Blogue simples e personalizado, de conteúdo essencialmente literário, dando voz tanto a autores desconhecidos como veiculando autores célebres; com pequenos focos na música, pintura, fotografia, dança, cinema, séries, traduzindo e partilhando alguns dos meus gostos pessoais.
Sejam benvindos ao meu cantinho, ao meu mundo :)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Açucena: CHAPTER VI - 1ª Temporada - de Florbela de Castro



Édouard passeava impaciente pela ante sala dos aposentos da esposa. Apertava os lábios e mantinha o sobrolho franzido. Açucena já perdera duas crianças. Em parte por conta da sua brutalidade para com ela, mas também porque os rapazes não vingavam no ventre dela.
Apesar disso Édouard sofria porque ansiava um filho varão.
Açucena! Édouard era obsessivamente apaixonado por ela. Para ele, ela era tão desejável que todos os homens a cobiçavam e isso deixava-o louco. Não podia suportar nem admitir isso; pensar que ela podia gostar ou interessar-se por algum outro. Olhou para trás quando ouviu um choro de criança. O seu rosto iluminou-se. Pouco depois Francine aparecia com um embrulhinho e este olhou para o rosto vermelhusco do recém-nascido.
-É uma menina senhor duque. – Anunciou Francine quase num sussurro. E graças a Deus está muito bem…
Édouard fez um trejeito desinteressado e desiludido saindo desabridamente da ante sala e invadindo o quarto da esposa. Olhou-a sentindo piedade e ternura pela sua frágil figura, exausta pelo esforço. Porém fez tudo para afivelar um ar arrogante.
-Como…como estás?... – A sua voz grave soou mais suave que o pretendido.
A esposa olhou-o com a vista pesada, respondendo que estava bem e quase imediatamente adormeceu de cansaço. O homem mirou-a por uns minutos e inclinou-se beijando-lhe a testa; Fitou-a novamente, fascinado pela beleza dela e beijou-a nos lábios saindo de seguida dos aposentos.
~~*~~
Édouard entrou de rompante na divisão em que ecoava um choro de bebé.
-Alguém cala essa fedelha!?
Açucena acorreu pressurosamente e lesta ofereceu o seu seio ao minúsculo ser, que o agarrou avidamente sossegando. Édouard olhou para a cena enciumado.
-Nunca a largas! Estás sempre agarrado a esse bebé! – Resmungou contrariado.
-Se a largo ela chora. Ela é muito pequenina. – Redarguiu Açucena suavemente para o marido, mas beijando a bebé. – A nossa filhinha precisa de cuidados…
-Existem amas para cuidar dela! – Ele ripostou com veemência. – Eu quero-te ao meu lado a cuidar de mim! Além do mais logo vamos ao baile do Rei!
Esta e Francine encararam-no atónitas. Haviam tão poucas semanas que ela dera à luz e ainda não estava totalmente recuperada mas o fidalgo não estava com meias medidas para negociar. Necessitava da influência dos monarcas para minorar as suas dívidas.
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Autor da Imagem: Heise Jinyao

domingo, 13 de março de 2011

Açucena: CHAPTER V - 1ª Temporada - de Florbela de Castro


Açucena abriu os olhos com o sol a irromper-lhe pelas janelas. O dia já raiara, iluminando o quarto pois os pesados reposteiros nem sequer tinham sido cerrados.
A sensação de desalento já era sua companheira há muito tempo. Levantou-se maquinalmente do toucador. O espelho devolveu-lhe a sua face pálida, magra, de olhos encovados. Ao lavar-se e empoar-se recordou as nódoas negras que tinha de disfarçar. Apesar de franzina, notava-se a sua avançada gravidez. Era já a terceira. O primeiro filho não vingara e na segunda gravidez perdera a criança ao quinto mês após uma grande desavença com o marido. Édouard! Só de pensar nele, o seu coração bateu descompassado de medo. Este não se encontrava no paço, provavelmente sairá para uma noite de jogatina, ou estava com alguma das suas amantes.
Olhou novamente para a sua cara no reflexo do espelho; ia ser impossível disfarçar o inchaço daquele olho. Suspirou. Quase sentia alívio ao pensar que o marido podia estar com uma amante. Era quando vinha mais calmo.
Bateram à porta do aposento. Devia ser a criada anunciando a visita de mais um credor. Efetivamente era a criada, mas trazendo uma missiva; tratava-se de um convite para um baile no palácio Real dali a cinco semanas. Suspirou. Mais endividamentos e fingimentos em prol dos favores do Rei. Teria ela própria de costurar uma indumentária para o evento. Mas nem tecidos tinha. Talvez desse para reformar algum vestido mais antigo.
Chamou de novo a criada e com voz cansada combinou os arranjos. A criada olhou-a de alto a baixo, com ar reprovador mas amigável e disse:
-A senhora acha que está em condições de ir a algum baile? Mal se segura em pé!
-Francine, sabes perfeitamente que se eu fizer menção de não ir, Édouard arrasta-me nem que seja pelos cabelos…Sem mim ele perde influência junto ao Rei…
Açucena era muito querida pelos monarcas e já conseguira alguns favores e indulgências reais que os tinham salvo da ruína. Contudo sabiam que até a paciência do monarca tinha limites. Suspirou. Naquele momento ouviu-se o trote dum cavalo e um vozear no pátio. Era Édouard que chegara. Açucena ficou logo agitada.
Nos primeiros meses do casamento Édouard ainda fora minimamente gentil com ela. Contudo, com o tempo, tornara-se ébrio e batia-lhe com alguma frequência, tendo acessos de ciúmes totalmente infundados.
Açucena sofria muito e durante aqueles 7 anos, pensara frequentemente em Philippe. A lembrança dele trazia-lhe conforto, alento e força para ir enfrentando o momento presente e os piores momentos. Também guardava uma caixinha de música que Philippe lhe oferecera poucos anos depois de se mudar para o bairro dela. Philippe! Nunca mais soubera dele. Não sabia sequer se estava vivo ou morto. Mas preferia pensar que estava vivo, pois o contrário como que lhe tirava a vontade de continuar viva. Sim, ela sentia em seu coração que ele estava vivo. Às vezes, quando Édouard a surrava, nomeava Philippe e o amor que o professor lhe devotava, enchendo-os de impropérios.
Açucena recordava as lições do loiro professor com saudade e afeto. Não, mais que isso: com amor. Após todos aqueles anos percebera que a doença de Philippe era irrelevante. Agora, entendia tudo o que ele lhe tinha tentando transmitir na altura. Rememorava a declaração de amor de Philippe com doçura e o seu quase beijo com enleio. Como fora tonta e ingénua!
Gentilmente pegou na caixinha de música que o louro homem lhe oferecera e ficou a ouvi-la com ar doce. Sim, ela amava Philippe.
-Sentada à minha espera? – A voz de Édouard soou arrastada e irónica vinda da porta do aposento.
-Sim meu querido. – Devolveu-lhe ela com voz sumida.
Olhou-o de soslaio. Ele continuava extremamente atraente. Édouard avançava lentamente até ela, olhando-a vorazmente. Açucena ainda não se tinha vestido. O marido agarrou-a abruptamente, beijando-a sem cerimónia. Esta debateu-se um pouco devido à brusquidão. O duque atirou-a para cima da cama com violência. Açucena chorava suplicando-lhe para ele ser gentil.
-És minha! Pertences-me! – Rugiu ele fitando-a duramente. – Eu, como teu marido, possuo-te como e quando eu bem entender!
Açucena gritou com a dor. Confuso Édouard olhou para os lençóis alvos que se encharcavam com um líquido viscoso e avermelhado. A bolsa das águas rebentara e a mulher entrara em trabalho de parto.



Link da 4ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-iv.html
Link da 6ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-vi.html


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Açucena: CHAPTER IV - 1ª Temporada - de Florbela de Castro


Era noite alta. As bodas já haviam decorrido e as festas estavam perto do desfecho, naquele momento, talvez Açucena e Édouard estivessem já na lua-de-mel.
A lua firmava-se alta e bem perto. Philippe encontrava-se perto das margens do rio, olhando para o seu caudal fixamente, sem no entanto nada ver, tendo como pano de fundo a sobriedade de um grande convento. Encontrava-se mergulhado em um estado de apatia e resignação alternando com uma tristeza silenciosa. Lágrimas escorreram-lhe pela cara. Ergueu o rosto totalmente para o céu e acabou por fechar os olhos.
Porque a vida o castigara assim? A dor de alma que o assolava era lancinante. Açucena! Tinha de a esquecer! Tinha de mitigar aquela dor. Mas como, se Açucena era a alegria da sua existência? Seria melhor que Deus o levasse naquele momento! O seu corpo era sacudido por soluços pungentes.
-Por favor, meu Deus, fá-la feliz! Eu troco a minha vida pela feliz existência da minha amada! Leva-me! Eu não aguento mais este sofrimento, que me despedaça o coração!
-Alto! Que fazeis meu filho? – a figura de um velho frade, magro e de barba pontiaguda como as nuvens, surgiu no seu campo de visão. – Qualquer que seja o teu sofrimento não vale perderes a tua alma, acabando com a tua vida.
Philippe encarou-o perplexo por uns momentos, mas depois retrucou, entendendo-o.
-Não senhor frade, o meu desejo não é matar-me, mas sim que Deus me leve!
E confessou ao frade todas as suas mágoas.
-Meu filho, compreendo a tua dor. O teu coração é puro, é genuíno e tens uma alma nobre e generosa, capaz de amar incondicionalmente. Essa jovem parece boa moça, mas ainda não aprendeu a defender-se das artimanhas mundanas. Tem fé que um dia a tua amada alcance a razão e dê valor ao teu amor. Há coisas que nem todo o ouro do mundo paga, tais como um amor e dedicação inabaláveis quanto os teus.
-Neste momento sou um homem amargurado; perdi a fé e a esperança e sinto-me um inútil.
-Filho, não te deixes afetar por essa dor de coração que te consome. Não permitas que ela te contamine a alma também. És filho de Deus e ele não abandona os seus.
-O meu coração está completamente estilhaçado. – Retorquiu Philippe com os olhos húmidos. – Preciso sair daqui, desta cidade, deste país…
-Pode ser que eu tenha a solução para ti. – Redarguiu o frade com a cara iluminada por um sorriso misterioso.




link da 3ªparte: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-iii.html
link da 5ªparte: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-v.html

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Imagem da autoria de Jasmin Darnell.

Açucena: CHAPTER III - 1ª Temporada - de Florbela de Castro

Era véspera das bodas, a tarde caía. Apesar de ainda em convalescença, Philippe chamou uma charrete e dirigiu-se ao paço dos duques, a fim de parlamentar com Édouard.
Os dois homens encontraram-se nos jardins principais da propriedade. Édouard mirava Philippe com um misto de comiseração, altivez e inimizade. O atraente duque notava a beleza e porte do professor e considerou que, se não fora a cadeira de rodas, o pobre seria um bom partido… estas conjecturas atingiam o ego do vaidoso aristocrata, deixando-o um tanto arreliado. “Tolice! Philippe não possuía fortuna nem nada de seu.”
Philippe também mirava Édouard com apreensão. Bem via o quanto ele era sedutor e subjugador, pois esse atributos estavam como que gravados na fisionomia do moreno fidalgo. Alcançava agora, o quanto a inocente bem-nascida estava iludida e deslumbrada com aquele conquistador.
- Conheço a sua fama de valdevinos, Sr. Duque de … - Falou Philippe numa voz firme. – Venho lhe pedir que não faça mal a Açucena. Se for necessário desista do casamento. Açucena é uma mulher pura, delicada, honesta e ingénua. Ela…
Édouard interrompeu bruscamente com um sorriso de escárnio:
-Ora, ora, ora! Afinal a sua afeição por Açucena não é fraterna, Sr. Philippe! Muito nobre da sua parte vir até aqui vir defender a honra da donzela! – Tapou a boca com a mão num gesto teatral, enquanto arregalava os olhos, num fingido pesar. – Ooh, que digo eu? Ela não é mais donzela! ...
Philippe cerrou os punhos e apertou os lábios, indignado, e de boa vontade se levantaria da cadeira para dar uma tareia em Édouard. Este ria sarcasticamente.
-Quer-me desafiar para um duelo? – E num tom gradativamente mais provocador o fidalgo acrescentou olhando com desdém para a cadeira de rodas. – Aah, é verdade! Não pode.
E ria com gargalhadas cheias de escárnio. Philippe virou-se de costas, desolado com o facto daquele estroina já ter tocado em Açucena. A sua querida amada entregara-se àquele vilão. Viu que não tinha mais nada a fazer ali e decidiu partir.
-Já vai? Tão cedo? Que pena! – Édouard prosseguia em tom trocista. – Logo agora que a conversa estava tão boa.
E abaixando-se até Philippe, sussurrou em tom ameaçador:
-Desista, Philippe, já é tarde para si.
O homem louro afastou-se com dignidade, sem lhe responder, e abandonou o local. Meia hora depois, estava em casa de Açucena. Esta ficou surpreendida quando viu Philippe fora da cama. Sentou-se na sala de estar, junto a ele, enquanto o homem lhe pegava na mão, olhando-a nos olhos profundamente. Açucena sentiu um arrepio vindo da alma, com aquele olhar.
-Açucena, eu amo-te de verdade. Estou apaixonado por ti desde o primeiro olhar. Eu tenho a certeza que és a minha alma gémea. Sinto uma união com o teu coração, deveras flagrante. Eu sinto que tu me amas mas não reconheces o nosso amor nem o nosso valor e por isso te iludiste com Édouard. O verdadeiro amor é mais que um corpo físico e sumptuosidade. É algo que vem do coração, da alma. Está para além da vida e da morte. É o que nós somos.
Açucena escutava-o perturbada pelo que sentia em seu âmago. Naquelas palavras parecia redescobrir Philippe como um homem que sabia o que queria. A energia viril e de amor que ele emanava, entrava forte em seu coração e em todo o seu ser. Philippe aproximou perigosamente o seu rosto do de Açucena e os lábios dela começaram a tremer ao sentir o hálito quente e perfumado que saia daqueles lábios masculinos. Sentia-se afectada como nunca antes Édouard a deixara. A verdade é que a jovem nunca tinha visto o amigo de outra forma que não a de irmãos.
-Nãaao! – Gritou Açucena fugindo. Queria parar aquele momento, sentia medo do que estava a sentir e da completa confusão. – Não posso…eu estou comprometida. – E deixou-se estar a um canto.
Philippe suspirou e proferiu: - Assim seja.
À saída estacou, fitando-a intensamente, mas a rapariga não teve coragem de olhá-lo nos olhos.
Açucena não conseguia pregar olho, alvoroçada com o que sentira ao ouvir Philippe. Meu Deus, ele quase a beijara! Mas o mais insólito é que tudo isso mexera com ela de uma forma inusitada. Estaria ela tão enganada assim quanto aos seus sentimentos por Édouard. Perdeu-se assim em pensamentos que a transportaram em despiques sobre o que era estar nos braços de Édouard e o que seria estar nos braços de Philippe.
Philippe! Como este a surpreendera! E na verdade ele era extremamente belo. Mesmo, com um rosto miscelânea de feições delicadas e masculinas. Mas não! ... Ele era entrevado e de qualquer forma ela já dera a sua palavra… e o casamento era já amanhã. Talvez o tempo a ajudasse a esquecer Philippe…


E estando nestas conjeturas finalmente adormeceu.








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Açucena: CHAPTER II - 1ª Temporada - de Florbela de Castro


Apesar de ter entrado pelas traseiras, pela ala da criadagem, foi conduzida através duma enorme escadaria ao andar superior; a certa altura percebeu que fora deixada sozinha pela serviçal que a recebera e que se encarregara de a escoltar até aos aposentos da menina Camille. De repente, chocou com um vulto que caminhava apressadamente em sentido contrário ao seu.
Tratava-se de um atraente e moreno homem, de porte elegante e atlético e estatura alta, possuía olhos esverdeados e cabelos fortes, ondulados e castanhos-escuros, nariz aquilino; encontrava-se ricamente vestido.
Este mirou-a de alto a baixo, com ar malicioso e guloso; logo a seguir mudou lestamente as feições, afivelando uma máscara de distinção e pegou-lhe na mã, beijando enquanto se curvava, olhando para ela com um olhar atrevido e galante. Açucena corou até à raiz dos cabelos. O homem usava um misto de sedução e lisonja respeitosos, fitando-a com um olhar ávido e intenso, que confundiam e elevavam a jovem às nuvens. Depressa soube tratar-se de Édouard, irmão mais velho de Camille.
Durante o resto da sua estadia no palácio para a prova do vestido e a combinação dos detalhes, Açucena encontrava-se num estado de perturbação e sonho que a puseram desastrada. Fora elucidada da identidade do cortejador, por uma dama-de -companhia, que viera procurá-la, conduzindo-a aos aposentos da menina Camille.
Quando voltou para casa já era noite e qual não foi o seu espanto quando encontrou Édouard no caminho, oferecendo-se para escoltá-la a casa.
A partir dessa data o duque passou a aparecer frequentemente nas imediações da casa da jovem e pobre baronesa e apesar de actuarem com discrição, depressa chegou aos ouvidos de Philippe. Este esperou, pálido, a visita da moça e os seus olhos encheram-se de lágrimas quando obteve a confirmação da boca dela, que namorava secretamente o duque.
- Açucena, minha flor, tens a certeza de que é isso que desejas? Por favor, tem cuidado, tenho um mau pressentimento sobre isso…
- Philippe! – Repreendeu-o ela - Não acredito nisso, Édouard é um perfeito cavalheiro! Lá por eu e tu termos uma boa ligação empática, não significa que estejas certo sempre naquilo que intuis… e vais ter de me deixar de chamar isso…
Com o decorrer do tempo, o loiro professor tornou-se um homem triste e acabrunhado. As visitas a Philippe escassearam e não demorou muito até que a relação de Açucena se oficializasse com um pedido de noivado.
Quando soube da petição de mão, Philippe sentiu o seu coração despedaçar-se, banhou-se em lágrimas, tendo-se entregue ao desespero e caindo de cama, enfermo. Definhava a olhos vistos, delirava imenso ardendo em febre, chamando a sua querida Açucena. Esta veio vê-lo alarmada e a dor que sentiu era tão pungente, que se sentiu culpada pela primeira vez. Ajudou a cuidar dele, dedicada e pressurosa. O homem, mesmo inconsciente, lograva sentir as mãos de fada e o afecto da donzela, que lhe pareciam devolver a vida e a saúde. A fraternal costureira ajudou nos cuidados até perto da data da sua boda e depois teve de se ausentar devido aos preparativos.
Philippe tinha um mau pressentimento em relação ao casamento e futuro de Açucena, mas não podia fazer nada… ou quase nada.



Autor da imagem. Heise jinyao

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Link do 1º capitulo: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-i.html
link do 3º capitulo: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-iii.html

Açucena: CHAPTER I - 1ª temporada - de Florbela de Castro



Era uma vez uma rapariga chamada Açucena que vivia numa casa modesta e trabalhava como costureira. Açucena era muito hábil e costumava fazer lindos vestidos e fatos. Era órfã há pouco tempo; os seus progenitores eram barões arruinados, que haviam perdido tudo o que possuíam por dívidas com credores. Era comum vários nobres viverem acima das suas possibilidades, dependendo de favores reais e fazendo por ostentar uma magnificência que, com sorte e esperteza, os poderia levar ao triunfo e à abastança e com azar, os afundaria.
Açucena era de estatura quase mediana, pele entre o branco e o pêssego claro, enormes e amendoados olhos cor de mel e longo e sedoso cabelo da mesma cor, ondulado e anelado.
Perto dela vivia Philippe, um lindíssimo homem de cabelo loiro escorrido e enormes olhos azuis e voz grave. Rondava os trinta anos e trabalhava como professor e perceptor e vivia com uma governanta. Ninguém sabia exactamente das proveniências do loiro homem, visto que ele mudara-se para aquele bairro há 7 anos; no entanto falava-se que ele teria sangue dinamarquês e italiano. Isso explicaria a alta estatura e o seu porte um pouco atlético e a pele a fugir para o dourado claro. Philippe era doce, culto e honesto, mas entrevado. Ele amava discretamente Açucena. Eram bons amigos e ela até já tinha percebido o quanto ele a amava, mas não levava esse sentimento muito a sério, preferindo encará-lo como irmão. Açucena era boa moça sonhava em poder vestir os lindos vestidos que fazia e até quem sabe casar com um nobre.
Só este pensamento fazia-a sonhar. Isso e ouvir os relatos das jovens e senhoras que frequentavam os bailes de corte ou dos palacetes dos nobres; também trabalhar no meio das sedas, brocados, cetins, gazes, veludos, e arminhos, transportavam-na para fantasias líricas que ela alegremente partilhava com Philippe. Este ouvia os seus devaneios em silêncio e apenas dizia quase num murmúrio que ela deveria ficar maravilhosa dentro daqueles trajes, mais bela que todas as outras. E geralmente após esta afirmação, o seu olhar tornava-se melancólico; e ainda mais melancólico se tornava quando ela referia os seus sonhos de casar com um homem nobre.
Numa dessas vezes em que Açucena sonhava com vestidos sumptuosos e maridos ricos. Philippe perguntou-lhe:
- E o amor? Não acreditas que o amor está acima disso tudo? Não acreditas que o amor verdadeiro esteja escrito nas estrelas, desde tempos imemoriais?
Açucena estacou, olhando para ele.
- Acredito sim. E acredito que o destino me reservou uma surpresa, um “príncipe encantado” que me vai dar uma boa vida, passeios românticos e festas, belas flores pela manhã e doces momentos à noite. – Replicou sonhadora.
Philippe sentiu um nó na garganta, engoliu em seco e com uma voz um pouco rouca, interpelou:
- E porque achas que só um nobre ou um homem rico te podem dar isso?
Açucena, que se pusera a bailar sonhadora pela sala, suspirou um pouco impaciente e em tom condescendente, retorquiu:
- Philippe, sabes perfeitamente que eu e tu não somos feitos um para o outro! Eu adoro-te como irmão, és lindo e maravilhoso, mas tu não podes… - parou bruscamente e prosseguiu num tom mais doce – eu desejo ter filhos…
Abraçou-o fraternalmente, beijando-o na testa; este cerrou os olhos com enlevo enquanto aspirava o perfume da pele dela e dos seus cabelos.
- És uma alma iluminada, Philippe, decerto vais encontrar uma linda esposa! – E saiu correndo, atirando-lhe um beijo, deixando um triste Philippe a apertar os dentes.
Um belo dia, Açucena deslocou-se ao paço dos duques de Antigny. Estes tinham um casal de filhos, sendo a filha da idade dela. Ia haver uma festa e a jovem quis encomendar o seu vestido a Açucena, pela graciosidade e perfeição dos seus bordados.




Imagem:Jonathan Earl Bowser
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link do 2º capitulo:http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-ii.html

sexta-feira, 4 de março de 2011

Conto: "Lágrimas de Pérola" - de Florbela de Castro



Nas águas do Oceano Pacífico vivia uma sereia bonita mas solitária. Perla era o seu nome. Na realidade ela vivia rodeada de familiares e amigos, mas sonhava em encontrar um amor entre os homens.

Adorava ver os veleiros e caravelas passarem, admirando o facto dos humanos terem duas pernas, além de que a beleza dos homens fazia-a suspirar. Não se tratava da falta de tritões lindos pelos mares afora, contudo nem com os da sua espécie a sua sorte era melhor. Além disso, Perla acreditava que o amor podia manifestar-se entre seres de espécies diferentes e em qualquer lugar. As suas amigas e irmãs divertiam-se com ela, quando as embarcações cruzavam aquelas águas, todavia tentavam dissuadi-la de encontrar ali um amor eterno. Porém, Perla era obstinada e persistia no seu sonho.
Mas como podia um homem apaixonar-se por ela, se nem a viam? Ora, a sereiazinha não demorou muito a encontrar uma solução para a sua dúvida. Algumas fêmeas do reino animal usavam os seus encantos e atributos para atrair o macho, então ela, a sereiazinha Perla iria usar o seu maravilhoso canto para conquistar o amor dum homem!
Só que Perla sabia que o seu canto podia tornar-se perigoso, ou mesmo fatal, para os humanos, pois tinha o poder de os enfeitiçar ao cantar certas notas e, inclusivamente, levar um navio ao naufrágio.
Apesar de ciente das consequências, Perla preferiu afastar isso da sua mente pois o anseio em arranjar um amor era maior que tudo. E com isto ela mergulhou na sua conquista. Ficou então observando as embarcações, à espera de cruzar o seu olhar com algum belo espécime de duas pernas.
Teodorico era um atraente e afectado marquês que costumava velejar por aquelas águas. Usava peruca, sapatos de salto e fivela e passava o tempo a alisar as fitas do seu fato. Apesar de afectado, Teodorico gostava de vogar.
Quando os seus olhares se cruzaram, Perla e Teodorico, apaixonaram-se instantaneamente. Contudo, Teodorico sabia o que ela era e não quis dar força aos seus devaneios. Fingia que não a via quando a sua caravela sulcava aquelas paragens, mas também não revelava à sua tripulação que avistava sempre uma sereia rondando a caravela naquela rota. Homens habituados àquelas lides, mas muito supersticiosos, entrariam em pânico ao ver a sereia.
Imaginando que Teodorico não pensava nela, e ansiosa por travar conhecimento com o vistoso humano, Perla começou a cantar. Imediatamente alguns marinheiros entraram em transe e foi o pandemónio. Uns gritavam em pânico, outros atiravam-se ao mar, os mais fortes tapavam os ouvidos tentando prender-se ao mastro, enquanto assistiam horrorizados a outros que, maquinalmente, mudavam a rota da embarcação. E Teodorico? Este, fora lesto o suficiente para tapar os ouvidos, e assistia a tudo, de sobrolho franzido. Estando a caravela desgovernada depressa encalhou num recife e afundou. 

Atónita com o rumo dos acontecimentos, Perla ainda conseguiu reagir a tempo de salvar Teodorico, levando-o até uma ilhota próxima. Após algum tempo desacordado, o Marquês recobrou os sentidos e, depois de se recompor, deu de caras com Perla que velava por ele. Furioso, ele vociferou:

-Que fazes aqui? Vai-te embora! Não vês o estrago que fizeste??
Perla ficou chocada com a reação de Teodorico. Mas ela salvara-o! Como ele era ingrato!
-Que queres de mim? – Perguntou ele, carrancudo, acrescentando que já a vira rondar muitas vezes o seu veleiro.
Perla, balbuciando, declarou o seu amor com alguma esperança. Contudo a reação do homem foi outro choque.
-E que esperas que eu faça? Que fique contigo, tu, uma sereia?? Para onde te ia levar eu? Jamais te poderia mostrar entre os meus! – E zangado acrescentou. – E escusavas de ter afundado a minha caravela e a minha tripulação! Isto é de bradar aos céus!
Envergonhada e pestanejando com a brusquidão de Teodorico, Perla ofereceu-lhe as jóias do mar como recompensa dos danos causados, mas Teodorico ignorou-a, bradando que queria sair dali. Perla afastou-se devagarinho, chorando em silêncio. Por sua vez, o Marquês construiu uma jangada, fez-se ao mar e um tempo depois foi recolhido por um veleiro.
A partir dessa altura, Perla vinha prantear naquela ilha as suas mágoas. As suas amigas, Orla e Corália, vinham consolá-la.
-Amiga, não chores. Não devias ter afundado a embarcação…Não vale a pena correr atrás de um amor e fazer tudo sem olhar às consequências. Todas as acções se voltam contra nós como uma maré revolta! – Dizia Corália por um lado.
-Força querida, és bonita, hás-de arranjar um tritão amigo e atraente! O teu Marquês não é para ti.
Mas Perla só chorava amargamente. Realmente Teodorico tinha razão. Aliás, todos tinham razão. Que adiantava perseguir um sentimento?
A partir daquele dia passou a ser uma sereia comedida, mas triste, e deixou de procurar o amor.
Por seu turno, Teodorico integrou-se num veleiro e mudou de rota. Na realidade, Teodorico, pensava nela; mas a certa altura abanava a cabeça afastando os pensamentos: “Bah, uma sereia não é futuro para mim!”
Dois anos se passaram. Na nova rota, Teodorico tornou-se mais desenvolto, robusto, despretensioso e mais alegre. Pôs de parte os pós de arroz, os carmins, os saltos, as fitas e a peruca alva. Agora usava botas de cano alto, camisa ao vento, pele morena, os cabelos escuros e ondulados, abaixo dos ombros, e a barba por fazer. Uma coisa ele usava ciosamente pendurada ao pescoço, intrigando os marinheiros: Um colar de pérolas do qual nunca se separava. Alguns achavam aquilo insólito, outros amaricado, outros encolhiam os ombros: “Esquisitices de nobres!”, pensavam no final, abanando a cabeça e embrenhando-se em seus afazeres. 


Porém numa dessas viagens, foram apanhados desprevenidos por uma tempestade de meter medo ao mais valente. A noite caiu e a tempestade não amainava. Apavorados, alguns marinheiros sentenciavam que estavam destinados ao infortúnio e que não chegariam vivos ao seu destino. Teodorico estava bastante apreensivo. Gostava de poder reconfortar a tripulação, mas não tinha controle sobre as condições climatéricas e na realidade estava certo que não saíssem vivos daquela adversidade. Acreditando estar condenado, Teodorico pensou em Perla. Subitamente ouviu-se um canto. O mar acalmou-se e quase toda a tripulação entrou em estado de hipnose, porém mantendo-se ordenada; como fantoches conduziram o veleiro através da tempestade, até uma pequena enseada, onde ancoraram. Apenas Teodorico se manteve estranhamente imune. Com o coração descompassado, Teodorico pegou num bote e foi encontrar Perla junto à praia.

Esta, no tempo decorrido, dedicara-se a salvar tantas embarcações quantas possíveis, como forma de redenção.
Teodorico olhou-a intensamente e só quando ele falou é que ela reconheceu-o.
-Sou-te grato. – Disse ele suavemente.
Perturbada pela sua presença, ela gaguejou um: “Não tem de quê” e preparava-se para nadar para longe quando Teodorico tentou impedi-la, entrando na água e alcançando-a com dificuldade.
-Perdão. – Sussurrou, beijando-a apaixonado.
O rosto de Perla banhou-se de lágrimas e ela falou: - Eu é que devo de pedir perdão! Eu amo-te mas tinhas razão, o nosso amor não tem futuro!
Teodorico apressou-se a secar-lhe as lágrimas: - Esquece o passado. Aprendi muito neste tempo longe de ti. E acredita que o amor e a esperança são essenciais na vida. Nós os dois cometemos erros no passado, contudo não devemos manter-nos presos ao pesar dessas faltas. Não me importo que sejas uma sereia, és quem és e eu amo-te assim. Só não quero que chores mais, meu amor. – E protectoramente enlaçou-a contra o seu peito num abraço terno. - Agora compreendo que não quero nem escolho viver mais longe de ti.
Perla, comovida, levantou o seu rosto para ele e naquele instante vislumbrou o colar. Pasmada perguntou-lhe onde o arranjara, como que em suspense. Teodorico acariciou as pérolas e disse que estas nada mais eram que as lágrimas dela do primeiro encontro. Estas haviam-se transformado em pérolas, ao tocar na espuma das ondas que embatiam na areia. Após ela se ter afastado, o Marquês as apanhara, guardando-as ciosamente, tendo mais tarde as transformado num colar. Perla sabia desse predicado de suas lágrimas, que se transformavam em pérolas, e ficou sensibilizada com o gesto dele, pois era sinal de que afinal ele sempre a amara.
Naquele mesmo instante, como por encanto, o mar tomou a forma de um homem, que se lhes dirigiu apresentando-se como Neptuno, governador dos Oceanos. Afavelmente este falou que estava a par do amor deles desde sempre e que gostaria de lhes dar um presente: A faculdade de Perla de ter pernas e poder andar também sobre a terra e a de Teodorico de mergulhar no mar sem perecer.
Em êxtase, os dois agarraram-se aos pés de Neptuno, desfazendo-se em agradecimentos sinceros. Este riu, bonacheirão, abençoando-os, e afastou-se dissolvendo-se nas águas, deixando Perla já metamorfoseada com duas pernas. Embevecido, Teodorico, tomou-a nos braços fazendo Perla feliz, com a certeza de que o amor e a esperança haviam vencido
todas as barreiras que os separavam.

FIM

Autoria de Florbela de Castro


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