varynia, o que ela fizera à sua amada e o prévio encontro desta com a Senhora das Águas. E finalizando, proferiu que estava nas mãos de Raimundo inverter aquela situação. Após declarar isto, retirou-se.

Raimundo ouviu-a siderado. Não sabia o que fazer para a salvar. Sufocado, o principe saiu com o seu escudeiro numa cavalgada desenfreada até ao local onde estava Aurora transformada em árvore. Ali chorou copiosamente. As suas lágrimas ao tocarem no solo transformavam-se em belas margaridas. Cedo o solo em redor ficou atapetado das ditas flores, pois o principe passou a rumar àquele local diariamente.


Haviam decorrido poucos dias e a canícula fazia-os suar debaixo das suas fardas.

Na sua visita diária Raimundo decidiu refrescar-se no ribeiro, por esse mesmo motivo e para limpar as suas lágrimas. Dispôs as suas mãos em concha e limpou abundamentemente o seu rosto com a água. Qual não foi o seu pasmo quando percebeu que voltara a ver! No seu rosto rasgou-se um sorriso exultante e cheio de alegria partilhou com o seu amigo e fiel escudeiro a boa nova. Os dois abraçaram-se radiantes e Raimundo dispôs-se a tocar uma das suas trovas com o seu alaúde, sentados confortavelmente junto à arvore.

Porém algo ainda mais assombroso os esperava: à medida que o principe dedilhava as notas no instrumento e cantava, a árvore foi gradualmente transformando-se em Aurora!

O encontro foi de um sentimento indescritível. Abraçavam-se, tocavam-se, riam-se, falavam quase ao mesmo tempo.

Após o fervor inicial, dispuseram-se a rumar ao palácio. Todavia a ventura ainda não se firmara nas vidas deles. Mal tinha dado uns passos quando Raimundo foi envolvido por um ramo de árvore, sendo arremessado a uns metros de distância.

Frente a eles estava Varynia.

- Se eu não posso ficar com Raimundo, ele não será de mais ninguém!

E dizendo isto, revirou a mão fazendo abrir um buraco no solo, onde Aurora foi-se afundando.

Subitamente um rumor ouviu-se das águas do ribeiro e erguendo-se do mesmo surgiu a Senhora das Águas. Com um jato de água saído duma das mãos, inundou Varynia, fazendo-a rodopiar num redemoinho e depois ser arrastada pela correnteza do ribeiro, levada para longe até ao mar. Seguidamente com um repuxo retirou Aurora da cavidade onde estava enterrada. Raimundo aproximou-se com alguns arranhões e nódoas negras.

A senhora das Águas percorreu a distância que os separava, caminhando sobre as águas.

Parabenizou-os, revelando que já conhecia Raimundo por velejar nas águas do oceano e congratulou-os pela união.

Assim voltaram para o palácio, sendo revelada toda a trama de Varynia e a identidade e história de Aurora e os filhos.





Pouco tempo depois, foi anunciado o casamento e houve vários dias de festa por todo o reino.

A boda teve lugar no bosque mesmo junto ao ribeiro, sendo assistida por uma multidão de pessoas e abençoada pela fada-madrinha e celebrada pela Senhora das Águas. Os trajes de Aurora e o principe eram de cetim branco bordados a prata, com capa e véu, respetivamente, em cetim e gaze cor de champanhe.

A Senhora das Águas selou a união com Água e pérolas e no final todos festejaram, parte em terra, parte na água, mergulhando todos, após beberem água de um búzio.

A lua de mel foi uma longa viagem em alto mar, cruzando oceanos e conhecendo novas paragens, tanto cidades populosas, como ilhas quase desertas.

Raimundo reinou por longo tempo, sendo conhecido pela sua aliança e respeito pela água e pela natureza, seguindo sempre a voz do seu coração e contando sempre com o apoio e partilha em amor e cumplicidade, da sua rainha Aurora. Os seus filhos sucederam-lhe, seguindo o seu exemplo de respeito por tudo à sua volta, bem como o amor pelas artes.

FIM
 http://artlira.blogspot.pt/2013/04/conto-o-principe-trovador-1-parte-de.html
http://artlira.blogspot.pt/2013/06/conto-o-principe-trovador-2-parte-de.html

Imagens:
Meghan Photography
Joseph Brewster Photography
Rowena Morrill

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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Conto: " O Despertar" - de Florbela de Castro


Daniel olhava para a sua chávena de café, sentado sozinho numa mesa. O frio da rua congelara-lhe os músculos da face e as mãos enregeladas como que aconchegavam a chávena quente, numa tentativa vã de aquecer as mesmas. Nem se atrevera a tirar o gorro que cobria os seus cabelos cor de mel.

O seu olhar perdido no fundo da chávena traduzia o seu profundo estado de aborrecimento, o que nas últimas semanas se tornara frequente.

A vida era sempre a mesma coisa, sem sabor nenhum. Casa-trabalho, trabalho-casa. Sem namorada;sem passatempos. Nada de diferente se passava além da rotina habitual. A vida nocturna deixara de ser apelativa; as conversas dos amigos também o haviam desmotivado há muito. Vogava num marasmo que lhe apertava o peito a cada dia que passava e ao mesmo tempo o fazia viver num limbo constante.

Saiu para a rua deixando que o sol brilhante daquele inverno lhe ferisse os olhos claros. Que fazia ele cá no mundo? A interrogação bailava-lhe no pensamento, enquanto os olhos se marejavam de lágrimas. Não se importava de chorar em plena rua. Que lhe importava a multidao?Aliás, como conseguiriam eles viver a vida? Seria dificil? Vazia? Intensa?

Os pensamentos invadiam-lhe a mente em catadupa e desordenados, caóticos. Sentiu uma vertigem. Podia ser fraqueza. Afinal acordara cedo e ainda não comera nada sólido. Ainda não era meio-dia mas decidiu comer um cachorro quente numa roulotte. Doia-lhe o corpo todo e a vertigem voltara, mesmo já tendo comido quase todo o apetitoso e recheado cachorro. Tentou equilibrar-se e olhou em volta cautelosamente, porém a paisagem fechou-se numa tela escura, de forma abrupta.

Quando acordou encontrava-se no hospital. Panóplias de exames, azáfama.

O veredito atingiu-o como um raio que fende uma árvore até à sua raiz: Cancro.

Mas como?... Como o cancro se atrevia a vir ceifá-lo quando ainda se encontrava no inicio da sua terceira década de vida?!

Perplexo, revoltado e apavorado. Como a vida era irónica! Ainda há dois dias atrás Daniel pusera a hipótese de não viver mais, e agora...

De dia passaram a ser os exames e tratamentos e à noite as lágrimas do medo e do alivio de ainda estar vivo.

Cada noite Daniel pensava em todas as coisas que poderia ainda realizar, coisas que não lhe interessavam antes mas que agora pareciam ter um valor precioso. O sol, as estrelas, o cheiro da relva molhada e das árvores no inverno ou aroma da primavera... Pintar, escrever, andar, ir a feira popular, tirar fotos, visitar monumentos, cozinhar.

Todos os dias pensava nisso, sonhava como essas pequenas coisas. Até que esses pensamentos se tornaram em bálsamos para a sua dor interna e para a suas dores fisicas também.

Os meses passaram e Daniel foi recuperando. Saiu de casa dos pais e voltou para o seu t0. Redecorou-o, pintou-o de cores vivas e padrões vivos e formas loucas.Cozinhou,passeou, praticou yoga e tornou-se amante da Natureza. Parecia ter morrido e renascido como uma fénix renasce das cinzas.

Contudo uma das coisas que puxou mesmo o homem renovado foi escrever. Cantar no papel o que alma lhe entoava. Enchia folhas de poemas e textos e mais tarde de belos contos imaginados. Sentia-se leve como uma pena e brilhante como uma borboleta.




Daniel olhava para o seu copo de água sentado numa mesa comprida e com outras pessoas. O calor do local permitia-lhe ter as mãos quentes. Recordava com benevolência o seu doloroso despertar e de como a sua vida fora impulsionada para uma enorme transformação a todos os niveis.

E esse caminho levara-o aqui.

Era o trigésimo livro que autografava. Passou a mão nos cabelos grisalhos de seis décadas e meia.

Sorriu cúmplice para a sua amada doce e graciosa mesmo com o passar dos anos. Como era bom abraçar a vida a cada instante.

FIM



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Imagem :
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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Conto: " O Príncipe Trovador" - 2ª parte - de Florbela de Castro


Seis anos volveram. Aurora nunca mais ouvira falar de Raimundo. Na Primavera seguinte ao nascimento das crianças, Aurora arranjou trabalho numa terra longe dali. Foi com algum pesar que abandonou a sua linda cabana e partiu.
Trabalhava por vezes sozinha em encomendas e outras vezes com outras costureiras e bordadeiras.
Um belo dia ouviu um burburinho nas ruas da aldeia: O príncipe daquele reino ia casar. A futura princesa já chegara de terras distantes com o seu séquito e encomendara a confecção do seu traje nupcial às melhores bordadeiras do reino.
Durante 4 longos anos, Raimundo esteve fora do país comandando a frota de navios do reino.
Ao quinto ano voltou, finda a sua missão. Não tardou em procurar Aurora e a sua cabana. Selou o cavalo e antes disfarçou-se como costumava fazer antes.
Porém, quando chegou ao local da cabana encontrou tudo abandonado. Raimundo procurou angustiado. Nada. Ela desaparecera. Atormentado, correu desorientado, chamando por Aurora. Seria possível ela tê-lo esquecido? Negou esse pensamento violentamente, mas esta dúvida insinuou-se cada vez com mais força no coração do Príncipe, até se instalar como uma certeza indubitável. Raimundo corria agoniado adentrando a floresta cerrada e enublado pelas lágrimas que lhe jorravam pelos olhos. Uma poeira vermelha e ardente parou-lhe a corrida, cegando-o por completo, enquanto ele caía sem sentidos.
Encontraram-no quase dois dias depois. A convalescença física durou poucas semanas. Mas a ferida na alma e nos olhos de Raimundo ficara para sempre.
Aurora bordava encantada as maravilhosas pérolas no vestido de noiva. Brevemente um grupo de bordadeiras se deslocaria ao palácio para a prova do traje.
Esse dia chegou e foi uma comitiva de costureiras e bordadeiras entusiasmadas que fez a sua entrada no Paço real. A princesa revelou-se autoritária e fria. Contudo Aurora fez por ser solícita e caiu de tal forma nas boas graças da princesa que esta a convidou para aia após o casamento com o príncipe. Era um pulo para uma vida melhor. No entanto Aurora tinha as suas reservas. Não gostava da corte e apesar dos murmúrios de protesto das colegas, não deu uma resposta definitiva para a futura princesa do reino.

Três dias antes da boda, já a noite ia alta, quando da lua surgiu a fada que Aurora vira em tempos.
- Sei que recebeste um convite para trabalhar no paço que pensas não aceitar. No entanto preciso que vejas uma coisa que pode realmente te mostrar qual o teu caminho.
E com a varinha de condão tocou em Aurora que assim se viu trajada com maravilhoso vestido de brocado Ouro velho entremeado num tom de laranja quente quase como uma chama, com saiotes em cetim laranja fogo e gaze dourado; Os sapatos eram de cetim dourado com pequeno laço de gaze laranja preso cm um magnífico diamante; os belos cabelos escuros encontravam-se entrançados no alto enquanto a cabeça era rodeada de uma magnifica fieira de diamantes em finíssimo fio de ouro.
Quando Aurora viu-se ao espelho não pode reprimir um grito de espanto. A fada recomendou que ela levasse a capa azul com que Raimundo a tinha conhecido e nunca a tirasse durante o baile. Assim permaneceria irreconhecível para os demais, enquanto que para o príncipe seria um elo de reconhecimento.
Aurora compareceu no baile onde foi contemplada por todos os presentes. Maravilhosos trajes de damas e gentis-homens proliferavam por todo o salão. Cedo ela foi apresentada à família real e à futura princesa do reino que, como já era esperado, não a reconheceu. Ao ver o príncipe, Aurora ficou como que fulminada: Raimundo!
Por pouco não perdeu os sentidos. Agora ela percebia tudo. Especialmente o porquê dele ter desparecido…
  Este por sua vez reconheceu a sua presença e perturbado quis tirá-la para dançar. Um gentil-homem do seu séquito fez o papel de mediador.
Sentia que era a sua amada mas não podia ter a certeza porque não via. Mas o seu coração gritava-lhe que sim.
Enquanto dançavam tentou falar com ela, porém a comoção vivida por Aurora emudecera-a. Tinha perdido a voz.
Mesmo com o gentil-homem servindo de intermediário, o príncipe não conseguiu descobrir a sua identidade. Seria preciso um intermediário também que conhecesse Aurora e esta não podia revelar o seu disfarce.
Por questões de etiqueta, Raimundo teve de se afastar do seu par pois a família real reunia-se à volta do cravo. Apesar de cego o príncipe continuava a cantar e tocar e compor.
Juntamente com o mesmo gentil-homem, um com o alaúde e o outro no cravo e mais na flauta, cantou uma bela cantiga de amor, sobre um amor perdido no tempo mas jamais esquecido e por ele sempre alimentado.
Pareceu a Aurora que ele lhe dedicava a cantiga. O seu coração mudou enquanto ouvia a música. Era um sinal inequívoco de que ele se lhe dirigia.
Os três belos varões foram ovacionados pela maravilhosa melodia. A corte felicitava-os entusiasticamente. Aurora aproveitou a ocasião para se escapulir, voando para o exterior. Breve a rica carruagem a deixou na sua casa e desaparecia como por encanto. Já no quarto, à medida que se despia dos seus atavios, estes iam desaparecendo. Para sua surpresa a capa também desaparecera. Chorosa e confusa, Aurora deitou-se após verificar as duas crianças que dormiam há muito.

A fada deixara um bilhete em que a aconselhava a aceitar o convite de trabalhar como aia da nova princesa, após o que tinha visto. A Aurora só lhe apetecia desaparecer, mas acatou o conselho da fada.


No dia seguinte rumava para o palácio, enquanto que o príncipe mandava secretamente procurar por todo o reino, pela jovem de capa azul.


Fim da 2ª parte

Autoria Florbela de Castro
2013


Pode compartilhar livremente a obra desde que respeite os creditos. Todos os direitos reservados.

Imagens retiradas da net

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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Conto: " O Príncipe Trovador" - 1ª parte - de Florbela de Castro





Era uma vez numa cidade de Itália um belo príncipe de caracóis escuros e olhos azuis que já passara da idade casadoira. Seu nome era Raimundo. O príncipe Raimundo adorava navegar e trovar. Era frequente ouvi-lo dedilhar o seu alaúde ou escrever quadras. Não se interessava pelo governo do reino o que muito exasperava seu pai, o rei. Amava o mar e também o campo, para onde frequentemente se escapava sozinho ou escassas vezes acompanhado dum único escudeiro seu amigo. Ia sempre disfarçado para que não o reconhecessem.

De vez em quando o rei concebia bailes chamando várias princesas com o intuito de arranjar uma que satisfizesse o príncipe e o levasse a casar. Mas este não se decidia por nenhuma.

Aurora era uma linda tecedeira e bordadeira que vivia no campo, longe do palácio Real. Habitava numa bonita e graciosa cabana rodeada de flores e um tapete verdejante ao seu redor e rendas no seu interior. Adorava o campo e o mar mas raramente via este último pois era longe de sua casinha. Falava com as plantas e as flores e os animais eram seus amigos. Admirava o sol e a lua. Uma noite em que o céu estava límpido e estrelado e a lua estava cheia, deixou-se levar pelos seus pensamentos sonhando com um amor e uma família, a certa altura viu da própria lua sair uma bola de fogo branca que se aproximou da sua janela. A bola tomou a forma duma linda mulher etérea que se apresentou como sendo uma fada.

- Minha querida, sei que sonhais com um grande Amor. Em breve, quando chegar o Outono, vai-te aparecer alguém para concretizar esse sonho, no entanto precisas de estar preparada. Confia em mim. Faz uma capa para estares preparada para o seu aparecimento.

- Mas como saberei que é ele?- interrogou Aurora curiosa.

- O vosso coração o reconhecerá. Chama-me quando terminares a capa.

A jovem mulher deitou mãos à obra e como tinha poucos recursos costurou uma capa de chita com capuz. Quando terminou, chamou a fada e esta surgiu, olhou para a capa e tocou-a com a sua varinha de condão e transformou-a numa belíssima capa de veludo azul, recomendando-lhe que a usasse sempre ao fim da tarde.

Aurora assim fez. Quando chegou o outono dava pequenos passeios nas imediações da sua cabana ao fim da tarde ficando a admirar o pôr-do-sol e depois as estrelas.

Raimundo entediava-se no Palácio. Passara todo o Verão em festas próprias da estação, mas agora que o Outono dava ar da sua graça, sentia um vazio dentro de si. A vida no palácio podia ser frenética mas não o preenchia. Levantou-se repentinamente, mudou para uns trajes modestos e dirigiu-se às cavalariças, selando um cavalo.

Pouco tempo depois cavalgava veloz, sentindo, deliciado, o vento no rosto e cabelos.

De repente vislumbrou um vulto embuçado junto a um tapete de flores. Apeou-se curioso. Quando já estava perto a pessoa voltou-se para ele revelando a sua beleza feminina. O príncipe sentiu-se imediatamente fascinado.

Aurora olhou o desconhecido com o coração exultante. Era Ele.

- As mais belas flores não fazem jus à tua formusura. – Declarou Raimundo com voz suave.

Aurora corou, sentindo-se emocionada.

Raimundo permaneceu na companhia da linda mulher até ser noite cerrada, sem no entanto revelar a sua verdadeira identidade. Por seu turno Aurora jamais tirava a sua capa.

A partir daquele dia, o príncipe rumava frequentemente para a cabana de Aurora. Todas essas vezes, ele oferecia-lhe flores e frutos, comiam juntos, falavam, brincavam e amavam-se. Raimundo levava o seu alaúde e dedilhava-o, tocando e cantando belos versos de amor que lhe saíam do seu coração. Aurora escutava-o embevecida. Cheios de cumplicidade trocavam frases de amor que se tornavam em belas quadras.

Assim se passou o Outono e grande parte do Inverno, com momentos cheios de amor, felicidade e cumplicidade.



Um dia, caiu um forte nevão e o príncipe viu-se impedido de aparecer. E no dia seguinte. E no dia seguinte também. Raimundo ardia de impaciência e o rei acabou por reparar no seu estado agitado. Aliás o rei já há muito que desconfiava das saídas secretas do seu filho. Convocou o seu ministro e declarou:

- Temos um problema, suspeito que o meu filho tenha um romance clandestino. E tenho de impedir que continue!

- Podeis mandá-lo além-mar, o príncipe adora velejar! Mesmo estando a nevar podeis enviá-lo até a outra zona do nosso vasto país e daí fazê-lo embarcar. – Sugeriu o ministro com voz melíflua.

O rei concordou satisfeito. Naquela mesma tarde anunciou a dita viagem ao príncipe. Este pensou em Aurora, mas adorava velejar e aquela viagem era necessária para o reino. Voltaria a vê-la mal voltasse.

Aurora esperava ansiosa pela volta de Raimundo. Calculava que o nevão o impedia de lá voltar mas o tempo passou, o nevão passou, o inverno passou e Raimundo não aparecia. A bela mulher chamava a fada nas luas cheias mas não obtinha resposta. Ficou só vendo o seu ventre crescer pouco a pouco. Sentia-se desventurada pela ausência do seu amado e nada lhe devolvia a alegria. Soluçava diariamente saudosa do seu amado, sem compreender o porquê do seu desaparecimento. Somente o fruto que crescia dentro de si lhe trazia esperança e alegria. Podia ser que ele retornasse um dia. Mas os meses sucediam-se e nem sinal de Raimundo.

Perto do Outono seguinte Aurora deu à luz um lindo casal de gémeos.

Embrulhou-os na capa de veludo tristemente, pensando no seu amado e beijando as crianças com amor. Estava só no mundo. Que seria agora do seu destino? Em voz alta perguntou com todo o seu coração:

- Meu amor, porque me abandonaste?

Lá longe, Raimundo pensava em Aurora imensas vezes, sentindo uma saudade imensa e desconhecendo que fora pai.

Olhou o céu sentindo um aperto no coração e murmurou:

-Meu amor, não te esqueci, não te abandonei, espera que eu volto.

E fechou os olhos deixando rolar algumas lágrimas pelo seu rosto.




Fim da 1ª parte

Autoria de Florbela de Castro

Imagens retiradas da net

2ª imagem por Sharon Shar

Link da 2ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2013/06/conto-o-principe-trovador-2-parte.html

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Conto: “ O Cavaleiro e a Pedra da Felicidade” – 3ª Parte – Final - de Florbela de Castro




Já tinha entrado nas portas da cidade quando percebeu que algo havia acontecido. As pessoas reuniam-se em grupinhos, murmurando ou até vozeando com vivacidade. Mais preocupado ficou quando viu Shabnan vir ao seu encontro, rodeada de alguns escravos.

- Adolfo foi capturado e vai ser apresentado num leilão de escravos. – Comunicou Shabnan a meia voz e antes que Ivanoel perguntasse o porquê, ela informou que o rumor da sua condição feminina e masculina se espalhara e como escravo ele valia uma fortuna. Sobressaltado, correu para a tenda gigante no centro da cidade, onde decorriam os leilões de escravos.

Naquele momento ainda licitavam Adolfo e as ofertas eram absurdamente altas. Ivanoel jamais poderia acompanhar ou travar tais paradas.

Tentou dissuadir os mercadores mas estes afastavam-no rudemente. Num ponto estratégico viu o Sultão do reino vizinho e o seu grande séquito, ricamente trajados. Tentou chegar-lhe e pedir-lhe clemência mas foi barrado e até expulso da tenda.

Adolfo acabou por ser comprado pelo dito sultão.

O moreno cavaleiro regressou a casa de Navid e este e Shabnan esperavam-no.

- Nada podeis contra o Sultão, caro amigo Ivanoel. – Garantiu Navid – Mas talvez Shabnan vos possa ajudar.

Esta retirou-se por minutos para os seus aposentos e surgiu com duas moedas de ouro pequenas.

- Levai estas moedas e colocai uma na boca – Informou a formosíssima mulher – Ficareis invisível e podereis entrar no palácio do Sultão e procurar Adolfo.

Ivanoel assim fez, cavalgou até ao reino vizinho e facilmente entrou no palácio do Sultão sorrateiramente. Procurou-o nas masmorras sem sucesso. Percorreu algumas partes do palácio sem o encontrar. Então lembrou-se. Procurou na ala das mulheres e acabou por descobrir Aegle ricamente trajada, sobre um leito. Parecia calma mas com vestígios de lágrimas no seu rosto. O cavaleiro acercou-se dos véus de musselina que circundavam a alcova e tirou a moeda da boca. Os olhos de Aegle brilharam ao ver Ivanoel. Este instou-a ao silêncio e deu-lhe a moeda explicando-lhe tudo num sussurro. Meia hora depois estavam fora do palácio. Chegaram às portas da cidade e à casa de Navid antes de amanhecer.

Shabnan aguardava-os ansiosa. Após as congratulações, ela perguntou pela Pedra e Ivanoel mostrou-a contando o que dissera o Guardião da Pedra. Aegle tomou-a nas mãos e afagou-a tristemente. Inesperadamente viu-se uma luz cintilante e surgiu um ancião muito semelhante ao Guardião que Ivanoel vira. O ancião sorriu bondosamente para todos e olhando para Ivanoel dirigiu-se-lhe com indulgência:

- Meu filho, vejo que já experienciaste mais aventuras após vos terdes despedido de mim. A Pedra da Felicidade é activada pelo Amor, como sabeis. Chegou a hora de escolherdes com o coração. Chegou a hora do resgate desta Graciosa Dama. Caso Aegle se torne mulher, o vosso amigo Adolfo desaparecerá para sempre mas Aegle terá uma oportunidade de ser feliz.

Ivanoel hesitou, balbuciando:

- Adoro Adolfo…Meu Amigo... Companheiro de Armas como nunca tive… Dói-me perdê-lo… Não posso escolher…O meu sentimento vai para Shabnan… no entanto… não desejo prejudicar esta dama que já passou por muito…

-Pois, eu escolho ficar para sempre como Adolfo! – Interrompeu Aegle com intensidade. – A vida sorri-me mais como cavaleiro e como vivo só, é-me mais vantajoso ficar assim… E assim também não perdereis o vosso amigo…

- Nobre Dama, não cometais tal desvario! – Exclamou Ivanoel protestando alvoroçado mas sem no entanto conseguir dissuadir Aegle.- Não o façais por minha causa!

- Não, Cavaleiro! Faço-o por minha!

Então o ancião sorriu de forma indulgente e proferiu em tom firme:

- Que se faça consoante a vossa vontade, minha filha!

E naquele momento Aegle ficou transformada em Adolfo para sempre.





Ivanoel pedira Shabnan em casamento e os preparativos já tinham arrancado. Adolfo mostrava-se seu amigo fiel e, fora algumas sombras de tristeza no olhar, parecia aceitar o destino com resignação e coragem. Afastara-se discretamente do convívio com Shabnan e no presente momento as mulheres mal se falavam ou olhavam.

Ivanoel às vezes mirava-o disfarçadamente, sondando o estado de espírito do franzino cavaleiro, porém também observando a sua figura frágil mas masculina. Preocupava-se com o amigo e ao mesmo tempo sentia-se estranho pois a existência de Adolfo de facto parecia ilusória e a pessoa que ele encarava era uma mulher na realidade.

- Porque me olhais? Acaso não vos pareço autêntico? – Adolfo parecia adivinhar os pensamentos do amigo.

- Isto é demasiado confuso para mim. Sempre adorei Adolfo, mas agora… Sempre que vos olho sei que está aí uma mulher… e tudo fica confuso.

- Sou vosso Amigo. – Frisou Adolfo- O resto perde-se nas brumas do passado.

Ivanoel suspirou e abanou a cabeça como que para afastar dúvidas. – Muito bem, Cavaleiro Adolfo, bebamos então como dois bons comparsas.

E assim tentaram manter um clima ameno até ao dia do casamento. As bodas celebraram-se com grande fausto. Tanto Shabnan como Ivanoel trajaram maravilhosas vestimentas de brocado e seda. Grandes festejos tiveram lugar, onde foram servidas opíparas iguarias.

Adolfo olhava distraidamente para as bailarinas quase desnudas que o tentavam seduzir. Sentia-se um pouco ébrio. No entanto o roçagar das musselinas na sua cintura fê-lo despertar. Era tarde e aquele era o sinal que lhe mostrava que estava na hora de se retirar.

Adolfo não tinha reparado que Shabnan e Ivanoel se tinham retirado há algum tempo. Fizera por não reparar nisso. Sentia o seu coração seco, onde a dor já nem sequer ressoava.

De repente ouviu um rumor vindo dos aposentos nupciais. Escapuliu-se para trás de uma gelosia, escutando.





Meia hora antes os recém-casados haviam-se retirado para os seus novos aposentos. Namoriscavam em cima da alcova entre risos e sussurros e Ivanoel brincava com as jóias da sua nova esposa, dispersando-as pelo corpo de Shabnan. Esta, a certa altura, pediu-lhe para usar a Pedra da Felicidade. O cavaleiro fitou-a um pouco surpreso mas acedeu. Levantou-se e abeirou-se dum cofrezinho diminuto, todo cravejado a pedras preciosas. Aegle após a transformação não quisera usar mais a Pedra e então o moreno Cavaleiro guardara-a. Mal este abrira-o, Shabnan atirou-lhe com água à cara e proferiu:

- Incauto! Deixai a vossa forma original para vos converterdes numa ave!

E no lugar de Ivanoel surgiu uma ave. Adolfo escutara e observara tudo horrorizado. Shabnan prendeu Ivanoel numa gaiola de ferro e ausentou-se. O cavaleiro franzino saiu do seu esconderijo e tentou abrir a gaiola mas foi em vão. Provavelmente era uma gaiola mágica. Olhou para o cofrezinho mas a Pedra já não se encontrava mais lá. E agora o que fazia? Angustiado foi para os seus aposentos pensativo. Enquanto pensava, foi rodando a moeda de ouro que Ivanoel lhe dera para o salvar do palácio do Sultão. Uma nuvem formou-se e surgiu um ser dessa nuvem.

- Sou um génio. Estou ao vosso dispor.

- Ohhh, um génio?... - Admirou-se Adolfo. – Gostava de vos pedir se podeis transformar Ivanoel de novo em Homem?

- Poderei libertá-lo da gaiola mágica mas para o transformar só através da ação da mão humana. No entanto vos direi como fazê-lo. Ide ao poço que já conheceis e descei pondo a moeda na boca e mergulhai. Não precisais de recear perecer pois isso não vos acontecerá. Ide até ao fundo do poço onde vereis uma argola de ferro. Puxai-a e a tampa se abrirá. Descei pelas escadas que encontrardes e vereis um jardim, procurai uma pereira e colhei uma. Fazei o caminho de volta sem vos deterdes com nada. Fugi do pássaro de asas de prata caso este apareça pois é o seu poder que prende o vosso amigo cavaleiro. Se vos atacar, dai-lhe uma espiga de milho que encontrardes no jardim.

Adolfo assim fez. Foi até ao poço e seguiu as instruções do Génio sem dificuldade. No início fez-lhe impressão mergulhar mas verificou não haver problema em respirar dentro de água. Também se surpreendeu após abrir a tampa de pedra no fundo do poço, de nenhuma água verter para o subterrâneo. Desceu as escadas para o jardim e rapidamente encontrou a pereira. Já fazia o caminho de volta quando surgiu uma enorme ave de asas de prata. A ave fazia voos rasantes e o Cavaleiro teve que abrigar-se debaixo duma árvore. Procurou a espiga de milho e com alguma dificuldade encontrou-a e atirou-a para longe. A ave voou como uma flecha para onde estava a espiga e desatou a comer o milho, distraindo-se. Assim Adolfo conseguiu fazer o caminho de volta.

Chegou à casa de Navid, mas viu a sua oportunidade de entrar nos aposentos onde estava a gaiola, goradas pela presença de Shabnan.

Aliás, durante dias Adolfo não conseguiu entrar nos aposentos do casal pois Shabnan fechava a porta à chave. Adolfo estava a desesperar.

Entretanto era forçado a conviver com ela, diariamente.

Após Shabnan ter transformado Ivanoel numa ave, o seu comportamento mudara visivelmente. Estava mais expansiva e inclusivamente, tentava aproximar-se de Adolfo. Mais, insinuava-se a ele. Adolfo recuava sempre e num momento que Shabnan quase o beijara, Adolfo exclamou:

- Porque me tentais? Acaso não vos lembrais da minha verdadeira natureza?

- Eu olho para vós e só vejo um homem. Um homem que ainda não descobriu que é homem.

Adolfo sentiu-se constrangido e retirou-se.

Resistia em ter intimidades com qualquer mulher mas desde a transformação sentia-se diferente.

Até que uma tarde Shabnan ausentou-se de casa e Adolfo esgueirou-se para os aposentos do casal. O seu coração apertou-se quando viu que a gaiola não estava lá.

-Procurais algo? – A voz de Shabnan fez-se ouvir inesperadamente, sobressaltando Adolfo.

- Es… esperava… Por vós… - Balbuciou ele dizendo a primeira coisa que lhe ocorrera.

- Ah, o doce Adolfo finalmente decidiu assumir a sua virilidade! – Replicou ela sorrindo sedutoramente. Adolfo pestanejou corando.

- É… - respondeu ele por fim, deixando que Shabnan o beijasse. Deixou-se ir na esperança de adormecer qualquer desconfiança de Shabnan e de descobrir o paradeiro de Ivanoel.

A noite já caíra quando Adolfo pediu a Shabnan um chá. Esta ausentou-se diligente e nesse instante Adolfo convocou o génio da moeda.

- Encontrai rapidamente a gaiola e levai a pera pois encontro-me impossibilitado de sair daqui e desconheço o paradeiro de Ivanoel. – Pediu o cavaleiro ao génio que acedeu prontamente. Shabnan entrou com o chá e Adolfo, num momento de distracção da formosa oriental, deitou água na chávena dela. Não tardou que a bela mulher se sentisse mole e sem forças caindo num sono profundo. Adolfo procurou a Pedra. Naquele momento entrou Ivanoel.

- Que fazeis no quarto com ela? – Exclamou atónito Ivanoel olhando para Adolfo semi nu. Após abraçar o amigo, Adolfo explicou com vivacidade os acontecimentos, continuando a procurar a Pedra.

- Mas vós… - Tentou intervir Ivanoel, sendo interrompido pelo companheiro que lhe estendeu a Pedra com os olhos brilhantes.

- Ei-la! – E friccionou-a como da outra vez. A luz apareceu e o guardião da Pedra fez-se presente com o seu sorriso bondoso.

- Meus filhos, fico contente por me convocarem. É uma alegria estar convosco novamente, depois de tantas vivências que tivestes em tão pouco tempo. Bravo Ivanoel, sois testemunha da afeição de Adolfo por vós e a vida mostrou-vos que as aparências enganam e o que conta é a voz do coração. Doce Adolfo, tudo fizestes por amor a Ivanoel, porém pareceis ter dado um passo em direcção à vossa masculinidade. Amor incondicional decerto, mas pareceis ter chegado a uma encruzilhada. Que dizem então os vossos corações?

- Eu amo-vos. – Confessou Ivanoel de lágrimas nos olhos. – Sejais Aegle ou Adolfo, são tudo formas de Amor. Pesa-me perder um para ficar com o outro mas gostava de ser feliz com Aegle.

- Eu… - Adolfo hesitava e ao mesmo tempo sentia a emoção a apertar-lhe a garganta. – Neste momento já não sei de nada…

Ivanoel chorou ao ouvir as palavras do amigo e abraçou-o, enquanto o Guardião proferia em tom sábio: - Deixai que a Pedra decifre os vossos corações.

Os dois choravam e as lágrimas banhavam a Pedra da Felicidade. Então, gradualmente, Ivanoel viu Adolfo transformar-se em Aegle. Louco de alegria pegou nela e beijou-a. Ela correspondeu-lhe mas depois fitou-o.

- Não sentireis a falta de Adolfo?

- Sim, mas é convosco que me sinto completo. – Declarou Ivanoel.

- Quem sabe um dia?... - Sorriu o Guardião despedindo-se do casal apaixonado.



Epílogo



- Adolfo! Adolfo! Onde estás? – A voz de Ivanoel soava ecoando nos verdes campos da sua terra natal. Uma criança de seis anos surgiu correndo.

- Estou aqui, papá. Olha, trouxe umas flores para a mamã! – E estendeu um ramo de flores variadas. Ivanoel riu-se.

- Gostas tanto de flores que não sei como vais virar cavaleiro quando cresceres.

- Uma coisa não impede a outra. – A voz de Aegle fez-se ouvir, enquanto pegava na criança ao colo e recebia as flores que lhe eram destinadas. – A felicidade reside em sermos o que somos… com amor.

Ivanoel sorriu e beijou-a diante do sorriso feliz de Adolfo.


Fim

Autoria de Florbela de Castro
2013

Ég elska þig ástin mín. Galdur

Link da 1ªparte:
http://artlira.blogspot.pt/2013/02/conto-o-cavaleiro-e-pedra-da-felicidade.html

Link da 2ªparte:
http://artlira.blogspot.pt/2013/02/conto-o-cavaleiro-e-pedra-da-felicidade_21.html

Imagens retiradas da net. 2º e 3ª imagem autoria: Ruoxing Zhang

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Conto: " O Cavaleiro e a Pedra da Felicidade" - 2ª Parte - de Florbela de Castro




Adolfo corria às cegas, transtornado. Fora imprudente e agora poderia perder Ivanoel. Era cedo para ele saber. Entrou em casa de Navid e cerrou-se nos seus aposentos, chorando sobre o leito.

Por seu turno, Ivanoel, que ficara chocado e sem reacção, foi tomado por sentimentos de consternação, desorientação e constrangimento.” Como podia ser tal coisa?!... O seu companheiro perdera o tino! Só podia ser isso, não encontrava outra explicação plausível. Ou será que o enganara este tempo todo??”

Cerrou os punhos, sentindo uma fúria crescer dentro de si.” Adolfo teria de explicar-se!”

Como um furacão chegou a casa de Navid e entrou no quarto de Adolfo de rompante, vociferando:

- Cavaleiro Adolfo! Exijo uma explicação!

Adolfo olhou-o com uma expressão de animal acossado e estremeceu. Ivanoel apercebeu-se da reacção amedrontada de Adolfo e ainda se sentiu mais irritado. Agarrou o frágil cavaleiro pelos ombros abanando-o.

- Portai-vos como um homem! Um cavaleiro jamais tem medo doutro cavaleiro! Ou agora virastes cobarde?? Explicai a sandice que me dissestes há pouco no poço!

- É tudo verdade! – Gritou também Adolfo tentando libertar-se – Mas vós não podeis compreender!

- Parai! - Exclamou a voz de Shabnan que entrara nos aposentos. – Adolfo fala verdade … e sempre vos foi leal…. Eu vos explicarei.

Os dois olharam para Shabnan e esta prosseguiu com firmeza e autoridade. – Desde cedo fui uma estudante da Alta Magia e consigo descortinar bem onde existe um encantamento. Adolfo foi vítima dum poderoso encantamento que o transforma de dia num homem de verdade e à noite lhe devolve a sua forma feminina original.

Aquelas palavras atingiram Ivanoel como uma flecha. Adolfo era uma mulher?? Lentamente virou a cabeça para Adolfo examinando-o como se estivesse a fazê-lo pela primeira vez.

- Não posso crêr!... Como tal é possível? – Exclamou Ivanoel finalmente e com ar incrédulo.

-Esperai até a noite ganhar forma e vereis. – Declarou Shabnan.

E assim fizeram. Ivanoel esperava, não pronunciando qualquer palavra e fechado em si mesmo. Adolfo permanecia como que um pouco encolhido e com ar ferido. Queria aproximar-se de Ivanoel mas o ar sisudo deste, dissuadia-o.

Finalmente a metamorfose deu-se e no lugar de Adolfo surgiu uma graciosa mulher de cabelos cor de chocolate. Ivanoel reconheceu a mulher que vira numa noite.

- Ereis vós!

- Sim, era eu. Perdoai-me nunca vos ter contado o que se passava comigo mas ao início sempre me fechei em relação a revelar todo o meu sofrimento e depois apaixonei-me por vós e receava a vossa rejeição.

Aquelas revelações agitavam Ivanoel no seu íntimo. Sentia-se baralhado com a situação e não parava de olhar para aquela mulher desconhecida. Adolfo suspirou como que a tomar coragem e continuou:

- Sou Aegle. Sou vítima duma maldição vaticinada desde antes do meu nascimento. A minha família tem uma inimiga ancestral, que rogou uma praga aos meus pais para que tivessem uma filha que não primasse pela beleza e que nunca conseguisse casar. Caso algum dia fosse amada e correspondesse, seria para sempre homem de dia e mulher de noite. Ao saber disto o meu pai fez-me usar um véu a partir dos meus dez anos e isolou-me numa ilha com uma dama de companhia. Quando eu completei os 19 anos um cavaleiro naufragou na ilha e apaixonámo-nos. Ele queria casar comigo mas quando o encantamento desencadeou a minha dupla natureza ele abandonou a ilha…

Aegle parou para suspirar e desviou o olhar para a janela:- Mais tarde consegui sair da ilha com a ajuda da minha dama de companhia e do seu escudeiro. Tornei-me um cavaleiro com o passar dos anos e sempre fui muito solitária. Um dia ouvi falar da Pedra da Felicidade e o resto já sabeis...

Ivanoel ouvira-a experimentando algum compadecimento, contudo sentia-se enganado e essas duas emoções antagónicas melindravam-no.

- Entendo o vosso passado e a vossa demanda. – Respondeu ele por fim.- Porém não posso olvidar que me lograstes no decurso da nossa amizade. Posto isto, declaro que irei buscar a Pedra para vós como cavaleiro honrado que sou, mas proíbo-vos de me acompanhar. Ficareis aqui na casa de Navid.

Aegle levantou-se de rompante com intenção de protestar mas Ivanoel fitou-a rudemente do alto da sua estatura – Ficai longe de mim!

E saiu para os seus aposentos deixando Aegle de lágrimas nos olhos novamente. – Ele despreza-me! - Soluçou ela para Shabnan. Esta olhou-a condoída e ofereceu-lhe um chá e bolinhos, enquanto conversavam um pouco a fim de acalmar a mulher-cavaleira.

- Escutai-me, - dizia Shabnan – Infelizmente não está no meu poder conseguir que sejais mulher para sempre mas poderei ajudar-vos a aproximar de Ivanoel. Levai esta garrafa de água convosco e na primeira ocasião dai-lha a beber.

Aegle assim fez e na noite seguinte conseguiu dar a água a Ivanoel durante o jantar.

Já era noite alta quando Ivanoel se deparou com Aegle perto duma gelosia… ou seria Shabnan? Tomado por um sentimento estranho, Ivanoel beijou Aegle e tomou-a nos braços.





Ivanoel partira sozinho em direcção à montanha. Sem saber, no seu rasto seguia Adolfo.

Ivanoel tinha recordações enevoadas dos momentos com Aegle. Para ele assemelharam-se a um sonho agradável mas desconcertante. Tentou afastar os pensamentos, pois não se permitia a esses devaneios. Estava deveras ressentido com Adolfo pois tomara-o como um verdadeiro amigo e agora descobrira que não só Adolfo não existia mas também a pessoa que ele era, fora dissimulada com ele.

Assim estava perdido nos seus pareceres, olhando as chamas da fogueira, quando ouviu um cavalo. Deste desceu Aegle, pois já era de noite.

- Vós?? Aqui? – Bramiu Ivanoel - Eu não vos disse para ficardes na casa de Navid?! Mas que capricho as mulheres têm em fazer tudo como querem!

- Não sou só uma mulher! – Ripostou Aegle abespinhada – Por isso não sou assim tão frágil!

- O que quer que sejais não desejo a vossa companhia! – Rugiu ele irritado.

- Pois na última noite que passastes na casa de Navid adorastes a minha companhia! – Gritou Aegle não se contendo. O homem fitou-a por uns instantes, confrangido e logo entendeu tudo.

- Não encontro em mim razões para o ter feito. Deve ter sido uma fraqueza… Julguei ser Shabnan… Nutro uma afeição por ela. Quanto a vós, não sei o que sois. Eu amava Adolfo como um irmão mas vós… não sei o que sois.

Aegle sentiu-se aniquilada com as palavras de Ivanoel, enquanto este se afastava para a sua tenda.





Na manhã seguinte o moreno cavaleiro percebeu que Aegle/Adolfo não se encontrava mais ali. Sentiu alguma apreensão mas lembrando-se da experiência de Adolfo como cavaleiro decidiu não se preocupar. Prosseguiu a sua caminhada em direcção à Pedra. Quando alcançou o alto da montanha, entrou numas grutas e desceu durante algum tempo pelo único caminho visível. As galerias eram maravilhosas cheias de estalactites e estalagmites. Quando passou por um local com um arco, apareceu-lhe um Ser masculino de longas barbas e ar imponente.

- Sou o guardião deste lugar. Benvindo. O que desejais?

- Procuro a Pedra da Felicidade para libertar uma Dama presa a uma maldição. – E contou o caso de Aegle.

- Amais essa Dama? – Inquiriu o Guardião, bondosamente.

- A verdade… É que... Não… - Balbuciou Ivanoel embaraçado.

- Então porque desejais libertá-la? Acaso sabeis que a Pedra da Felicidade só pode ser activada perante um verdadeiro Amor?

Ivanoel estacou atónito. Por momentos sentiu-se desorientado. Poderia levar a Pedra mas sem Amor não funcionaria.

- A Pedra pode vir a ser útil à Dama num futuro… - quase murmurou o cavaleiro.

- Ide. – Ordenou o guardião estendendo a Pedra com ar misterioso.- E recomendai à Dama que a use junto ao peito.

Ivanoel assim partiu de regresso à casa de Navid, desapontado pela demanda pela Pedra se revelar malograda.

(Continua)

imagens retiradas da net

Autoria: Florbela de Castro
2013

Link da 1ªparte:
 http://artlira.blogspot.pt/2013/02/conto-o-cavaleiro-e-pedra-da-felicidade.html

Link da 3ªparte-Final:
http://artlira.blogspot.pt/2013/02/o-cavaleiro-e-pedra-da-felicidade-3.html

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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Conto: "O Cavaleiro e a Pedra da Felicidade" - 1ª Parte - de Florbela de Castro




Ivanoel era cavaleiro há quase 2 décadas, contudo ainda não chegara aos quarenta anos. De família de origem nobre mas já arruinada antes do seu nascimento, Ivanoel crescera num lar com privações, numa casa no campo. Mas com obstinação almejou chegar a cavaleiro ainda não era homem feito. Neste momento da sua vida já combatera em muitas guerras e batalhas e encontrava-se numa rota num país distante q o levaria ao porto para embarcar no veleiro de volta para o seu país.

Acomodara-se numa ligeira encosta após se alimentar duma côdea de pão, preparando-se para descansar, quando ouviu ali um ruido abafado de passos. Ivanoel conhecia bem os sons da natureza e apercebeu-se q aquele som era metálico o que o pôs em alerta; podia ser um inimigo.

No seu campo de visão surgiu um cavaleiro em armadura, com a viseira do elmo descida. De imediato Ivanoel desembainhou a sua espada e quase no mesmo instante o outro cavaleiro dispôs a sua lança em riste.

- Quem sois? – Bradou Ivanoel. O outro cavaleiro estacou hesitante e acabou por levantar a viseira e baixar a lança.

- O meu nome é Adolfo e sou desta terra. Mas vós tendes aspecto de ser estrangeiro.

Ivanoel assentiu embainhando a espada. Contou-lhe a razão de se encontrar naquela terra. Adolfo convidou-o a saborear um peixe assado. Conduziu-os a um caudal ali perto e após boa pescaria, assaram juntos uma deliciosa refeição de peixe e pão escuro com uma bebida de malte, tudo fornecido por Adolfo. Ivanoel observava Adolfo com alguma curiosidade. Este parecia pequeno e frágil para ser um cavaleiro. Devia ser muito jovem pois o seu rosto era imberbe e de traços suaves e delicados. Adolfo deitou-lhe um olhar dissimulado e desviou os olhos parecendo perturbado e perguntando bruscamente: - Algum problema?...

Ivanoel respondeu-lhe com outra pergunta: - Que fazeis por estes caminhos?... Que destino vos leva a realizar esta peregrinação?

- Encontro-me na demanda da Pedra da Felicidade. É uma pedra tão preciosa que não existe em mais lugar algum do mundo e tem o poder da Verdadeira Felicidade.

- E para que te interessa tal pedra? – Interpelou Ivanoel francamente - Acaso não sois feliz, Cavaleiro Adolfo?

As feições de Adolfo anuviaram-se, adoptando uma expressão de amargura e resignação.

- Existe uma dama, de nome Aegle, que está presa a uma maldição que não permite que ela seja livre para amar. – A resposta de Adolfo denotou uma emoção profunda.

Ivanoel fitou-o perplexo; deduziu pelo discurso de Adolfo que este deveria dedicar um amor devoto por essa donzela. Ao concluir que tão jovem cavaleiro dedicava a sua vida naquela demanda, o seu respeito por Adolfo enalteceu-se.

- Amais essa Dama? O que ela é para vós?... E como uma Pedra pode ter tamanho poder?

- Trata-se duma pedra mágica – explicou Adolfo falando pausadamente. Calou-se por uns momentos como que vendo algo ao longe – Quem a tiver em seu poder ficará liberto de todas as amarras que impedem a felicidade.

- Sabeis onde a encontrar?- Inquiriu Ivanoel.

- Não exactamente. Busco um mago no cimo da montanha mais alta do meu país, que me dará um mapa.

- Irei convosco. – Retorquiu o moreno cavaleiro com determinação – Acompanhar-vos-ei nessa busca de tão nobre propósito.

- … Quanto à Dama… é alguém de quem sou muito próximo… - Levantou-se bruscamente como que para afastar pensamentos desoladores e agradeceu a cooperação de Ivanoel, pedindo-lhe apenas que durante toda a jornada não dormissem juntos na tenda de campanha.

Ivanoel fitou-o perplexo ao ouvir aquelas palavras, pois o pedido soava-lhe descabido mas conteve-se e preferiu respeitar a vontade do Cavaleiro desconhecido, mesmo que muito misterioso.

E assim partiram juntos naquilo que viria a ser uma aventura jamais sonhada, nas suas vidas, por qualquer um dos dois cavaleiros.


Durante longas semanas os dois homens percorreram montes e vales, planícies e planaltos. Durante aquele tempo o companheirismo cresceu entre os dois e tornaram-se como irmãos. Brincavam, riam juntos, pescavam, caçavam e cozinhavam.

Ivanoel como sempre, dormia separadamente de Adolfo, mas muitas vezes se perguntava o porquê disso, enquanto olhava para as estrelas.

Uma noite, já perto do seu destino, Ivanoel decidiu ficar acordado e foi passear nas redondezas. Qual não foi o seu espanto quando se deparou com uma formosa senhora de cabelos cor de chocolate. Como haviam passado durante o dia por uma casa numa colina, deduziu que pudesse ser habitante da mesma. No entanto era de estranhar vê-la fora de portas àquela hora, com a noite já avançada. Pressuroso, aproximou-se para oferecer-lhe a sua ajuda e protecção, contudo a misteriosa mulher fugiu ao vê-lo e Ivanoel perdeu-lhe o rasto. Perturbado, foi deitar-se após a procurar sem sucesso pelas redondezas.

No dia seguinte, contou a sua estranha aventura a Adolfo. Este ouviu-o com atenção e após um curto silêncio, replicou em voz suave que talvez fosse um espirito da natureza ou uma fada. O cavaleiro Ivanoel deixou transparecer no seu rosto a sua dúvida. A mulher parecera-lhe demasiado real para ser do reino mágico. Não quis insistir com o seu companheiro e guardou as suas interrogações para si.

Puseram-se a caminho e passado nem uma hora encontraram um velho de longas barbas no caminho. Era o Mago que Adolfo procurava. Este fitou-os com um olhar perscrutador como que sondando as suas almas.

- Viemos em busca do mapa para… - começou a falar Adolfo, sendo bruscamente interrompido pelo Velho sábio com um gesto impaciente.

- Escusais de prosseguir – replicou num tom seco – Já sei ao que vêm. Aqui têm o mapa.

Adolfo pegou no mapa primorosamente enrolado e estendeu-o um bocado hesitante e confuso com a facilidade e prontidão com que o obtivera. Quando observou o seu interior, o seu semblante esmoreceu: o local onde se encontrava a Pedra da felicidade era num país além-mar.

Ivanoel também se debruçou sobre o mapa e quando percebeu o desalento do companheiro, reafirmou o seu apoio e firmeza em continuarem na demanda da Pedra.

- Não desanimeis bravo Adolfo! – Exclamou o cavaleiro Ivanoel com vivacidade - Com tenacidade chegaremos ao porto deste país e de lá entraremos para o navio ou veleiro que nos levará para o Oriente!

Mas Adolfo deixou-se sentar pesadamente na beira do caminho. Os seus olhos marejaram-se de lágrimas.

- Estou cansado. – Desabafou com voz sumida. – Esgotado de tanta procura, de tanta espera… São muitos anos…

- Como podeis desanimar agora, companheiro? Estamos na posse do mapa e em direcção à Pedra caminharemos! Lembrai-vos da nobre Dama Aegle que vos espera, decerto ansiosa pelo vosso retorno!

Nesse momento o mago interveio em tom ambíguo: - Sei de que mal ele sofre, do mal de amor que lhe tortura o coração e a alma.

- Escutai-me nobre Cavaleiro. – Pediu suavemente Ivanoel pondo a mão no ombro de Adolfo – Pareceis-me jovem e no entanto tendes um ar demasiado melancólico para alguém tão tenaz e garboso e com tanto ainda para viver! Não percais a esperança logo agora!

Adolfo fitou-o com alguma esperança revivida e agradecido pelo entusiasmo com que o outro cavaleiro desejava ajudá-lo.

- Penso que tenho comigo algo que mitigará a vossa espera… - Replicou o mago estendendo-lhes uma pena. – Esta pena de falcão permitir-vos-á viajar numa questão de segundos até ao porto deste reino. Apenas tereis que lhe dar essa intenção. Porém a sua magia cessa aí. Guardai-a depois, porque pode ser-vos útil mais tarde.

Ao ouvir isto Adolfo pareceu renascer em contentamento. Despediram-se alegremente do mago e enquanto Adolfo tomava a dianteiro do caminho se afastando uns passos para se refrescar, o mago redarguiu em voz baixa para Ivanoel:

- Ides ao encontro do amor. Estai atento, escutai o vosso coração e não as aparências. Não sigais o que a vossa mente vos dita mas sim o que o coração vos indicar, ele é que é o sábio.

O cavaleiro olhou-o confuso. – Mas… Estais equivocado Sábio Mago! Não sou eu que procura o Amor e sim Adolfo.

- Às vezes quem nada procura, tudo encontra! – Ripostou o Mago misteriosamente e calou-se à vista de Adolfo.

Ivanoel ainda o fitou perplexo mas foi incitado pelo companheiro a encetarem a viagem até ao porto através da magia da pena.


Já no porto tomaram conhecimento do navio que partia para o Oriente e poucos dias depois embarcaram nele. A viagem foi longa mas decorreu sem incidentes de maior.

Vários meses depois desembarcavam no porto do Reino persa. Lá procuraram hospedagem e roupas. Por um acaso travaram conhecimento com um rico mercador que se mostrou agradado com os forasteiros e lhes ofereceu hospitalidade na sua própria casa. Eles aceitaram aliviados e contentes com a oferta.

A casa do mercador Navid era rica de belas colunas de mármore, trabalhadas e os dois cavaleiros foram muito bem recebidos. Cada um ficou com um quarto de hóspedes e tomaram banho, preparado pelos escravos de Navid. Vestiram bons trajes de seda e no final foram servidos de finas iguarias e manjares. Navid esmerara-se no acolhimento. Durante o repasto os dois forasteiros expuseram a sua demanda a Navid que prometeu ajudá-los.

Já no final surgiu uma linda dama velada que Navid apresentou como sua filha, Shabnan que significava gota de chuva. Navid revelou que a filha era conhecedora de magia e que talvez os pudesse auxiliar nos seus propósitos. A jovem mulher escutou tudo em silêncio e aquiesceu com a cabeça. Ivanoel agradou-se dos traços que o véu deixava adivinhar e de seus olhos e ficou estacado a mirá-la. Shabnan fitou o moreno cavaleiro demoradamente e deitou um olhar furtivo ao cavaleiro delicado. Adolfo desviou o rosto após ter-se apercebido da troca de olhares. Olhou para a lua com expressão vazia e despediu-se afirmando estar cansado da viagem. Shabnan retirou-se logo a seguir à saída de Adolfo, para grande pena de Ivanoel.

Deixou-se ficar mais um tempo até que acabou por se retirar. Qual não foi o seu espanto quando viu Shabnan sair dos aposentos de Adolfo! Não se conteve e interpelou a bela oriental. Esta olhou-o nos olhos e falou a meia voz:

- Talvez não compreendais as palavras que vou proferir agora mas viajais em direcção a um grande amor, mas por ora não vos poderei dizer mais nada. Amanhã ide com Adolfo ao poço que existe nos limites da cidade, ao entardecer e pedi ao vosso amigo para vos revelar o que mais o atormenta. O poço é mágico e perto dele qualquer pessoa só conseguirá falar a mais pura das verdades.

- Mas… porque me dizeis isto? Acaso achais que o meu companheiro não me é leal? Eu já sei o que mais atormenta o valoroso Adolfo! E isso não explica o que fazíeis nos seus aposentos.

- Sabereis esse porquê amanhã no poço… - E retirou-se sem mais delongas.

Tal como lhe aconselhara Shabnan, ao entardecer Ivanoel convidou Adolfo a ir passear até ao poço mas sem lhe revelar o seu propósito. Este assentiu com um ar melancólico. Estava assim desde que acordara para espanto de Ivanoel. Seguiram em silêncio até ao poço e lá descansaram. Ivanoel interpelou então o amigo o que o atormentava. Sem saber como, Adolfo respondeu-lhe que até ao dia anterior sofria por querer encontrar a Pedra mas que agora sofria por Ivanoel.

- Mas porquê por mim?...

- Porque vos amo e percebo que estais apaixonado por Shabnan! – Quase gritou Adolfo com intensidade. Ivanoel sentiu-se fulminado por aquela revelação absolutamente inesperada. Adolfo instintivamente tapou a boca com uma mão ficando petrificado, mas segundos depois corria veloz dali.


Autoria de : Florbela de Castro

imagens retiradas internet

2013

Link da 2ªparte:
http://artlira.blogspot.pt/2013/02/conto-o-cavaleiro-e-pedra-da-felicidade_21.html

Link da 3ªparte-Final:
http://artlira.blogspot.pt/2013/02/o-cavaleiro-e-pedra-da-felicidade-3.html

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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Conto: "O Sapateiro e a Tesoura Mágica" - 2ª Parte - Final - de Florbela de Castro





(Continuação)



Ao lado havia um bilhete com instruções para o fabrico duns sapatos de festa, junto com um par de sapatos para tirar o molde.

O sapateiro não se fez rogado e trabalhou afincadamente na manufactura. O trabalho corria-lhe veloz pelas mãos e admirou-se de concluir o serviço em 3 horas.

Gerard acabou por cear e deitar-se sem encontrar vivalma, de tão exausto que estava. A madrugada já se instalara quando uma nuvem apareceu mesmo aos pés da cama do homem. Perplexo viu surgir um ser masculino de quase 2 metros, encorpado que lhe falou com uma voz de trovão.

- Sapateiro!...Admirado deves estar por seres possuidor de tão invulgar talento! Não te perguntas como este dom te veio parar às mãos?!... – E fitava-o com um olhar misto de arrogância e condescendência, vendo as feições do homem se ruborescerem. E sem se deter contou a Gerard como ele próprio já havia aparecido aos seus bisavôs, oferecendo-lhes uma Tesoura Mágica para o molde e manufacturação do calçado. O instrumento tinha o condão de abrir caminhos na vida das pessoas, conforme os seus desejos mais recônditos. Após esta revelação, perguntou em voz melíflua se Gerard não havia jamais pensado em dar um rumo diferente à sua vida. O sapateiro pestanejou, hesitante. Magnus, o gigante, redarguiu que Gerard podia escolher o destino que desejasse, tão somente o sentisse no seu intimo e formulasse esse desejo e confeccionasse um par para si mesmo. Já não bastaria de vida sem sabor e sem alegria? Afinal com aquela Tesoura podia sonhar e saber que tudo se realizaria. Com um sorriso trocista viu a expressão do sapateiro iluminar-se. Com uma gargalhada despediu-se dizendo para Gerard dormir sobre o assunto. O homem de meia-idade deitou-se e adormeceu com a cabeça fervilhando de ideias grandiosas.



No dia seguinte acordou estremunhado em sua própria casa. Durante um tempo perguntou-se se tudo não teria passado dum sonho. Porém lembrou-se das palavras de Magnus e a única de maneira de comprovar tudo seria fazendo uns sapatos para si. Pôs mãos à obra e executou um par de sapatos para o baile que haveria nessa noite.

Os sapatos sem dúvida ficaram belos, forrados a maravilhoso acetinado e de fivela de prata. Gerard calçou-os ansiosamente e fitou-se no espelho:

A sua desengonçada figura metamorfoseara-se num belo e garboso homem de estatura alta, robusto mas esbelto, de sedosos cabelos louros ondulados e brilhantes olhos verdes.

O seu ar atónito depressa se desfez num sorriso. Estava pronto a conquistar o mundo.



A partir daquela noite Gerard tornou-se um “habituée” dos bailes e serões literários, dos salões das mais nobres famílias da região e das regiões vizinhas. Cedo, as donzelas se tomaram de amores por tão bom partido.

Gerard sentia-se poderoso com tanta adulação e rapidamente tirou partido dessa situação namoriscando com quase todas as pretendentes que lhe caíam aos pés.

A certa altura Elsa começou a aparecer em alguns bailes e serões. Os sapatos haviam-lhe proporcionado outra posição social e deixara de ser dama de companhia. A vaidade e atração do gentil-homem, foram estimuladas por esta nova oportunidade e não tardou em fazer-lhe a corte e tornar-se seu prometido. Contudo nem esta nova reviravolta afastou Gerard da sua faceta oculta de conquistador. Sentia o seu amor-próprio insuflado pela fama que ganhara junto ao público feminino.

Como a vida dele adquirira uma nova côr!... O homem mantinha uma vida dupla pois ninguém desconfiava que o sapateiro era o galhardo gentil-homem que fazia inveja ao próprio príncipe.




Não era sempre, mas Gerard começou a ter sonhos estranhos. Sonhava que estava num mundo aparte, num mundo que existia mas ele não sabia como nem onde. Frequentemente lhe surgia a figura doce e quase surreal duma mulher que parecia flutuar. Com o tempo julgou reconhecer semelhança com a camponesa que lhe indicara em tempos o caminho para o castelo, contudo as vestes divergiam e esta tinha o ar ainda mais surreal e etérico. A figura instava-o a desistir do caminho que tomara na vida, daquele comportamento duplo e camuflado e a melhorar por si mesmo. Quando acordava nem sempre Gerard se lembrava dos sonhos. Às vezes permaneciam fragmentos, outras vezes era a desmemória total.

Mas do pouco que se lembrava, mesmo não entendendo o significado dos sonhos, Gerard murmurava para os seus botões que não mudaria nada das suas escolhas, pois merecia o caminho que trilhava, após as agruras que passara na vida.


Enquanto a natureza se encontrava serenada e antes do raiar da aurora, havia-se reunido um conselho de seres da natureza: O Rei dos elfos encontrava-se face àquela singular aglomeração, tendo na sua frente Alienor, a bela elfa de beleza surreal.

Esta exortava com empenho a uma intervenção mais definida junto de Gerard, contudo o rei parecia estar reticente.

- Se não intercedermos com mais veemência Gerard pode estar perdido para sempre! E jamais se reunirá a nós para voltar a ser o Príncipe Alaric, dotado da capacidade de gerar caminhos!...

O rei interrompeu-a com um gesto brusco, silenciando-a:

- Sim, bem sei que a família que recebeu Sua Alteza e fez o papel de sua família verdadeira, se aliara com gnomos e duendes o que facilitou o trato. Tomou o nome de Gerard derivado à sua missão, cujo papel era um dia ser salvador da natureza deste reino. A tesoura acompanhou-o como presente e apoio reunido dos gnomos, duendes e elfos. E é de acrescentar que graças à ajuda das fadas, permaneceu de identidade escondida e sem memória ou conhecimento dos seus antecedentes. – Replicou o rei – Mas Gerard escolheu outros caminhos escusos…

- Oh, ele foi influenciado pelo gigante Magnus! – Exclamou Alienor com intensidade.

- Foram as suas escolhas…- Reiterou o rei com paciência mas firmeza - E quando se escolhe a Natureza age em conformidade.

- Mas algo mais que os sonhos que lhe envio tem de ser feito! – Voltou a exclamar Alienor quase de lágrimas nos olhos – Senão, como me vou reunir com O Escolhido?... Ou vão permitir que ele continue a desequilibrar o curso da Natureza com o que faz?

Com aquelas palavras gerou-se um burburinho. Realmente a situação não podia prosseguir por muito mais tempo ou as consequências seriam nefastas tendo em conta as leis da natureza. Mexer com o que não se era suposto, era forçar os acontecimentos para um curso não natural e isso traria um desequilíbrio no curso/ fluxo normal da Vida.

Convocaram a Fada que os ajudara em tempos. Esta surgiu e falou:

- Sabem que nem tudo pode ser desfeito ou revertido, tendo em conta o que já foi feito. Mesmo aliando o meu poder ao rei dos elfos, o máximo que podemos reverter, é fazê-lo ter consciência e memória de tudo mas a união poderá estar comprometida para sempre.

O rei dos elfos aquiesceu e continuou por seu turno: - A sua essência original de elfo vai ser reactivada. Gerard ganhará consciência de quem é mas não de quem tu és. Poderão ver-se mas não conseguirão ficar juntos se ele não mudar de rumo. E mesmo que mude, a união física poderá nunca ter lugar a não ser que ele ganhe consciência de tudo.

- A sua aparência permanecerá como a do príncipe dos elfos. – Acrescentou ainda a fada – Mas um véu de esquecimento descerá sobre os humanos e estes não se recordarão mais de quem era Gerard antes destas mudanças. Só ele se aperceberá de todas estas alterações.

E a reunião terminou deixando Alienor pesarosa e preocupada com o desfecho vaticinado para Gerard.


Os dias e semanas que se seguiram à reunião dos elfos, foram para Gerard, confusos e avassaladores. Lembranças dum passado que nunca antes houvera memória, atropelavam-se na cabeça dele como certezas indubitáveis. Sensações familiares mas que lhe eram absolutamente estranhas, invadiam-no. Durante uns tempos andou nesse estado febril de perturbação e quase julgou enlouquecer. Até a cidade e todos seus conhecidos pareciam ter entrado numa loucura colectiva pois ninguém parecia recordar da aparência e afazeres anteriores de Gerard e saudavam-no, felicitando o seu bom aspecto como se fosse normal uma transformação física tao drástica… ou pior: pareciam nunca tê-lo conhecido doutra forma.

Até que reviu a camponesa surreal em sonhos, desta vez cm percepção total dos mesmos, já acordado, que lhe foi elucidando sobre o teor de tudo que lhe assaltara à mente.

Pouco tempo depois, Gerard casou com Elsa, pois o enlace já estava programado mesmo antes da memória original de elfo ser reactivada nele. O casamento foi de pompa e algum tempo depois um filho vinha a caminho.

A vida parecia finalmente presentear o ex-sapateiro com tudo aquilo que ele mais almejara: riqueza, prestígio, popularidade, enfim ventura em todos os aspectos. Gerard pusera as re-memórias um pouco de lado com o próximo nascimento do rebento. Contudo, nada o fazia realmente vibrar: o vazio permanecia enraizado e acumulado por aquelas lembranças bizarras. Aliás, esses pedaços duma existência paralela eram a única coisa que nutria mínimamente o seu íntimo.

Foi então que A reviu: a figura da mulher surreal mirava-o junto à igreja do outro lado da praça. O seu olhar fundiu-se com o dela trazendo-lhe a impressão duma intimidade e reconhecimento extraordinário, sem no entanto desvendar a razão de tal. Tão depressa a viu como deixou de ver e apesar de ter tentado apanhá-la, a mulher parecia ter-se sumido como da primeira vez.

Primeiro veio a epidemia. Mortal e altamente contagiosa. Encerravam-se ruas e casas, ostracizavam -se pessoas e famílias, queimavam-se corpos e haveres.

Elsa foi uma das numerosas vítimas do flagelo. Gerard sentiu-se esmagado pelo peso da amargura, derrota e consternação com o rumar dos acontecimentos, pois a sua percepção de elfo lhe dizia que assistia ao retorno que a Natureza lhe dava por influenciar o seu curso. E pouco depois caiu doente, sendo exilado da cidade como os que não tombavam logo vítimas daquela enfermidade.

Quando Gerard voltou à cidade, esta tornara-se uma cidade fantasma tal como tantos outros lugares daquelas regiões. Partiu para a floresta e após caminhar um bocado surgiu-lhe Alienor. Esvaído, ele suplicou:

- O que faço?... Porquê isto tudo?...

A elfa acercou-se dele e soprou-lhe no coração fazendo-o lembrar-se da união dos dois. Os olhos dele marejaram-se de lágrimas.

- Alienor!... Como me pude alhear tanto de ti e do teu amor?... – E mirava-a a transbordar de amor, enquanto Alienor chorava de emoção.

Estavam quase a cair nos braços um do outro quando a Fada surgiu, interferindo. Explicou ao Príncipe elfo qual era a sua identidade e a sua missão, a intromissão de Magnus, que desejava a tesoura e ainda mais derrubar Gerard, aliás, o príncipe Alaric, e como este mesmo malograra a sua missão e a sua própria vida, sofrendo as consequências já por si conhecidas. Elucidou também como funcionava o equilíbrio da natureza e o quanto eles tinham intercedido para ele não ficar perdido para sempre.

- Infelizmente, mesmo tendo os nossos poderes, o teu destino já foi deliberado em conselho com todos os seres da Natureza. E terás que permanecer cristalizado por tempo indeterminado, até um dia em que o Amor novamente e a Natureza te resgatem a alma, através duma nova vida.

Gerard encarou a Fada um bocado confuso. Mas esta não se deteve e virando-se para Alienor disse, antes de se eclipsar: - Vocês já não têm muito tempo visto que já anoiteceu há um pedaço e depressa a Aurora raiará e quando isso acontecer, ele ficará cristalizado.

E os dois elfos envolveram-se nos braços um do outro como se pudessem suspender o tempo.



Quando a aurora veio, os dois amados, fitaram-se e beijaram-se docemente, enquanto o corpo do príncipe se cristalizava progressivamente.

Alienor olhou o sol. Estava triste mas tinha esperança. Eles eram imortais e de qualquer forma a mãe Natureza presenteava-a pois no seu ventre já germinava o fruto daquela ligação.



Fim

Autoria de Florbela de Castro

Link da 1a parte: http://artlira.blogspot.pt/2012/05/conto-o-sapateiro-e-tesoura-magica-1.html

Primeira imagem autoria de Feimo

As outras imagens são de autoria desconhecida


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