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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Açucena: CHAPTER VII - 1ª Temporada - de Florbela de Castro



Açucena olhava para a sua imagem no espelho: usava um vestido de seda e gaze rosa velho, vaporoso e brilhante; o decote embelezava o busto e o colo era adornado por um maravilhoso colar de pérolas rosa. O cabelo encontrava-se preso, no alto, numa chuva de anéis por entre a tiara, igualmente de pérolas.
O aristocrata até recuou, imperceptivelmente, quando a encarou. Estendeu-lhe o braço concedendo-lhe a primazia para entrar no coche.
No pátio do palácio foram encontrar imensas carruagens, coches e liteiras. O paço real encontrava-se iluminado e engalanado. Pajens e criados encontravam-se junto às escadarias para receber as estolas e capas dos ilustres convidados.
O salão encontrava-se repleto de belas damas e gentis-homens vestidos em trajes de festa; alguns destes usavam uniformes militares.
Seguiu-se uma série de cumprimentos que incluíam a vénia e saudação ao casal real. Os reis receberam-nos com cortesia e algum afeto, felicitando-os pelo nascimento do rebento. Porém, ao olhar de águia do monarca não escaparam os olheirentos da duquesa e alguns vestígios de marcas roxas disfarçadas pela maquilhagem. Perguntou ao duque de Antigny o porquê daquelas marcas, ao que este respondeu, rapidamente, ter-se tratado de uma queda desastrada dela. O rei calou-se conjecturando em silêncio. Contudo foi interrompido por alguns nobre que lhe perguntavam pelo príncipe de Angelis.
Édouard aproveitou-se para voltar-se para Açucena apertando-lhe o pulso; sussurrou entre dentes instando-a ao silêncio. De seguida integrou-se num grupo de fidalgos que percorriam os corredores reais até à sala de jogos, onde já se formavam grupos para jogar.
A bela duquesa ficou como sempre abandonada no meio do salão. Esta decidiu recolher-se a um canto e aproximou-se de um dos balcões para tomar ar. Um mordomo acercou-se com uma bandeja e ela foi mordiscando algo. Algumas senhoras nobres entretiveram-na com breves conversas frívolas, às quais ela só prestou metade da sua atenção.
Apercebeu-se ao longe que o tal príncipe chegara e, pelos vistos, parte do baile era em sua honra. As damas riam-se em burburinho, suspirando e tagarelando o quão belo, poderoso e bom partido era aquele convidado real, que pelos visto não era ainda casado. Açucena encolheu os ombros esgueirando-se pelo salão como podia e evitando os casais que se formavam no centro para valsar. Quase se chocou com uma alta figura masculina de uniforme militar; ergueu o seu rosto a fim de se desculpar e ficou petrificada.
Na sua frente erguia-se um atlético homem, que rondava um metro e noventa e trinta e poucos anos; o seu rosto de traços másculos era quase dourado clarinho, de belíssimos olhos azuis expressivos e cabelos muito louros e escorridos.
Philippe!
Do rubor inicial, a bela mulher passou para a palidez e sentiu uma vertigem. Não podia ser! Os seus olhos pregavam-lhe partidas. Permaneceu hirta, gelado, de olhos esbugalhados. Um sentimento de amor trespassou-lhe o coração.
O belo homem fitava-a aparentando um semblante sereno, mas Açucena apercebeu-lhe os olhos marejados de lágrimas e uma névoa de mágoa toldar-lhe o olhar. O príncipe engoliu em seco enquanto o amor tomava conta do seu peito.
Alheios ao choque profundo daqueles dois seres, um aristocrata apressou-se a fazer as apresentações.
-Príncipe Philippe de Angelis, a duquesa Açucena de Antigny.
Articularam cumprimentos e vénias enquanto entre os dois se levantava um clima de embaraço. Philippe, para os salvar daquela situação convidou-a para dançar. Depressa se misturaram entre a multidão que dançava. Os dois não tiravam os olhos um do outro, num perfeito arrebatamento de amor. Açucena sentia-se nas nuvens: Philippe a andar! Mas como??
-Estás tão linda! – A voz do príncipe tão varonil soou apaixonada e embargada.
A duquesa sentiu-se desfalecer. Ele agarrou-a com mais força, apertando-a nos seus braços.
-Sim, sou Philippe.
-C…co...como? ... – Conseguiu articular ela, mas a voz morreu-lhe na garganta.
-Um milagre de Deus. – Respondeu-lhe como que adivinhando. – Recuperei a mobilidade, o vigor, a destreza e muito mais…Sempre fui príncipe mas o trono da minha família havia sido usurpado por uma família rival que conspirou contra nós.
A dama bebia-lhe as palavras fixando-se nos lábios dele. Imaginava-se a beijarem-se cheios de uma paixão avassaladora. Encontrou o olhar doce dele que perscrutava o seu rosto e sentiu-se ruborizar.
-Parece que te perturbei com a minha presença, o nosso encontro. Não sabia que produzia esse efeito em ti.
-Philippe…eu…pensei muito estes anos todos…eu sinto…eu nunca imaginei… - Titubeou ela e a voz morreu-lhe novamente na garganta.
No entanto os seus olhos gritaram ao homem louro o quanto ela o amava.
-PHILIPPE! – Soou uma estridente e feminina voz, um pouco alcoolizada. – Não sejas desmancha-prazeres! Já dançaste três valsas com a mesma dama.
E praticamente arrancou o nobre dos braços da duquesa. Pendurou-se no braço dele, segredando-lhe algo ao ouvido, com as mãos em concha.
O homem endireitou-se à medida que escutava e após breves momentos sério, afivelou um sorriso de circunstância, fez uma vénia de despedida e bailou com a desconhecida.
Açucena reparou então que alguns aristocratas a olhavam murmurando e disfarçando sorrisos. Por isso não teve outro remédio se não afastar-se e misturar-se com os demais.
Disfarçadamente ficou a observar ao longe Philippe com aquela mulher.
A duquesa fitou-a, analisando o seu porte. Os cabelos de Miss Klaus eram ruivos e longos, em perfeitos anéis, pendendo-lhe sobre o busto. Os seus olhos eram de um tom esmeralda reluzente e atractivos, a sua tez de um branco imaculado e angelical que contrastava num vestido de seda natural em verde água, evidenciando o corpo curvilíneo, sedutor.
O alto homem de uniforme, parecia divertir-se imenso com ela e ia deitando um olhar furtivo a Açucena. Esta sentia uma ponta de ciúme a tomar conta do seu coração.
A festa prosseguiu pela noite dentro. Porém o príncipe retirou-se cedo, alegando afazeres inadiáveis. Açucena teve de ficar à espera que o marido regressa-se da sala de jogos. Algo dentro dela lhe dizia para não revelar ao marido a verdadeira identidade do príncipe.
Édouard acabou por levá-la para casa sem saber ou ter conhecido o príncipe.
Na noite seguinte, a duquesa encontrava-se pronta para se retirar para os seus aposentos, quando surgiu Francine com um ar agitado e misterioso. Édouard havia-se deslocado novamente ao salão de jogos.
-Que se passa, Francine?
-Está aqui uma dama para a ver…
-Eu já vou, mas de quem se trata? – Indagou Açucena intrigada pelo adiantado da hora.
-Miss Klaus
O nome era-lhe completamente estranho. Esta desceu para o andar inferior, decidindo receber a ilustre desconhecida na sala de música; qual não foi o seu espanto quando se lhe deparou a mesma jovem que acompanhava Philippe no baile!
Uma ponta de ciúme invadiu novamente o coração da duquesa. A sua mente já fervilhava: “O que quererá essa mulher comigo? Pedir para afastar-me de Philippe?”
Só esta conjectura, causou uma dor no seu peito. Sentiu pânico. Talvez fosse melhor não receber a dama…sim…dar uma desculpa…porém, enquanto pestanejava atordoada com o que lhe assomava ao pensamento e coração, a jovem Evelyn vira-se.
Após os cumprimentos iniciais e de Evelyn ter aceite chá e bolinhos, Francine deixou-as. Então Miss Klaus abandonou o seu ar de circunstância e frívolo, adoptando um semblante grave.
-Venho aqui em nome do príncipe Philippe. – Confidenciou ela, num quase sussurro e enquanto Açucena a fitava confusa, Evelyn estende-lhe uma missiva. Por seu turno, o olhar de Evelyn, quase imperativo, instava-a a ler. A duquesa abriu a missiva e o seu coração pulou ao ver a letra de Philippe.
«Açucena, é necessário que nos encontremos. Temos muito que conversar. Vai ter comigo amanhã nos claustros do Convento.
Philippe»
Açucena olhou Evelyn perplexa. Esta como que lhe adivinhando os pensamentos, redarguiu:
-Sou amiga de Philippe e estou aqui para vos ajudar. Philippe ama-a e voltou por si, porque não a consegue esquecer. Vocês têm de se encontrar.
Açucena sentiu uma vertigem ao ouvir aquelas palavras e concordou debilmente. No resto do tempo, Evelyn explicou como conhecia Philippe e sua família. Por fim retirou-se dizendo que voltaria no dia seguinte.
Açucena deitou-se na sua cama voando com o pensamento. Philippe não a esquecera! Philippe amava-a! Philippe voltara por si! Todas estas afirmações gritavam comovidas no seu cérebro. Deu-se conta que sorria feliz, cheia de esperança. Finalmente as emoções venceram-na pelo cansaço. 




Link da 6ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-vi.html
Link da 8ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-viii_30.html


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Autor da Imagem:Heise Jinyao
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