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domingo, 1 de junho de 2014

Conto : "O Principe - Trovador" - 3ª Parte e última Parte - De Florbela de Castro





Raimundo, a partir da data do encontro com Aurora, passara a compor belas melodias em homenagem ao seu belo amor, deixando também pequenos versos românticos espalhados pelo palácio, na esperança furtiva de que a jovem misteriosa fosse realmente Aurora. Os nobres que frequentavam a corte sorriam e aclamavam alegremente as trovas, encarando-as como uma forma criativa e artística do seu principe expressar a sua inspiração ou até de homenagear a sua prometida.

Mesmo sem voz e sabendo da cegueira do seu amado, Aurora sentia no seu coração e alma que as trovas e versos lhe eram dirigidos, enchendo-se de contentamento. Porém, mantinha uma postura discreta para não revelar a sua identidade.

Varynia, a nova princesa, era geniosa e imprevisìvel. Mas perante a sociedade ela afivelava uma máscara de grande benignidade.Os serviçais temiam-na e viviam subjugados pelo seu poder e pelo medo. A família real parecia não se aperceber da verdadeira personalidade da princesa. O principe Raimundo acompanhava-a em passeios, refeições e pequenos espetáculos de diversão, sendo sempre amável e solícito.

Por seu turno, Aurora escutava e assistia ao desvelar da verdadeira princesa. Tal como todos, ouvia os impropérios proferidos por esta quando as coisas não se encontravam à sua feição. Aurora pensava para si mesma que o principe tinha caído num grande engano, contudo não estava em posição de intervir.

A linda bordadeira pensava na sua fada-madrinha para vir em seu auxílio mas agora não vivia nem dormia sozinha e era arriscado expôr-se dessa forma.

Numa das suas folgas dirigiu-se sozinha aos arredores da cidade, adentrando o bosques. Abalara cedo de manhã pois a orla da floresta ainda era distante.

Duas horas depois chegou perto dum ribeiro que uns quilómetros mais adiante se fundia com o mar. Descansou na relva atapetada de flores e então dispôs-se a chamar pela fada-madrinha com o seu pensamento, visto que estava muda.

Porém, não obteve resposta. Em vez disso, viu um redemoinho surgir na água e uma mulher de aspeto transparente e vestido azul, materializar-se. Aurora ficou perplexa e recuou um pouco, mas a aparição instou-a a aproximar-se e apresentou-se como sendo a Senhora Das Águas. A senhora aquática parecia ouvir os pensamentos de Aurora e transmitiu-lhe que os sentimentos e pensamentos eram como as ondas do mar e as correntes dos rios. A morena mulher sentia uma calma e uma pacificidade junto da inusitada presença feminina. Esta convidou-a a mergulhar nas águas para conhecer o seu palácio no mar. A jovem mulher olhou-a assustada e confusa, enquanto a Aquática Presença soltava uma gargalhada que se assemelhava ao borbulhar da água e lhe estendia um búzio cheio de água para ela beber. Depois deu-lhe a mão e as duas mergulharam, com Aurora em suspense.

A bela moça terrestre visitou, encantada, o belo palácio de madrepérola e coral, entendendo-se com os conterrâneos aquáticos e demais espécies apenas através de pensamentos. Longo tempo depois foi levada de volta à terra. Já na margem, a Senhora das Águas transmitiu-lhe que não podia intervir do mesmo modo que a fada mas que lhe presenteava com algo: a sua voz. Assim já poderia lidar com mais independência, com a situaçao de Varynia e o principe Raimundo. E docemente, despediu-se num murmurar de águas.

Com uma gargalhada sonora Aurora rodopiou quase como que dançando, porém foi bruscamente parada por uma exclamação de fúria e escárnio: - Não tão rápido minha menina! Já sei quem tu és e quais as tuas intenções! - A voz de Varynia soava ameaçadora – Mas lamento informar-te que jamais te poderás reunir ao teu querido principe! Sabes porquê?

E pronunciando isto, enterrou as mãos na terra erguendo-as, vociferando:

- Porque eu tenho poder da terra e por isso comando que te transformes numa árvore!

Perante estas palavras, a mulher metamorfoseou-se numa árvore de copa frondosa.


O principe Raimundo recordava muito Aurora. Sabia que a sua vida tinha de prosseguir mas sentira nos últimos tempos a sua presença de uma forma marcante e de repente... Nada. Tudo parara. Será que Aurora estivera realmente presente na sua corte, no palácio real? Se assim fora, porque não lhe falara? A ideia tanto lhe parecia descabida como também a mais coerente.

Bateram à porta. O seu fiel escudeiro chamava-o para o seu passeio matinal. Apesar de cego, o principe continuava a cavalgar. Ao passarem nos pátios exteriores junto `as cavalariças, Raimundo ouviu duas crianças soluçar. Condoído perguntou o motivo da tristeza deles. Estas responderam que a sua mãe havia desaparecido e eles estavam sós no mundo.

Comovido, o principe sossegou as crianças quanto ao seu futuro e tomou-os em sua proteção. Entretanto indagou-os dos pormenores do desaparecimento da progenitora. Mas as crianças pouco lhe adiantaram. Uma outra serviçal acabou por se aproximar acanhadamente, explicando ao principe quem era a mãe das crianças e como viera para o palácio e que havia uma semana que ela saíra para os arredores do bosque e jamais voltara.

Raimundo achou tudo muito estranho. E a suspeita de que aquela poderia ser Aurora, solidificou-se. Era o que o seu coração lhe dizia.

“Mas então... se ela era Aurora as crianças eram... Seus filhos!”

Aquele pensamento fê-lo estremecer alvoroçado.

Imediatamente nomeou uma dama da corte para ama das crianças e acompanhado do seu escudeiro, dirigiu-se aos aposentos de Aurora e demais serviçais, pedindo para lhe entregarem os seus haveres. Não tardou em descobrir a capa azul e pelo toque e aroma reconheceu ser a de Aurora. Imediatamente a janela do quarto se abriu e surgiu a fada-madrinha de Aurora.

Com vivacidade contou-lhe todos os pormenores da vida de Aurora desde o afastamento do principe atá à data presente. Revelou-lhe a verdadeira índole de Varynia, o que ela fizera à sua amada e o prévio encontro desta com a Senhora das Águas. E finalizando, proferiu que estava nas mãos de Raimundo inverter aquela situação. Após declarar isto, retirou-se.

Raimundo ouviu-a siderado. Não sabia o que fazer para a salvar. Sufocado, o principe saiu com o seu escudeiro numa cavalgada desenfreada até ao local onde estava Aurora transformada em árvore. Ali chorou copiosamente. As suas lágrimas ao tocarem no solo transformavam-se em belas margaridas. Cedo o solo em redor ficou atapetado das ditas flores, pois o principe passou a rumar àquele local diariamente.


Haviam decorrido poucos dias e a canícula fazia-os suar debaixo das suas fardas.

Na sua visita diária Raimundo decidiu refrescar-se no ribeiro, por esse mesmo motivo e para limpar as suas lágrimas. Dispôs as suas mãos em concha e limpou abundamentemente o seu rosto com a água. Qual não foi o seu pasmo quando percebeu que voltara a ver! No seu rosto rasgou-se um sorriso exultante e cheio de alegria partilhou com o seu amigo e fiel escudeiro a boa nova. Os dois abraçaram-se radiantes e Raimundo dispôs-se a tocar uma das suas trovas com o seu alaúde, sentados confortavelmente junto à arvore.

Porém algo ainda mais assombroso os esperava: à medida que o principe dedilhava as notas no instrumento e cantava, a árvore foi gradualmente transformando-se em Aurora!

O encontro foi de um sentimento indescritível. Abraçavam-se, tocavam-se, riam-se, falavam quase ao mesmo tempo.

Após o fervor inicial, dispuseram-se a rumar ao palácio. Todavia a ventura ainda não se firmara nas vidas deles. Mal tinha dado uns passos quando Raimundo foi envolvido por um ramo de árvore, sendo arremessado a uns metros de distância.

Frente a eles estava Varynia.

- Se eu não posso ficar com Raimundo, ele não será de mais ninguém!

E dizendo isto, revirou a mão fazendo abrir um buraco no solo, onde Aurora foi-se afundando.

Subitamente um rumor ouviu-se das águas do ribeiro e erguendo-se do mesmo surgiu a Senhora das Águas. Com um jato de água saído duma das mãos, inundou Varynia, fazendo-a rodopiar num redemoinho e depois ser arrastada pela correnteza do ribeiro, levada para longe até ao mar. Seguidamente com um repuxo retirou Aurora da cavidade onde estava enterrada. Raimundo aproximou-se com alguns arranhões e nódoas negras.

A senhora das Águas percorreu a distância que os separava, caminhando sobre as águas.

Parabenizou-os, revelando que já conhecia Raimundo por velejar nas águas do oceano e congratulou-os pela união.

Assim voltaram para o palácio, sendo revelada toda a trama de Varynia e a identidade e história de Aurora e os filhos.





Pouco tempo depois, foi anunciado o casamento e houve vários dias de festa por todo o reino.

A boda teve lugar no bosque mesmo junto ao ribeiro, sendo assistida por uma multidão de pessoas e abençoada pela fada-madrinha e celebrada pela Senhora das Águas. Os trajes de Aurora e o principe eram de cetim branco bordados a prata, com capa e véu, respetivamente, em cetim e gaze cor de champanhe.

A Senhora das Águas selou a união com Água e pérolas e no final todos festejaram, parte em terra, parte na água, mergulhando todos, após beberem água de um búzio.

A lua de mel foi uma longa viagem em alto mar, cruzando oceanos e conhecendo novas paragens, tanto cidades populosas, como ilhas quase desertas.

Raimundo reinou por longo tempo, sendo conhecido pela sua aliança e respeito pela água e pela natureza, seguindo sempre a voz do seu coração e contando sempre com o apoio e partilha em amor e cumplicidade, da sua rainha Aurora. Os seus filhos sucederam-lhe, seguindo o seu exemplo de respeito por tudo à sua volta, bem como o amor pelas artes.

FIM
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http://artlira.blogspot.pt/2013/06/conto-o-principe-trovador-2-parte-de.html

Imagens:
Meghan Photography
Joseph Brewster Photography
Rowena Morrill

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