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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Conto: " O Despertar" - de Florbela de Castro


Daniel olhava para a sua chávena de café, sentado sozinho numa mesa. O frio da rua congelara-lhe os músculos da face e as mãos enregeladas como que aconchegavam a chávena quente, numa tentativa vã de aquecer as mesmas. Nem se atrevera a tirar o gorro que cobria os seus cabelos cor de mel.

O seu olhar perdido no fundo da chávena traduzia o seu profundo estado de aborrecimento, o que nas últimas semanas se tornara frequente.

A vida era sempre a mesma coisa, sem sabor nenhum. Casa-trabalho, trabalho-casa. Sem namorada;sem passatempos. Nada de diferente se passava além da rotina habitual. A vida nocturna deixara de ser apelativa; as conversas dos amigos também o haviam desmotivado há muito. Vogava num marasmo que lhe apertava o peito a cada dia que passava e ao mesmo tempo o fazia viver num limbo constante.

Saiu para a rua deixando que o sol brilhante daquele inverno lhe ferisse os olhos claros. Que fazia ele cá no mundo? A interrogação bailava-lhe no pensamento, enquanto os olhos se marejavam de lágrimas. Não se importava de chorar em plena rua. Que lhe importava a multidao?Aliás, como conseguiriam eles viver a vida? Seria dificil? Vazia? Intensa?

Os pensamentos invadiam-lhe a mente em catadupa e desordenados, caóticos. Sentiu uma vertigem. Podia ser fraqueza. Afinal acordara cedo e ainda não comera nada sólido. Ainda não era meio-dia mas decidiu comer um cachorro quente numa roulotte. Doia-lhe o corpo todo e a vertigem voltara, mesmo já tendo comido quase todo o apetitoso e recheado cachorro. Tentou equilibrar-se e olhou em volta cautelosamente, porém a paisagem fechou-se numa tela escura, de forma abrupta.

Quando acordou encontrava-se no hospital. Panóplias de exames, azáfama.

O veredito atingiu-o como um raio que fende uma árvore até à sua raiz: Cancro.

Mas como?... Como o cancro se atrevia a vir ceifá-lo quando ainda se encontrava no inicio da sua terceira década de vida?!

Perplexo, revoltado e apavorado. Como a vida era irónica! Ainda há dois dias atrás Daniel pusera a hipótese de não viver mais, e agora...

De dia passaram a ser os exames e tratamentos e à noite as lágrimas do medo e do alivio de ainda estar vivo.

Cada noite Daniel pensava em todas as coisas que poderia ainda realizar, coisas que não lhe interessavam antes mas que agora pareciam ter um valor precioso. O sol, as estrelas, o cheiro da relva molhada e das árvores no inverno ou aroma da primavera... Pintar, escrever, andar, ir a feira popular, tirar fotos, visitar monumentos, cozinhar.

Todos os dias pensava nisso, sonhava como essas pequenas coisas. Até que esses pensamentos se tornaram em bálsamos para a sua dor interna e para a suas dores fisicas também.

Os meses passaram e Daniel foi recuperando. Saiu de casa dos pais e voltou para o seu t0. Redecorou-o, pintou-o de cores vivas e padrões vivos e formas loucas.Cozinhou,passeou, praticou yoga e tornou-se amante da Natureza. Parecia ter morrido e renascido como uma fénix renasce das cinzas.

Contudo uma das coisas que puxou mesmo o homem renovado foi escrever. Cantar no papel o que alma lhe entoava. Enchia folhas de poemas e textos e mais tarde de belos contos imaginados. Sentia-se leve como uma pena e brilhante como uma borboleta.




Daniel olhava para o seu copo de água sentado numa mesa comprida e com outras pessoas. O calor do local permitia-lhe ter as mãos quentes. Recordava com benevolência o seu doloroso despertar e de como a sua vida fora impulsionada para uma enorme transformação a todos os niveis.

E esse caminho levara-o aqui.

Era o trigésimo livro que autografava. Passou a mão nos cabelos grisalhos de seis décadas e meia.

Sorriu cúmplice para a sua amada doce e graciosa mesmo com o passar dos anos. Como era bom abraçar a vida a cada instante.

FIM



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