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terça-feira, 9 de setembro de 2008

"O Perfeito Homem Incompleto" - de Florbela de Castro



Há uma clareira num bosque pintado de azul
E a lua cheia, nimbada, mancha de branco o paul.
Um nevoeiro denso envolve a paisagem, como num sonho.
E à excepção de uma leve brisa, o silêncio é medonho.
Mais lá adiante, o céu tinge-se de néon
E daí, trazido pela brisa, ouve-se um ligeiro som;
O restolhar da relva, devido ao orvalho da madrugada
Denuncia, recortando-se no horizonte, uma aparição encantada.
A figura estacou a escassos metros de distância
E revelou ser um homem de ar simples, mas extrema elegância.
Os seus longos cabelos loiros eram ondulados
E a sua pele diáfana tinha reflexos dourados.
O seu rosto de traços perfeitos era cheio de harmonia
E os seus olhos azuis, grandes, claros e límpidos como uma safira.
O alto homem fitou-me sem, no entanto, falar
E começou a conversar comigo, sem a sua boca descerrar.
Sobressaltei-me ao escutar palavras que não eram trazidas pelo vento
Pois a voz grave e calma era-me transmitida por pensamento
Inquiriu-me, então, pausadamente, o que fazia eu naquele lugar
E eu respondi: - Mergulhei no mundo dos sonhos e vim aqui parar.
Interpelei-o sobre o porquê de não articular palavras
Ao que ele respondeu, prontamente, que eu não entenderia nada.
Intrigada, quis saber a razão dessa afirmação
E ele retorquiu que o meu mundo era deturpado e cheio de corrupção
Por isso, os seus habitantes, como eu, não conseguiam compreender
O idioma daquele mundo que eu viera conhecer
O homem estendeu-me a mão para o seu país me mostrar
E naquele momento reparei que a aurora estava a despontar.
Vi planícies e montes onde o verde-esmeralda era a cor dominante
Mas acho que nem tenho palavras para descrever aquela maravilhosa paisagem luxuriante.
Aqui, a fauna e a flora pareciam mais livres e viçosas
Do que quaisquer outras que eu tivesse lido em romances cor-de-rosa.
Extasiada, opinei que ele vivia num Paraíso;
Contudo, o homem fitou-me sem esboçar um sorriso.
Indaguei como podia estar tão triste com um mundo tão perfeito, para mim
E o homem confessou que se sentia infeliz assim,
Pois faltava-lhe algo para a sua felicidade colmatar,
Algo que não existia no seu mundo e que ele ansiava encontrar.
Admirada reflecti comigo mesma – “ E vivendo num Paraíso que mais poderá ele querer?”
E ele respondeu, já falando: - “ É que eu sou um Homem e tu uma Mulher!”

1996
Artwork © - Jonathon Earl Bowser - www.JonathonArt.com.
http://www.jonathonart.com/thun.html

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