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sexta-feira, 4 de março de 2011

Conto: "Lágrimas de Pérola" - de Florbela de Castro



Nas águas do Oceano Pacífico vivia uma sereia bonita mas solitária. Perla era o seu nome. Na realidade ela vivia rodeada de familiares e amigos, mas sonhava em encontrar um amor entre os homens.

Adorava ver os veleiros e caravelas passarem, admirando o facto dos humanos terem duas pernas, além de que a beleza dos homens fazia-a suspirar. Não se tratava da falta de tritões lindos pelos mares afora, contudo nem com os da sua espécie a sua sorte era melhor. Além disso, Perla acreditava que o amor podia manifestar-se entre seres de espécies diferentes e em qualquer lugar. As suas amigas e irmãs divertiam-se com ela, quando as embarcações cruzavam aquelas águas, todavia tentavam dissuadi-la de encontrar ali um amor eterno. Porém, Perla era obstinada e persistia no seu sonho.
Mas como podia um homem apaixonar-se por ela, se nem a viam? Ora, a sereiazinha não demorou muito a encontrar uma solução para a sua dúvida. Algumas fêmeas do reino animal usavam os seus encantos e atributos para atrair o macho, então ela, a sereiazinha Perla iria usar o seu maravilhoso canto para conquistar o amor dum homem!
Só que Perla sabia que o seu canto podia tornar-se perigoso, ou mesmo fatal, para os humanos, pois tinha o poder de os enfeitiçar ao cantar certas notas e, inclusivamente, levar um navio ao naufrágio.
Apesar de ciente das consequências, Perla preferiu afastar isso da sua mente pois o anseio em arranjar um amor era maior que tudo. E com isto ela mergulhou na sua conquista. Ficou então observando as embarcações, à espera de cruzar o seu olhar com algum belo espécime de duas pernas.
Teodorico era um atraente e afectado marquês que costumava velejar por aquelas águas. Usava peruca, sapatos de salto e fivela e passava o tempo a alisar as fitas do seu fato. Apesar de afectado, Teodorico gostava de vogar.
Quando os seus olhares se cruzaram, Perla e Teodorico, apaixonaram-se instantaneamente. Contudo, Teodorico sabia o que ela era e não quis dar força aos seus devaneios. Fingia que não a via quando a sua caravela sulcava aquelas paragens, mas também não revelava à sua tripulação que avistava sempre uma sereia rondando a caravela naquela rota. Homens habituados àquelas lides, mas muito supersticiosos, entrariam em pânico ao ver a sereia.
Imaginando que Teodorico não pensava nela, e ansiosa por travar conhecimento com o vistoso humano, Perla começou a cantar. Imediatamente alguns marinheiros entraram em transe e foi o pandemónio. Uns gritavam em pânico, outros atiravam-se ao mar, os mais fortes tapavam os ouvidos tentando prender-se ao mastro, enquanto assistiam horrorizados a outros que, maquinalmente, mudavam a rota da embarcação. E Teodorico? Este, fora lesto o suficiente para tapar os ouvidos, e assistia a tudo, de sobrolho franzido. Estando a caravela desgovernada depressa encalhou num recife e afundou. 

Atónita com o rumo dos acontecimentos, Perla ainda conseguiu reagir a tempo de salvar Teodorico, levando-o até uma ilhota próxima. Após algum tempo desacordado, o Marquês recobrou os sentidos e, depois de se recompor, deu de caras com Perla que velava por ele. Furioso, ele vociferou:

-Que fazes aqui? Vai-te embora! Não vês o estrago que fizeste??
Perla ficou chocada com a reação de Teodorico. Mas ela salvara-o! Como ele era ingrato!
-Que queres de mim? – Perguntou ele, carrancudo, acrescentando que já a vira rondar muitas vezes o seu veleiro.
Perla, balbuciando, declarou o seu amor com alguma esperança. Contudo a reação do homem foi outro choque.
-E que esperas que eu faça? Que fique contigo, tu, uma sereia?? Para onde te ia levar eu? Jamais te poderia mostrar entre os meus! – E zangado acrescentou. – E escusavas de ter afundado a minha caravela e a minha tripulação! Isto é de bradar aos céus!
Envergonhada e pestanejando com a brusquidão de Teodorico, Perla ofereceu-lhe as jóias do mar como recompensa dos danos causados, mas Teodorico ignorou-a, bradando que queria sair dali. Perla afastou-se devagarinho, chorando em silêncio. Por sua vez, o Marquês construiu uma jangada, fez-se ao mar e um tempo depois foi recolhido por um veleiro.
A partir dessa altura, Perla vinha prantear naquela ilha as suas mágoas. As suas amigas, Orla e Corália, vinham consolá-la.
-Amiga, não chores. Não devias ter afundado a embarcação…Não vale a pena correr atrás de um amor e fazer tudo sem olhar às consequências. Todas as acções se voltam contra nós como uma maré revolta! – Dizia Corália por um lado.
-Força querida, és bonita, hás-de arranjar um tritão amigo e atraente! O teu Marquês não é para ti.
Mas Perla só chorava amargamente. Realmente Teodorico tinha razão. Aliás, todos tinham razão. Que adiantava perseguir um sentimento?
A partir daquele dia passou a ser uma sereia comedida, mas triste, e deixou de procurar o amor.
Por seu turno, Teodorico integrou-se num veleiro e mudou de rota. Na realidade, Teodorico, pensava nela; mas a certa altura abanava a cabeça afastando os pensamentos: “Bah, uma sereia não é futuro para mim!”
Dois anos se passaram. Na nova rota, Teodorico tornou-se mais desenvolto, robusto, despretensioso e mais alegre. Pôs de parte os pós de arroz, os carmins, os saltos, as fitas e a peruca alva. Agora usava botas de cano alto, camisa ao vento, pele morena, os cabelos escuros e ondulados, abaixo dos ombros, e a barba por fazer. Uma coisa ele usava ciosamente pendurada ao pescoço, intrigando os marinheiros: Um colar de pérolas do qual nunca se separava. Alguns achavam aquilo insólito, outros amaricado, outros encolhiam os ombros: “Esquisitices de nobres!”, pensavam no final, abanando a cabeça e embrenhando-se em seus afazeres. 


Porém numa dessas viagens, foram apanhados desprevenidos por uma tempestade de meter medo ao mais valente. A noite caiu e a tempestade não amainava. Apavorados, alguns marinheiros sentenciavam que estavam destinados ao infortúnio e que não chegariam vivos ao seu destino. Teodorico estava bastante apreensivo. Gostava de poder reconfortar a tripulação, mas não tinha controle sobre as condições climatéricas e na realidade estava certo que não saíssem vivos daquela adversidade. Acreditando estar condenado, Teodorico pensou em Perla. Subitamente ouviu-se um canto. O mar acalmou-se e quase toda a tripulação entrou em estado de hipnose, porém mantendo-se ordenada; como fantoches conduziram o veleiro através da tempestade, até uma pequena enseada, onde ancoraram. Apenas Teodorico se manteve estranhamente imune. Com o coração descompassado, Teodorico pegou num bote e foi encontrar Perla junto à praia.

Esta, no tempo decorrido, dedicara-se a salvar tantas embarcações quantas possíveis, como forma de redenção.
Teodorico olhou-a intensamente e só quando ele falou é que ela reconheceu-o.
-Sou-te grato. – Disse ele suavemente.
Perturbada pela sua presença, ela gaguejou um: “Não tem de quê” e preparava-se para nadar para longe quando Teodorico tentou impedi-la, entrando na água e alcançando-a com dificuldade.
-Perdão. – Sussurrou, beijando-a apaixonado.
O rosto de Perla banhou-se de lágrimas e ela falou: - Eu é que devo de pedir perdão! Eu amo-te mas tinhas razão, o nosso amor não tem futuro!
Teodorico apressou-se a secar-lhe as lágrimas: - Esquece o passado. Aprendi muito neste tempo longe de ti. E acredita que o amor e a esperança são essenciais na vida. Nós os dois cometemos erros no passado, contudo não devemos manter-nos presos ao pesar dessas faltas. Não me importo que sejas uma sereia, és quem és e eu amo-te assim. Só não quero que chores mais, meu amor. – E protectoramente enlaçou-a contra o seu peito num abraço terno. - Agora compreendo que não quero nem escolho viver mais longe de ti.
Perla, comovida, levantou o seu rosto para ele e naquele instante vislumbrou o colar. Pasmada perguntou-lhe onde o arranjara, como que em suspense. Teodorico acariciou as pérolas e disse que estas nada mais eram que as lágrimas dela do primeiro encontro. Estas haviam-se transformado em pérolas, ao tocar na espuma das ondas que embatiam na areia. Após ela se ter afastado, o Marquês as apanhara, guardando-as ciosamente, tendo mais tarde as transformado num colar. Perla sabia desse predicado de suas lágrimas, que se transformavam em pérolas, e ficou sensibilizada com o gesto dele, pois era sinal de que afinal ele sempre a amara.
Naquele mesmo instante, como por encanto, o mar tomou a forma de um homem, que se lhes dirigiu apresentando-se como Neptuno, governador dos Oceanos. Afavelmente este falou que estava a par do amor deles desde sempre e que gostaria de lhes dar um presente: A faculdade de Perla de ter pernas e poder andar também sobre a terra e a de Teodorico de mergulhar no mar sem perecer.
Em êxtase, os dois agarraram-se aos pés de Neptuno, desfazendo-se em agradecimentos sinceros. Este riu, bonacheirão, abençoando-os, e afastou-se dissolvendo-se nas águas, deixando Perla já metamorfoseada com duas pernas. Embevecido, Teodorico, tomou-a nos braços fazendo Perla feliz, com a certeza de que o amor e a esperança haviam vencido
todas as barreiras que os separavam.

FIM

Autoria de Florbela de Castro


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Conto: "O Tocador de Lira" - de Florbela de Castro




Em tempos idos, em Esparta, na Grécia, quando os deuses tinham por hábito passear e relacionar-se com os humanos, existiu uma bela e culta jovem por quem o deus Apolo teve uma paixão e cortejou, sem no entanto revelar a sua identidade. Lisandra era o seu nome.
Num dos seus encontros secretos, nos arredores, fora do centro da pólis, Lisandra surgiu chorosa e ofegante. Contou que havia sido injuriada por um homem casado, que a quisera tomar como amante e como ela o havia recusado, este iniciara uma campanha difamatória que a pusera em maus lençóis.
A rapariga rogava por uma hipótese de se defender com equidade, mas não sabia como desmascarar o homem e sua esposa (pois esta se unira ao mesmo na campanha) e travar aquela redoma de calúnia. Apaixonado, Apolo, querendo ajudá-la a ilibar-se de todas as acusações, ofereceu-lhe a Lira da Verdade.
Esta lira tinha o dom de revelar a pura essência das pessoas, dos animais e de todas as formas de vida. Com o instrumento em sua posse, a jovem rapariga triunfou na sua busca por justiça.
Agradecida e enternecida, rendeu-se ao belo desconhecido, tendo nascido dessa entrega um lindo rapaz….


A lira permaneceu por algumas gerações na família de Lisandra, rodeada de lendas a seu respeito, até ao dia em que foi vendida pelo seu tetraneto, pois a família achava-se em grandes embaraços financeiros e o instrumento era de ouro.

Vários séculos mais tarde, noutro reino da Europa, havia uma família de mercadores, numa vila à beira mar. O comércio corria-lhes de feição, vivendo desafogados e até se podiam dar ao luxo de coleccionar objectos antigos. Por entre o espólio guardado encontrava-se uma lira muito antiga, cuja proveniência ninguém conseguia mais recordar. Contavam-se na família algumas lendas sobre o dito instrumento, contudo as mesmas eram demasiado fantasistas e poucos eram os que acreditavam. Uma das versões do mito era que quem tocasse a lira, conseguia revelar o verdadeiro interior de cada pessoa, independentemente do seu aspecto físico, mas tal feito jamais acontecera.
Rafael crescera no meio dessas lendas e objectos e tornara-se um belo homem de pele diáfana com corpo esguio, bem delineado e musculado, uns sedosos cabelos cacheados em castanho claro que lhe emolduravam o perfeito mas altivo rosto, um nariz aquilino mas não menos harmonioso, uns lábios cheios e rosados e, como um perfeito acabamento, uns cílios fartos e curvos que encimavam uns amendoados olhos verdes. Apesar de belo, Rafael era frio e distante, chegando a ser trocista, apreciando de longe toda e qualquer azáfama que presenciasse. Não se importava o suficiente com o sofrimento das pessoas, alimentando-se avidamente de querelas, pois estas lhe transmitiam uma sensação de adrenalina. O facto de não se querer envolver em quaisquer disputas só espelhava o seu caráter altivo de que ele próprio se encontrava acima de qualquer modelo.
Certo dia seu pai o mandara catalogar todo o espólio guardado no sótão da casa e ao achar a lira, reminiscências das lendas surgiram-lhe na mente como sussurros, sentindo uma vontade súbita de tocar o instrumento. Contudo conteve-se e guardou-o zelosamente nos seus aposentos.
Após a ceia, já recolhido na sua alcova, o rapaz lustrou a bela lira e dedilhou-a distraidamente, ao acaso. De repente, no seu campo de visão, a flor já murcha, plantada num vaso, que enfeitava o parapeito da janela, refloresceu viçosa e cheia de brilho! Os olhos do jovem mal podiam crer no que viam. Seria tal feito possível ou estaria ele a ter uma alucinação?
Rafael abanou a cabeça, concluindo que talvez bebera uns copos a mais durante a ceia, e continuou a arpejar as cordas da lira.
Naquele momento foi interrompido pela entrada da criada que o vinha instar a dormir. No instante em que olhou para a anafada e maternal serva, uma surpreendente metamorfose teve lugar: a bondosa mulher transformou-se numa elegante e bonita senhora!
Atordoado, Rafael levantou-se de rompante. Sem suspeitar da sua própria transformação, a serviçal saiu lestamente do quarto, deixando um boquiaberto Rafael, sem qualquer reacção.
Este olhou para a lira conjecturando e apercebendo-se que todas as lendas eram, afinal, verdadeiras.
A partir desse dia o rapaz passou a testar a lira, obtendo resultados surpreendentes. Na vila, quase todos os habitantes sofreram transformações ao soar do instrumento; a própria natureza em redor, tornara-se mais bela e de cores mais vivas e graciosas; até os animais transmutaram a sua aparência para algo mais grandioso.
Evidente que todas estas alterações causaram enorme estardalhaço entre os habitantes, mas nada que abalasse o jovem, que até gostava de ver o circo pegar fogo sem se importar com as consequências.
E, assim, Rafael partiu em peregrinação por montes e vales, vilas, aldeias e cidades, sempre causando o mesmo efeito quando tocava a lira, no entanto, sem se deter perante a confusão que ele acarretava. A certa altura a fama já o precedia, deixando-o envaidecido.
Numa das suas paragens por uma pequena aldeia nas montanhas, deparou-se, junto a uma fonte, com uma jovem feia mas com um ar doce e delicado. Acercou-se desta e com um trejeito trocista dispôs-se a dedilhar a lira enquanto dizia: - Queres que te toque uma música? Decerto não te vais arrepender.
A jovem virou-se de imediato e respondeu-lhe: - Sei quem sois. A sua fama precede-o. E eu não tenho intenções algumas de lucrar com a sua lira mágica.
Todavia, Rafael ignorou as palavras da rapariga com um sorriso malicioso, uma atitude superior e convencido de que a sua intervenção era indispensável e que a jovem estava, na realidade, a fazer-se de difícil. Pôs a sua lira de prontidão e tocou uma de suas músicas melodiosas, observando. Enquanto as notas harmoniosas soavam no ar, tocavam a verdadeira essência da rapariga, transfigurando-a numa formosíssima donzela de rara beleza; vastos cabelos negros, ondulados e aveludados caiam-lhe como um manto, pela cintura; seus olhos, amendoados, brilhavam em tons de castanho e dourado, reluzindo com o sol como dois diamantes; as maçãs do rosto salpicavam com pequenas sardas, pintando o rosto cor de pêssego; por fim, os lábios, que ela constantemente humedecia, eram volumosos e arredondados, formando um círculo apetecível na sua boca.
Apesar de ele já ter visto inúmeras vezes modificações semelhantes em várias mulheres, jamais em tempo algum presenciara tamanha perfeição! Este feito tocou-o de uma forma tão profunda, que Rafael caiu inesperadamente de amores pela moça. Sim, o sarcástico e impiedoso Rafael que nada lhe tocava nem demovia, se apaixonou perdidamente. Perturbado por este sentimento que ele desconhecia e tomava conta dele, Rafael apressou-se a pedir desculpas gentilmente e tartamudeando, ofereceu-se para ser seu fiel escudeiro para sempre.
Mina, assim se chamava a jovem, não se deu por convencida pelos discursos de Rafael e, terminantemente, deu de costas e retirou-se. A partir dessa data, o jovem músico passou a perseguir a donzela com galanteios, serenatas e cortejos. Porém, nada conseguia dissuadir Mina. Um dia, ferido no seu ego e sem compreender porque a moça o recusava (ele que era tão bom partido), virou-se intempestivamente para ela e jogou a lira aos seus pés, exclamando: - Já que não me queres, e dizes que a lira é a causadora da tua repulsa, não a desejo mais!
A rapariga pegou na lira afastando-se silenciosamente. Entrou em sua casa e encaminhando-se para os seus aposentos, acariciou pensativamente a lira, retirando dela alguns acordes. Assim estava, sentada no seu toucador, perto de uma janela, de onde ele não arredava pé, triste e desprezado.
Apesar da arrogância, não lhe desagradara a atitude de Rafael de se ter desfeito da lira, apenas achava que ele era imaturo e necessitava de uma lição. Porém, essa consciência interior só poderia vir de Rafael e do seu coração.
Mas como fazê-lo entender que precisava de ser sensível e honesto com tudo o que o rodeava? E enquanto assim pensava, tirando acordes da lira, como por magia, Rafael metamorfoseou-se, naquele mesmo instante, perdendo toda a sua beleza e graça!
 Apercebendo-se da sua fealdade, Rafael berrou apavorado e atónito, atraindo a atenção da rapariga que veio em seu auxílio. Esta admirou-se do sucedido, pestanejando entontecida: “Como podia isto ser possível? …”
O filho de mercadores arfava, completamente desorientado e por fim, sentindo-se envergonhado da sua aparência, afastou-se correndo para bem longe da moça.


Refugiou-se numas grutas da montanha por longo período de tempo, torturado pelo sofrimento e amor que sentia e que não davam descanso ao seu coração. A humilhação assoberbava-o alternando com estados de vergonha, consternação e derrota. No período que se seguiu, o rapaz acabou por se conformar vivendo austeramente naquele local, sobrevivendo do que plantava; após essa época, acabou mesmo por tornar-se prestável a quem passava, com muita humildade e complacência, inclusivamente tornando-se benfeitor para os mais necessitados. Havia-se transformado num eremita de longas barbas e cabelos revoltos. Novamente a fama dos seus feitos espalhou-se pelas redondezas.


Cinco anos se volveram. Numa bela manhã ensolarada, Rafael achava-se a assar um peixe, pescado num riacho próximo, quando viu um vulto a aproximar-se. Os olhos do jovem barbudo ensombraram-se quando reconheceu a figura de Mina. Saudaram-se timidamente e ela estendeu um jarro de leite de cabra e um cesto com queijos, que ele aceitou polidamente:

 - Porque me vieste visitar? - Perguntou ele, fitando-a doce e tristemente.
Mina respondeu que tinha chegado há pouco tempo da cidade, para onde fora enviada por seus progenitores para completar a sua educação. Fora inteirada, após a sua volta, da vida ascética pela qual ele enveredara e, tocada, decidira visitá-lo.
 Congratulou-o pela sua nova forma de encarar a vida e interrogou-o se ele queria que ela lhe devolvesse a lira. Rafael olhou para o chão, resignado e abalado, respondendo que o instrumento de nada lhe servia se não podia usufruir do seu amor. Comovida, os olhos de Mina marejaram-se de lágrimas, pois sentia em seu coração a verdade e profundidade dos sentimentos de Rafael. Aproximou-se dele, abraçando-o ternamente e confessou-lhe amá-lo também, manifestando que a aparência não era o que realmente importava mas sim o interior de cada pessoa. O rosto do homem iluminou-se de felicidade e preparava-se para retribuir a declaração de amor, quando deu-se um grande clarão e do meio deste, surgiu um perfeito e musculado ser masculino.
Embasbacado o casal caiu de joelhos, fitando a bela aparência daquela atlética figura, trajado de túnica branca, cabelos castanhos cacheados e expressivos olhos da mesma cor. Era imponente e extremamente alto. Mina olhava-o estupefacta, não só pela sua magnificência, mas como também pela tamanha semelhança com a fisionomia de Rafael.
Com suavidade apresentou-se como sendo Apolo, o Deus do Sol, da Música e da Luz da verdade. Contou-lhes então a história da lira e da sua proveniência e de como ela fora parar à família de Rafael. E explicou aos pasmados jovens que a lira funcionara nas mãos de Mina porque esta provinha de uma linhagem familiar de Lisandra, que emigrara para aquele reino há algumas gerações.
Antes de partir, o deus dirigiu-se a Rafael congratulando-o pelo reconhecimento e expiação dos seus erros.
- Uma das maiores provas da índole de uma pessoa, é a capacidade que ela tem de demarcar a beleza interior da exterior e saber qual é de facto a mais importante. O que traz felicidade verdadeira é ter o coração aberto ao amor absoluto. – Dissertou sabiamente Apolo, num tom indulgente. E assim desvanecendo-se, abençoou aquele Amor que passara uma das mais duras provas de vida, devolvendo ao rapaz a bela aparência de outrora, pois esta já era o espelho fiel do novo Rafael.


E assim prosseguiram as suas vidas cultivando sempre a verdade, a compaixão e o amor incondicional.



FIM

Autoria de Florbela de Castro e Sophia B.R.



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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Conto: "A Rosa e o Guerreiro" - Bruno Moura



Era uma vez um guerreiro, um grande guerreiro, reconhecido por todos como “O Valente”! Era inspiração para os mais fracos, invejado pelos demais guerreiros e por onde passava deixava um rasto de força e braveza… 

Este guerreiro conhecia todos os truques de guerra, todas as estratégias, sabia quando atacar e quando defender! Seus inimigos o respeitavam e muitos o temiam! 

O guerreiro tinha esta “grandeza”! Saía das batalhas sempre vitorioso mas… Mas quando se encontrava sozinho, no silêncio dos seus imparáveis pensamentos ele desesperava… Sentia um aperto em seu coração que o impedia de ter paz… Pensava para si próprio como seria a sua vida se as pessoas descobrissem a sua verdadeira natureza! Uma natureza cheia de força sim, porém… Uma força vazia, uma força sem sentido e sentimento, baseada apenas no modo instintivo de lutar… O guerreiro por vezes chorava, mas até as próprias lágrimas eram sem sabor, sem brilho, sem cor… O guerreiro chorava por dentro! Mas a força nunca o iria abandonar, e enquanto houvesse dia e noite lá estaria ele de espada empunhada pronto a atacar e pronto a defender… 



Nos bosques próximos à aldeia onde morava o guerreiro havia uma rosa… Esta rosa também era conhecida por todos, conhecida pelo seu aroma, que segundo dizem se espalhava por todo o reino, inclusive havia testemunhas que afirmavam terem sido curadas pela simples admiração àquela rosa! 

Esta rosa possuía um brilho especial, que a diferenciava de todas as flores do bosque, porém havia também um outro pormenor que a distinguia de todas as outras… A sua fraqueza! A rosa estava constantemente a murchar! Quase todos os dias ela perdia seu brilho e o seu aroma e só quando se encontrava sozinha, e com tempo para sentir a Mãe Terra, conseguia ganhar novamente forças para voltar a brilhar e a deslumbrar quem a viesse ver! Sentia que dava mais do que recebia… Apesar de a alegria ser enorme em doar o seu interior havia uma tristeza e um cansaço por estar sempre a ganhar energias para mais um dia… 



Certa manhã o guerreiro saiu para negociar um acordo com o reino mais próximo. Nunca teve curiosidade de ver a rosa pois para um guerreiro há sempre muito que fazer e… Rosas eram coisas de mulheres… 

Coincidência ou não, nesse dia o caminho do guerreiro passava pelo sítio onde a rosa vivia. Ia ele no seu cavalo a pensar no acordo, quando sentiu aquele delicioso aroma que subitamente fez seu coração dar uma batida mais forte! “Que maravilhoso!” pensou o guerreiro… Mais maravilhado ficou quando olhou e viu a beleza e todo o esplendor que a rosa emanava à sua volta… Seus olhos se encheram de água, uma água cristalina, com sabor a pétalas de rosa! Por momentos o guerreiro esqueceu tudo, a guerra, as pazes, o ter de lutar por algo que não sabia bem o quê… Pela primeira vez sentiu Amor, pela primeira vez sentiu-se preenchido! 

Mas… Mas ao mesmo tempo que sentia toda esta pureza, a rosa começava a ficar sem cor e a murchar! Perdeu o seu brilho e a sua força! O guerreiro, habituado a levantar seus homens e a dar palavras de coragem durante as batalhas, rapidamente desce do cavalo e começa a tentar reanimar a rosa… Disse-lhe que na vida, assim como na guerra, é preciso saber quando avançar e quando se retirar, pois até os mais fortes dos guerreiros têm de descansar e recuperar forças! Aquilo fez sentido para a rosa pois ela nunca parava para pensar em si… O único descanso que tinha era a noite e nem sempre era suficiente pois todas as horas vinham visitá-la! 

O guerreiro também quis saber como é que ela era capaz de emanar tanto brilho e tanto Amor, ao que a rosa respondeu: “Na vida, assim como na guerra, precisamos ser nós próprios e pôr de lado tudo o que possam pensar de nós… Só assim criaremos abertura no nosso coração para que esse sentimento maravilhoso possa florescer!” Ora, aquilo também fez sentido para ele pois passava os dias demonstrando uma faceta que nem sempre era a sua. 

Esta conversa despertou algo tanto na rosa como no guerreiro e ambos decidiram tentar mudar o que nas suas vidas estava a trazer-lhes tristeza e sofrimento! 

A rosa passou a não brilhar tanto, inclusive havia dias que não brilhava nem espalhava seu aroma! Com o passar do tempo reparou que se sentia cada vez mais forte e com muito mais vontade de ajudar quem lá passava… Cresceu e tornou-se numa linda roseira onde cada rosa era capaz de libertar mil e um aromas diferentes. 

O guerreiro começou a falar mais de si às pessoas que o rodeavam, como era difícil por vezes a sua vida e como nem sempre se sentia assim tão forte… Reparou que ganhou mais respeito de quem o rodeava e quando se deitava em sua cama sentia seu coração a sorrir e uma paz a invadir a sua alma. Com o tempo deixou a guerra e começou a dedicar seus dias a falar com a rosa… 

Há quem diga que eles falavam dia e noite partilhando aquilo que mais sabiam… A força do guerreiro e o amor da rosa! Claro que não há certezas mas a verdade é que no sítio onde tanto falavam nasceu um ribeiro com águas curativas! Quem bebia dessa água sentia-se fortalecido e cheio de amor e à comunhão desses dois sentimentos deram o nome de FÉ! 

Esse sentimento maravilhoso enche-nos de força e amor quando mais precisamos! Basta parar e fazer a união do guerreiro e da rosa que todos somos… Para isso não é preciso religião, não é preciso política, nem ciência nem livros espirituais. Só é preciso parar… Parar e sentir! E veremos que nada, nada nos poderá fazer mais felizes que o reencontro com o nosso interior… FÉ, está sempre lá!