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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Conto: " O Príncipe Trovador" - 2ª parte - de Florbela de Castro


Seis anos volveram. Aurora nunca mais ouvira falar de Raimundo. Na Primavera seguinte ao nascimento das crianças, Aurora arranjou trabalho numa terra longe dali. Foi com algum pesar que abandonou a sua linda cabana e partiu.
Trabalhava por vezes sozinha em encomendas e outras vezes com outras costureiras e bordadeiras.
Um belo dia ouviu um burburinho nas ruas da aldeia: O príncipe daquele reino ia casar. A futura princesa já chegara de terras distantes com o seu séquito e encomendara a confecção do seu traje nupcial às melhores bordadeiras do reino.
Durante 4 longos anos, Raimundo esteve fora do país comandando a frota de navios do reino.
Ao quinto ano voltou, finda a sua missão. Não tardou em procurar Aurora e a sua cabana. Selou o cavalo e antes disfarçou-se como costumava fazer antes.
Porém, quando chegou ao local da cabana encontrou tudo abandonado. Raimundo procurou angustiado. Nada. Ela desaparecera. Atormentado, correu desorientado, chamando por Aurora. Seria possível ela tê-lo esquecido? Negou esse pensamento violentamente, mas esta dúvida insinuou-se cada vez com mais força no coração do Príncipe, até se instalar como uma certeza indubitável. Raimundo corria agoniado adentrando a floresta cerrada e enublado pelas lágrimas que lhe jorravam pelos olhos. Uma poeira vermelha e ardente parou-lhe a corrida, cegando-o por completo, enquanto ele caía sem sentidos.
Encontraram-no quase dois dias depois. A convalescença física durou poucas semanas. Mas a ferida na alma e nos olhos de Raimundo ficara para sempre.
Aurora bordava encantada as maravilhosas pérolas no vestido de noiva. Brevemente um grupo de bordadeiras se deslocaria ao palácio para a prova do traje.
Esse dia chegou e foi uma comitiva de costureiras e bordadeiras entusiasmadas que fez a sua entrada no Paço real. A princesa revelou-se autoritária e fria. Contudo Aurora fez por ser solícita e caiu de tal forma nas boas graças da princesa que esta a convidou para aia após o casamento com o príncipe. Era um pulo para uma vida melhor. No entanto Aurora tinha as suas reservas. Não gostava da corte e apesar dos murmúrios de protesto das colegas, não deu uma resposta definitiva para a futura princesa do reino.

Três dias antes da boda, já a noite ia alta, quando da lua surgiu a fada que Aurora vira em tempos.
- Sei que recebeste um convite para trabalhar no paço que pensas não aceitar. No entanto preciso que vejas uma coisa que pode realmente te mostrar qual o teu caminho.
E com a varinha de condão tocou em Aurora que assim se viu trajada com maravilhoso vestido de brocado Ouro velho entremeado num tom de laranja quente quase como uma chama, com saiotes em cetim laranja fogo e gaze dourado; Os sapatos eram de cetim dourado com pequeno laço de gaze laranja preso cm um magnífico diamante; os belos cabelos escuros encontravam-se entrançados no alto enquanto a cabeça era rodeada de uma magnifica fieira de diamantes em finíssimo fio de ouro.
Quando Aurora viu-se ao espelho não pode reprimir um grito de espanto. A fada recomendou que ela levasse a capa azul com que Raimundo a tinha conhecido e nunca a tirasse durante o baile. Assim permaneceria irreconhecível para os demais, enquanto que para o príncipe seria um elo de reconhecimento.
Aurora compareceu no baile onde foi contemplada por todos os presentes. Maravilhosos trajes de damas e gentis-homens proliferavam por todo o salão. Cedo ela foi apresentada à família real e à futura princesa do reino que, como já era esperado, não a reconheceu. Ao ver o príncipe, Aurora ficou como que fulminada: Raimundo!
Por pouco não perdeu os sentidos. Agora ela percebia tudo. Especialmente o porquê dele ter desparecido…
  Este por sua vez reconheceu a sua presença e perturbado quis tirá-la para dançar. Um gentil-homem do seu séquito fez o papel de mediador.
Sentia que era a sua amada mas não podia ter a certeza porque não via. Mas o seu coração gritava-lhe que sim.
Enquanto dançavam tentou falar com ela, porém a comoção vivida por Aurora emudecera-a. Tinha perdido a voz.
Mesmo com o gentil-homem servindo de intermediário, o príncipe não conseguiu descobrir a sua identidade. Seria preciso um intermediário também que conhecesse Aurora e esta não podia revelar o seu disfarce.
Por questões de etiqueta, Raimundo teve de se afastar do seu par pois a família real reunia-se à volta do cravo. Apesar de cego o príncipe continuava a cantar e tocar e compor.
Juntamente com o mesmo gentil-homem, um com o alaúde e o outro no cravo e mais na flauta, cantou uma bela cantiga de amor, sobre um amor perdido no tempo mas jamais esquecido e por ele sempre alimentado.
Pareceu a Aurora que ele lhe dedicava a cantiga. O seu coração mudou enquanto ouvia a música. Era um sinal inequívoco de que ele se lhe dirigia.
Os três belos varões foram ovacionados pela maravilhosa melodia. A corte felicitava-os entusiasticamente. Aurora aproveitou a ocasião para se escapulir, voando para o exterior. Breve a rica carruagem a deixou na sua casa e desaparecia como por encanto. Já no quarto, à medida que se despia dos seus atavios, estes iam desaparecendo. Para sua surpresa a capa também desaparecera. Chorosa e confusa, Aurora deitou-se após verificar as duas crianças que dormiam há muito.

A fada deixara um bilhete em que a aconselhava a aceitar o convite de trabalhar como aia da nova princesa, após o que tinha visto. A Aurora só lhe apetecia desaparecer, mas acatou o conselho da fada.


No dia seguinte rumava para o palácio, enquanto que o príncipe mandava secretamente procurar por todo o reino, pela jovem de capa azul.


Fim da 2ª parte

Autoria Florbela de Castro
2013


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Imagens retiradas da net

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