Blogue simples e personalizado, de conteúdo essencialmente literário, dando voz tanto a autores desconhecidos como veiculando autores célebres; com pequenos focos na música, pintura, fotografia, dança, cinema, séries, traduzindo e partilhando alguns dos meus gostos pessoais.
Sejam benvindos ao meu cantinho, ao meu mundo :)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Açucena: CHAPTER VII - 1ª Temporada - de Florbela de Castro



Açucena olhava para a sua imagem no espelho: usava um vestido de seda e gaze rosa velho, vaporoso e brilhante; o decote embelezava o busto e o colo era adornado por um maravilhoso colar de pérolas rosa. O cabelo encontrava-se preso, no alto, numa chuva de anéis por entre a tiara, igualmente de pérolas.
O aristocrata até recuou, imperceptivelmente, quando a encarou. Estendeu-lhe o braço concedendo-lhe a primazia para entrar no coche.
No pátio do palácio foram encontrar imensas carruagens, coches e liteiras. O paço real encontrava-se iluminado e engalanado. Pajens e criados encontravam-se junto às escadarias para receber as estolas e capas dos ilustres convidados.
O salão encontrava-se repleto de belas damas e gentis-homens vestidos em trajes de festa; alguns destes usavam uniformes militares.
Seguiu-se uma série de cumprimentos que incluíam a vénia e saudação ao casal real. Os reis receberam-nos com cortesia e algum afeto, felicitando-os pelo nascimento do rebento. Porém, ao olhar de águia do monarca não escaparam os olheirentos da duquesa e alguns vestígios de marcas roxas disfarçadas pela maquilhagem. Perguntou ao duque de Antigny o porquê daquelas marcas, ao que este respondeu, rapidamente, ter-se tratado de uma queda desastrada dela. O rei calou-se conjecturando em silêncio. Contudo foi interrompido por alguns nobre que lhe perguntavam pelo príncipe de Angelis.
Édouard aproveitou-se para voltar-se para Açucena apertando-lhe o pulso; sussurrou entre dentes instando-a ao silêncio. De seguida integrou-se num grupo de fidalgos que percorriam os corredores reais até à sala de jogos, onde já se formavam grupos para jogar.
A bela duquesa ficou como sempre abandonada no meio do salão. Esta decidiu recolher-se a um canto e aproximou-se de um dos balcões para tomar ar. Um mordomo acercou-se com uma bandeja e ela foi mordiscando algo. Algumas senhoras nobres entretiveram-na com breves conversas frívolas, às quais ela só prestou metade da sua atenção.
Apercebeu-se ao longe que o tal príncipe chegara e, pelos vistos, parte do baile era em sua honra. As damas riam-se em burburinho, suspirando e tagarelando o quão belo, poderoso e bom partido era aquele convidado real, que pelos visto não era ainda casado. Açucena encolheu os ombros esgueirando-se pelo salão como podia e evitando os casais que se formavam no centro para valsar. Quase se chocou com uma alta figura masculina de uniforme militar; ergueu o seu rosto a fim de se desculpar e ficou petrificada.
Na sua frente erguia-se um atlético homem, que rondava um metro e noventa e trinta e poucos anos; o seu rosto de traços másculos era quase dourado clarinho, de belíssimos olhos azuis expressivos e cabelos muito louros e escorridos.
Philippe!
Do rubor inicial, a bela mulher passou para a palidez e sentiu uma vertigem. Não podia ser! Os seus olhos pregavam-lhe partidas. Permaneceu hirta, gelado, de olhos esbugalhados. Um sentimento de amor trespassou-lhe o coração.
O belo homem fitava-a aparentando um semblante sereno, mas Açucena apercebeu-lhe os olhos marejados de lágrimas e uma névoa de mágoa toldar-lhe o olhar. O príncipe engoliu em seco enquanto o amor tomava conta do seu peito.
Alheios ao choque profundo daqueles dois seres, um aristocrata apressou-se a fazer as apresentações.
-Príncipe Philippe de Angelis, a duquesa Açucena de Antigny.
Articularam cumprimentos e vénias enquanto entre os dois se levantava um clima de embaraço. Philippe, para os salvar daquela situação convidou-a para dançar. Depressa se misturaram entre a multidão que dançava. Os dois não tiravam os olhos um do outro, num perfeito arrebatamento de amor. Açucena sentia-se nas nuvens: Philippe a andar! Mas como??
-Estás tão linda! – A voz do príncipe tão varonil soou apaixonada e embargada.
A duquesa sentiu-se desfalecer. Ele agarrou-a com mais força, apertando-a nos seus braços.
-Sim, sou Philippe.
-C…co...como? ... – Conseguiu articular ela, mas a voz morreu-lhe na garganta.
-Um milagre de Deus. – Respondeu-lhe como que adivinhando. – Recuperei a mobilidade, o vigor, a destreza e muito mais…Sempre fui príncipe mas o trono da minha família havia sido usurpado por uma família rival que conspirou contra nós.
A dama bebia-lhe as palavras fixando-se nos lábios dele. Imaginava-se a beijarem-se cheios de uma paixão avassaladora. Encontrou o olhar doce dele que perscrutava o seu rosto e sentiu-se ruborizar.
-Parece que te perturbei com a minha presença, o nosso encontro. Não sabia que produzia esse efeito em ti.
-Philippe…eu…pensei muito estes anos todos…eu sinto…eu nunca imaginei… - Titubeou ela e a voz morreu-lhe novamente na garganta.
No entanto os seus olhos gritaram ao homem louro o quanto ela o amava.
-PHILIPPE! – Soou uma estridente e feminina voz, um pouco alcoolizada. – Não sejas desmancha-prazeres! Já dançaste três valsas com a mesma dama.
E praticamente arrancou o nobre dos braços da duquesa. Pendurou-se no braço dele, segredando-lhe algo ao ouvido, com as mãos em concha.
O homem endireitou-se à medida que escutava e após breves momentos sério, afivelou um sorriso de circunstância, fez uma vénia de despedida e bailou com a desconhecida.
Açucena reparou então que alguns aristocratas a olhavam murmurando e disfarçando sorrisos. Por isso não teve outro remédio se não afastar-se e misturar-se com os demais.
Disfarçadamente ficou a observar ao longe Philippe com aquela mulher.
A duquesa fitou-a, analisando o seu porte. Os cabelos de Miss Klaus eram ruivos e longos, em perfeitos anéis, pendendo-lhe sobre o busto. Os seus olhos eram de um tom esmeralda reluzente e atractivos, a sua tez de um branco imaculado e angelical que contrastava num vestido de seda natural em verde água, evidenciando o corpo curvilíneo, sedutor.
O alto homem de uniforme, parecia divertir-se imenso com ela e ia deitando um olhar furtivo a Açucena. Esta sentia uma ponta de ciúme a tomar conta do seu coração.
A festa prosseguiu pela noite dentro. Porém o príncipe retirou-se cedo, alegando afazeres inadiáveis. Açucena teve de ficar à espera que o marido regressa-se da sala de jogos. Algo dentro dela lhe dizia para não revelar ao marido a verdadeira identidade do príncipe.
Édouard acabou por levá-la para casa sem saber ou ter conhecido o príncipe.
Na noite seguinte, a duquesa encontrava-se pronta para se retirar para os seus aposentos, quando surgiu Francine com um ar agitado e misterioso. Édouard havia-se deslocado novamente ao salão de jogos.
-Que se passa, Francine?
-Está aqui uma dama para a ver…
-Eu já vou, mas de quem se trata? – Indagou Açucena intrigada pelo adiantado da hora.
-Miss Klaus
O nome era-lhe completamente estranho. Esta desceu para o andar inferior, decidindo receber a ilustre desconhecida na sala de música; qual não foi o seu espanto quando se lhe deparou a mesma jovem que acompanhava Philippe no baile!
Uma ponta de ciúme invadiu novamente o coração da duquesa. A sua mente já fervilhava: “O que quererá essa mulher comigo? Pedir para afastar-me de Philippe?”
Só esta conjectura, causou uma dor no seu peito. Sentiu pânico. Talvez fosse melhor não receber a dama…sim…dar uma desculpa…porém, enquanto pestanejava atordoada com o que lhe assomava ao pensamento e coração, a jovem Evelyn vira-se.
Após os cumprimentos iniciais e de Evelyn ter aceite chá e bolinhos, Francine deixou-as. Então Miss Klaus abandonou o seu ar de circunstância e frívolo, adoptando um semblante grave.
-Venho aqui em nome do príncipe Philippe. – Confidenciou ela, num quase sussurro e enquanto Açucena a fitava confusa, Evelyn estende-lhe uma missiva. Por seu turno, o olhar de Evelyn, quase imperativo, instava-a a ler. A duquesa abriu a missiva e o seu coração pulou ao ver a letra de Philippe.
«Açucena, é necessário que nos encontremos. Temos muito que conversar. Vai ter comigo amanhã nos claustros do Convento.
Philippe»
Açucena olhou Evelyn perplexa. Esta como que lhe adivinhando os pensamentos, redarguiu:
-Sou amiga de Philippe e estou aqui para vos ajudar. Philippe ama-a e voltou por si, porque não a consegue esquecer. Vocês têm de se encontrar.
Açucena sentiu uma vertigem ao ouvir aquelas palavras e concordou debilmente. No resto do tempo, Evelyn explicou como conhecia Philippe e sua família. Por fim retirou-se dizendo que voltaria no dia seguinte.
Açucena deitou-se na sua cama voando com o pensamento. Philippe não a esquecera! Philippe amava-a! Philippe voltara por si! Todas estas afirmações gritavam comovidas no seu cérebro. Deu-se conta que sorria feliz, cheia de esperança. Finalmente as emoções venceram-na pelo cansaço. 




Link da 6ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-vi.html
Link da 8ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-viii_30.html


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Açucena: CHAPTER VI - 1ª Temporada - de Florbela de Castro



Édouard passeava impaciente pela ante sala dos aposentos da esposa. Apertava os lábios e mantinha o sobrolho franzido. Açucena já perdera duas crianças. Em parte por conta da sua brutalidade para com ela, mas também porque os rapazes não vingavam no ventre dela.
Apesar disso Édouard sofria porque ansiava um filho varão.
Açucena! Édouard era obsessivamente apaixonado por ela. Para ele, ela era tão desejável que todos os homens a cobiçavam e isso deixava-o louco. Não podia suportar nem admitir isso; pensar que ela podia gostar ou interessar-se por algum outro. Olhou para trás quando ouviu um choro de criança. O seu rosto iluminou-se. Pouco depois Francine aparecia com um embrulhinho e este olhou para o rosto vermelhusco do recém-nascido.
-É uma menina senhor duque. – Anunciou Francine quase num sussurro. E graças a Deus está muito bem…
Édouard fez um trejeito desinteressado e desiludido saindo desabridamente da ante sala e invadindo o quarto da esposa. Olhou-a sentindo piedade e ternura pela sua frágil figura, exausta pelo esforço. Porém fez tudo para afivelar um ar arrogante.
-Como…como estás?... – A sua voz grave soou mais suave que o pretendido.
A esposa olhou-o com a vista pesada, respondendo que estava bem e quase imediatamente adormeceu de cansaço. O homem mirou-a por uns minutos e inclinou-se beijando-lhe a testa; Fitou-a novamente, fascinado pela beleza dela e beijou-a nos lábios saindo de seguida dos aposentos.
~~*~~
Édouard entrou de rompante na divisão em que ecoava um choro de bebé.
-Alguém cala essa fedelha!?
Açucena acorreu pressurosamente e lesta ofereceu o seu seio ao minúsculo ser, que o agarrou avidamente sossegando. Édouard olhou para a cena enciumado.
-Nunca a largas! Estás sempre agarrado a esse bebé! – Resmungou contrariado.
-Se a largo ela chora. Ela é muito pequenina. – Redarguiu Açucena suavemente para o marido, mas beijando a bebé. – A nossa filhinha precisa de cuidados…
-Existem amas para cuidar dela! – Ele ripostou com veemência. – Eu quero-te ao meu lado a cuidar de mim! Além do mais logo vamos ao baile do Rei!
Esta e Francine encararam-no atónitas. Haviam tão poucas semanas que ela dera à luz e ainda não estava totalmente recuperada mas o fidalgo não estava com meias medidas para negociar. Necessitava da influência dos monarcas para minorar as suas dívidas.
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domingo, 13 de março de 2011

Açucena: CHAPTER V - 1ª Temporada - de Florbela de Castro


Açucena abriu os olhos com o sol a irromper-lhe pelas janelas. O dia já raiara, iluminando o quarto pois os pesados reposteiros nem sequer tinham sido cerrados.
A sensação de desalento já era sua companheira há muito tempo. Levantou-se maquinalmente do toucador. O espelho devolveu-lhe a sua face pálida, magra, de olhos encovados. Ao lavar-se e empoar-se recordou as nódoas negras que tinha de disfarçar. Apesar de franzina, notava-se a sua avançada gravidez. Era já a terceira. O primeiro filho não vingara e na segunda gravidez perdera a criança ao quinto mês após uma grande desavença com o marido. Édouard! Só de pensar nele, o seu coração bateu descompassado de medo. Este não se encontrava no paço, provavelmente sairá para uma noite de jogatina, ou estava com alguma das suas amantes.
Olhou novamente para a sua cara no reflexo do espelho; ia ser impossível disfarçar o inchaço daquele olho. Suspirou. Quase sentia alívio ao pensar que o marido podia estar com uma amante. Era quando vinha mais calmo.
Bateram à porta do aposento. Devia ser a criada anunciando a visita de mais um credor. Efetivamente era a criada, mas trazendo uma missiva; tratava-se de um convite para um baile no palácio Real dali a cinco semanas. Suspirou. Mais endividamentos e fingimentos em prol dos favores do Rei. Teria ela própria de costurar uma indumentária para o evento. Mas nem tecidos tinha. Talvez desse para reformar algum vestido mais antigo.
Chamou de novo a criada e com voz cansada combinou os arranjos. A criada olhou-a de alto a baixo, com ar reprovador mas amigável e disse:
-A senhora acha que está em condições de ir a algum baile? Mal se segura em pé!
-Francine, sabes perfeitamente que se eu fizer menção de não ir, Édouard arrasta-me nem que seja pelos cabelos…Sem mim ele perde influência junto ao Rei…
Açucena era muito querida pelos monarcas e já conseguira alguns favores e indulgências reais que os tinham salvo da ruína. Contudo sabiam que até a paciência do monarca tinha limites. Suspirou. Naquele momento ouviu-se o trote dum cavalo e um vozear no pátio. Era Édouard que chegara. Açucena ficou logo agitada.
Nos primeiros meses do casamento Édouard ainda fora minimamente gentil com ela. Contudo, com o tempo, tornara-se ébrio e batia-lhe com alguma frequência, tendo acessos de ciúmes totalmente infundados.
Açucena sofria muito e durante aqueles 7 anos, pensara frequentemente em Philippe. A lembrança dele trazia-lhe conforto, alento e força para ir enfrentando o momento presente e os piores momentos. Também guardava uma caixinha de música que Philippe lhe oferecera poucos anos depois de se mudar para o bairro dela. Philippe! Nunca mais soubera dele. Não sabia sequer se estava vivo ou morto. Mas preferia pensar que estava vivo, pois o contrário como que lhe tirava a vontade de continuar viva. Sim, ela sentia em seu coração que ele estava vivo. Às vezes, quando Édouard a surrava, nomeava Philippe e o amor que o professor lhe devotava, enchendo-os de impropérios.
Açucena recordava as lições do loiro professor com saudade e afeto. Não, mais que isso: com amor. Após todos aqueles anos percebera que a doença de Philippe era irrelevante. Agora, entendia tudo o que ele lhe tinha tentando transmitir na altura. Rememorava a declaração de amor de Philippe com doçura e o seu quase beijo com enleio. Como fora tonta e ingénua!
Gentilmente pegou na caixinha de música que o louro homem lhe oferecera e ficou a ouvi-la com ar doce. Sim, ela amava Philippe.
-Sentada à minha espera? – A voz de Édouard soou arrastada e irónica vinda da porta do aposento.
-Sim meu querido. – Devolveu-lhe ela com voz sumida.
Olhou-o de soslaio. Ele continuava extremamente atraente. Édouard avançava lentamente até ela, olhando-a vorazmente. Açucena ainda não se tinha vestido. O marido agarrou-a abruptamente, beijando-a sem cerimónia. Esta debateu-se um pouco devido à brusquidão. O duque atirou-a para cima da cama com violência. Açucena chorava suplicando-lhe para ele ser gentil.
-És minha! Pertences-me! – Rugiu ele fitando-a duramente. – Eu, como teu marido, possuo-te como e quando eu bem entender!
Açucena gritou com a dor. Confuso Édouard olhou para os lençóis alvos que se encharcavam com um líquido viscoso e avermelhado. A bolsa das águas rebentara e a mulher entrara em trabalho de parto.



Link da 4ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-iv.html
Link da 6ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-vi.html


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Açucena: CHAPTER IV - 1ª Temporada - de Florbela de Castro


Era noite alta. As bodas já haviam decorrido e as festas estavam perto do desfecho, naquele momento, talvez Açucena e Édouard estivessem já na lua-de-mel.
A lua firmava-se alta e bem perto. Philippe encontrava-se perto das margens do rio, olhando para o seu caudal fixamente, sem no entanto nada ver, tendo como pano de fundo a sobriedade de um grande convento. Encontrava-se mergulhado em um estado de apatia e resignação alternando com uma tristeza silenciosa. Lágrimas escorreram-lhe pela cara. Ergueu o rosto totalmente para o céu e acabou por fechar os olhos.
Porque a vida o castigara assim? A dor de alma que o assolava era lancinante. Açucena! Tinha de a esquecer! Tinha de mitigar aquela dor. Mas como, se Açucena era a alegria da sua existência? Seria melhor que Deus o levasse naquele momento! O seu corpo era sacudido por soluços pungentes.
-Por favor, meu Deus, fá-la feliz! Eu troco a minha vida pela feliz existência da minha amada! Leva-me! Eu não aguento mais este sofrimento, que me despedaça o coração!
-Alto! Que fazeis meu filho? – a figura de um velho frade, magro e de barba pontiaguda como as nuvens, surgiu no seu campo de visão. – Qualquer que seja o teu sofrimento não vale perderes a tua alma, acabando com a tua vida.
Philippe encarou-o perplexo por uns momentos, mas depois retrucou, entendendo-o.
-Não senhor frade, o meu desejo não é matar-me, mas sim que Deus me leve!
E confessou ao frade todas as suas mágoas.
-Meu filho, compreendo a tua dor. O teu coração é puro, é genuíno e tens uma alma nobre e generosa, capaz de amar incondicionalmente. Essa jovem parece boa moça, mas ainda não aprendeu a defender-se das artimanhas mundanas. Tem fé que um dia a tua amada alcance a razão e dê valor ao teu amor. Há coisas que nem todo o ouro do mundo paga, tais como um amor e dedicação inabaláveis quanto os teus.
-Neste momento sou um homem amargurado; perdi a fé e a esperança e sinto-me um inútil.
-Filho, não te deixes afetar por essa dor de coração que te consome. Não permitas que ela te contamine a alma também. És filho de Deus e ele não abandona os seus.
-O meu coração está completamente estilhaçado. – Retorquiu Philippe com os olhos húmidos. – Preciso sair daqui, desta cidade, deste país…
-Pode ser que eu tenha a solução para ti. – Redarguiu o frade com a cara iluminada por um sorriso misterioso.




link da 3ªparte: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-iii.html
link da 5ªparte: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-v.html

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Imagem da autoria de Jasmin Darnell.

Açucena: CHAPTER III - 1ª Temporada - de Florbela de Castro

Era véspera das bodas, a tarde caía. Apesar de ainda em convalescença, Philippe chamou uma charrete e dirigiu-se ao paço dos duques, a fim de parlamentar com Édouard.
Os dois homens encontraram-se nos jardins principais da propriedade. Édouard mirava Philippe com um misto de comiseração, altivez e inimizade. O atraente duque notava a beleza e porte do professor e considerou que, se não fora a cadeira de rodas, o pobre seria um bom partido… estas conjecturas atingiam o ego do vaidoso aristocrata, deixando-o um tanto arreliado. “Tolice! Philippe não possuía fortuna nem nada de seu.”
Philippe também mirava Édouard com apreensão. Bem via o quanto ele era sedutor e subjugador, pois esse atributos estavam como que gravados na fisionomia do moreno fidalgo. Alcançava agora, o quanto a inocente bem-nascida estava iludida e deslumbrada com aquele conquistador.
- Conheço a sua fama de valdevinos, Sr. Duque de … - Falou Philippe numa voz firme. – Venho lhe pedir que não faça mal a Açucena. Se for necessário desista do casamento. Açucena é uma mulher pura, delicada, honesta e ingénua. Ela…
Édouard interrompeu bruscamente com um sorriso de escárnio:
-Ora, ora, ora! Afinal a sua afeição por Açucena não é fraterna, Sr. Philippe! Muito nobre da sua parte vir até aqui vir defender a honra da donzela! – Tapou a boca com a mão num gesto teatral, enquanto arregalava os olhos, num fingido pesar. – Ooh, que digo eu? Ela não é mais donzela! ...
Philippe cerrou os punhos e apertou os lábios, indignado, e de boa vontade se levantaria da cadeira para dar uma tareia em Édouard. Este ria sarcasticamente.
-Quer-me desafiar para um duelo? – E num tom gradativamente mais provocador o fidalgo acrescentou olhando com desdém para a cadeira de rodas. – Aah, é verdade! Não pode.
E ria com gargalhadas cheias de escárnio. Philippe virou-se de costas, desolado com o facto daquele estroina já ter tocado em Açucena. A sua querida amada entregara-se àquele vilão. Viu que não tinha mais nada a fazer ali e decidiu partir.
-Já vai? Tão cedo? Que pena! – Édouard prosseguia em tom trocista. – Logo agora que a conversa estava tão boa.
E abaixando-se até Philippe, sussurrou em tom ameaçador:
-Desista, Philippe, já é tarde para si.
O homem louro afastou-se com dignidade, sem lhe responder, e abandonou o local. Meia hora depois, estava em casa de Açucena. Esta ficou surpreendida quando viu Philippe fora da cama. Sentou-se na sala de estar, junto a ele, enquanto o homem lhe pegava na mão, olhando-a nos olhos profundamente. Açucena sentiu um arrepio vindo da alma, com aquele olhar.
-Açucena, eu amo-te de verdade. Estou apaixonado por ti desde o primeiro olhar. Eu tenho a certeza que és a minha alma gémea. Sinto uma união com o teu coração, deveras flagrante. Eu sinto que tu me amas mas não reconheces o nosso amor nem o nosso valor e por isso te iludiste com Édouard. O verdadeiro amor é mais que um corpo físico e sumptuosidade. É algo que vem do coração, da alma. Está para além da vida e da morte. É o que nós somos.
Açucena escutava-o perturbada pelo que sentia em seu âmago. Naquelas palavras parecia redescobrir Philippe como um homem que sabia o que queria. A energia viril e de amor que ele emanava, entrava forte em seu coração e em todo o seu ser. Philippe aproximou perigosamente o seu rosto do de Açucena e os lábios dela começaram a tremer ao sentir o hálito quente e perfumado que saia daqueles lábios masculinos. Sentia-se afectada como nunca antes Édouard a deixara. A verdade é que a jovem nunca tinha visto o amigo de outra forma que não a de irmãos.
-Nãaao! – Gritou Açucena fugindo. Queria parar aquele momento, sentia medo do que estava a sentir e da completa confusão. – Não posso…eu estou comprometida. – E deixou-se estar a um canto.
Philippe suspirou e proferiu: - Assim seja.
À saída estacou, fitando-a intensamente, mas a rapariga não teve coragem de olhá-lo nos olhos.
Açucena não conseguia pregar olho, alvoroçada com o que sentira ao ouvir Philippe. Meu Deus, ele quase a beijara! Mas o mais insólito é que tudo isso mexera com ela de uma forma inusitada. Estaria ela tão enganada assim quanto aos seus sentimentos por Édouard. Perdeu-se assim em pensamentos que a transportaram em despiques sobre o que era estar nos braços de Édouard e o que seria estar nos braços de Philippe.
Philippe! Como este a surpreendera! E na verdade ele era extremamente belo. Mesmo, com um rosto miscelânea de feições delicadas e masculinas. Mas não! ... Ele era entrevado e de qualquer forma ela já dera a sua palavra… e o casamento era já amanhã. Talvez o tempo a ajudasse a esquecer Philippe…


E estando nestas conjeturas finalmente adormeceu.








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Açucena: CHAPTER II - 1ª Temporada - de Florbela de Castro


Apesar de ter entrado pelas traseiras, pela ala da criadagem, foi conduzida através duma enorme escadaria ao andar superior; a certa altura percebeu que fora deixada sozinha pela serviçal que a recebera e que se encarregara de a escoltar até aos aposentos da menina Camille. De repente, chocou com um vulto que caminhava apressadamente em sentido contrário ao seu.
Tratava-se de um atraente e moreno homem, de porte elegante e atlético e estatura alta, possuía olhos esverdeados e cabelos fortes, ondulados e castanhos-escuros, nariz aquilino; encontrava-se ricamente vestido.
Este mirou-a de alto a baixo, com ar malicioso e guloso; logo a seguir mudou lestamente as feições, afivelando uma máscara de distinção e pegou-lhe na mã, beijando enquanto se curvava, olhando para ela com um olhar atrevido e galante. Açucena corou até à raiz dos cabelos. O homem usava um misto de sedução e lisonja respeitosos, fitando-a com um olhar ávido e intenso, que confundiam e elevavam a jovem às nuvens. Depressa soube tratar-se de Édouard, irmão mais velho de Camille.
Durante o resto da sua estadia no palácio para a prova do vestido e a combinação dos detalhes, Açucena encontrava-se num estado de perturbação e sonho que a puseram desastrada. Fora elucidada da identidade do cortejador, por uma dama-de -companhia, que viera procurá-la, conduzindo-a aos aposentos da menina Camille.
Quando voltou para casa já era noite e qual não foi o seu espanto quando encontrou Édouard no caminho, oferecendo-se para escoltá-la a casa.
A partir dessa data o duque passou a aparecer frequentemente nas imediações da casa da jovem e pobre baronesa e apesar de actuarem com discrição, depressa chegou aos ouvidos de Philippe. Este esperou, pálido, a visita da moça e os seus olhos encheram-se de lágrimas quando obteve a confirmação da boca dela, que namorava secretamente o duque.
- Açucena, minha flor, tens a certeza de que é isso que desejas? Por favor, tem cuidado, tenho um mau pressentimento sobre isso…
- Philippe! – Repreendeu-o ela - Não acredito nisso, Édouard é um perfeito cavalheiro! Lá por eu e tu termos uma boa ligação empática, não significa que estejas certo sempre naquilo que intuis… e vais ter de me deixar de chamar isso…
Com o decorrer do tempo, o loiro professor tornou-se um homem triste e acabrunhado. As visitas a Philippe escassearam e não demorou muito até que a relação de Açucena se oficializasse com um pedido de noivado.
Quando soube da petição de mão, Philippe sentiu o seu coração despedaçar-se, banhou-se em lágrimas, tendo-se entregue ao desespero e caindo de cama, enfermo. Definhava a olhos vistos, delirava imenso ardendo em febre, chamando a sua querida Açucena. Esta veio vê-lo alarmada e a dor que sentiu era tão pungente, que se sentiu culpada pela primeira vez. Ajudou a cuidar dele, dedicada e pressurosa. O homem, mesmo inconsciente, lograva sentir as mãos de fada e o afecto da donzela, que lhe pareciam devolver a vida e a saúde. A fraternal costureira ajudou nos cuidados até perto da data da sua boda e depois teve de se ausentar devido aos preparativos.
Philippe tinha um mau pressentimento em relação ao casamento e futuro de Açucena, mas não podia fazer nada… ou quase nada.



Autor da imagem. Heise jinyao

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Link do 1º capitulo: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-i.html
link do 3º capitulo: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-iii.html

Açucena: CHAPTER I - 1ª temporada - de Florbela de Castro



Era uma vez uma rapariga chamada Açucena que vivia numa casa modesta e trabalhava como costureira. Açucena era muito hábil e costumava fazer lindos vestidos e fatos. Era órfã há pouco tempo; os seus progenitores eram barões arruinados, que haviam perdido tudo o que possuíam por dívidas com credores. Era comum vários nobres viverem acima das suas possibilidades, dependendo de favores reais e fazendo por ostentar uma magnificência que, com sorte e esperteza, os poderia levar ao triunfo e à abastança e com azar, os afundaria.
Açucena era de estatura quase mediana, pele entre o branco e o pêssego claro, enormes e amendoados olhos cor de mel e longo e sedoso cabelo da mesma cor, ondulado e anelado.
Perto dela vivia Philippe, um lindíssimo homem de cabelo loiro escorrido e enormes olhos azuis e voz grave. Rondava os trinta anos e trabalhava como professor e perceptor e vivia com uma governanta. Ninguém sabia exactamente das proveniências do loiro homem, visto que ele mudara-se para aquele bairro há 7 anos; no entanto falava-se que ele teria sangue dinamarquês e italiano. Isso explicaria a alta estatura e o seu porte um pouco atlético e a pele a fugir para o dourado claro. Philippe era doce, culto e honesto, mas entrevado. Ele amava discretamente Açucena. Eram bons amigos e ela até já tinha percebido o quanto ele a amava, mas não levava esse sentimento muito a sério, preferindo encará-lo como irmão. Açucena era boa moça sonhava em poder vestir os lindos vestidos que fazia e até quem sabe casar com um nobre.
Só este pensamento fazia-a sonhar. Isso e ouvir os relatos das jovens e senhoras que frequentavam os bailes de corte ou dos palacetes dos nobres; também trabalhar no meio das sedas, brocados, cetins, gazes, veludos, e arminhos, transportavam-na para fantasias líricas que ela alegremente partilhava com Philippe. Este ouvia os seus devaneios em silêncio e apenas dizia quase num murmúrio que ela deveria ficar maravilhosa dentro daqueles trajes, mais bela que todas as outras. E geralmente após esta afirmação, o seu olhar tornava-se melancólico; e ainda mais melancólico se tornava quando ela referia os seus sonhos de casar com um homem nobre.
Numa dessas vezes em que Açucena sonhava com vestidos sumptuosos e maridos ricos. Philippe perguntou-lhe:
- E o amor? Não acreditas que o amor está acima disso tudo? Não acreditas que o amor verdadeiro esteja escrito nas estrelas, desde tempos imemoriais?
Açucena estacou, olhando para ele.
- Acredito sim. E acredito que o destino me reservou uma surpresa, um “príncipe encantado” que me vai dar uma boa vida, passeios românticos e festas, belas flores pela manhã e doces momentos à noite. – Replicou sonhadora.
Philippe sentiu um nó na garganta, engoliu em seco e com uma voz um pouco rouca, interpelou:
- E porque achas que só um nobre ou um homem rico te podem dar isso?
Açucena, que se pusera a bailar sonhadora pela sala, suspirou um pouco impaciente e em tom condescendente, retorquiu:
- Philippe, sabes perfeitamente que eu e tu não somos feitos um para o outro! Eu adoro-te como irmão, és lindo e maravilhoso, mas tu não podes… - parou bruscamente e prosseguiu num tom mais doce – eu desejo ter filhos…
Abraçou-o fraternalmente, beijando-o na testa; este cerrou os olhos com enlevo enquanto aspirava o perfume da pele dela e dos seus cabelos.
- És uma alma iluminada, Philippe, decerto vais encontrar uma linda esposa! – E saiu correndo, atirando-lhe um beijo, deixando um triste Philippe a apertar os dentes.
Um belo dia, Açucena deslocou-se ao paço dos duques de Antigny. Estes tinham um casal de filhos, sendo a filha da idade dela. Ia haver uma festa e a jovem quis encomendar o seu vestido a Açucena, pela graciosidade e perfeição dos seus bordados.




Imagem:Jonathan Earl Bowser
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