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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Conto: "O Sapateiro e a Tesoura Mágica" - 1ª Parte - de Florbela de Castro

"To my Eternal Love"




No tempo das perucas altas e alvas, num país com neve, mas de montanhas floridas chamado Áustria, vivia um sapateiro solitário, de nome Gerard. Este geria o negócio de família, herdado há gerações, contudo no presente momento já não lhe restavam mais parentes e vivia só. Desde há uma década que exercia o ofício de sapateiro, que incluía oficina e loja de rua, porém, na actualidade, debatia-secom dificuldades, pois o seu calçado vendia pouco, situação não igualada aos tempos áureos em que seus avós e pais governavam essa actividade. Ele até modernizara os seus instrumentos de trabalho e a loja, feito em que gastara parte do dinheiro amealhado pela família e que já fora despendido em parte nas doenças de seus pais, que haviam requerido viagens constantes à montanha.

Gerard já passava dos 40 anos, contudo já era calvo, os seus restantes cabelos eram claros e possuía olhos esverdeados, usava óculos, tinha um pouco de barriga mas não era encorpado. Na sua adolescência até tinha boa figura mas depressa se havia desfigurado. Os seus ajudantes, moços ainda de verde juventude, riam-se à socapa da pouco graciosa silhueta do patrão. “Seria por isso que não teria clientela?”

Ainda assim Gerard era um hábil sapateiro, todavia só conseguia vender a sua produção para pessoas com poucas posses. Nem ricos mercadores, nem fidalgos adquiriam as suas obras.

Numa bela noite de primavera, Gerard trabalhava numas botas de pele encomendada spor um caixeiro-viajante, oportunidade rara dum bom negócio.

Acerta altura a sua faca de sapateiro, chamada trinchete, partiu-se em dois.“C’um os diabos!”, Gerard fitava admirado o utensílio: - Como foi isto partir??...

Ainda magicando no assunto, lembrou-se de ir à cave da loja buscar a tesoura usada por seus pais e avós no corte do couro e tecidos para o calçado, posta de lado desde a reforma de todo o negócio. E se bem o pensou, melhor o fez, terminando o corte do modelo com a antiga tesoura. Devido ao adiantado da hora Gerard não entregou o serviço às gaspeadeiras e coseu ele próprio as botas com muito primor. No final da tarefa admirou o seu trabalho satisfeito.

No dia seguinte, veio o caixeiro-viajante buscar a encomenda, pagou o preço justo e partiu para o seu destino.

Uma semana mais tarde, ainda Gerard dormia quando alguém madrugadoramente bateu à porta, com insistência.

Ensonado,o sapateiro foi abrir. Um homem de vestes abastadas adentrou a loja e retirou ochapéu, revelando ser o caixeiro-viajante da semana anterior.

Entusiasmado,o forasteiro contou ao perplexo sapateiro como a sua vida se transformara radicalmente no espaço de 7 dias, desde que calçara as botas feitas por Gerard. Fizera de tal forma bom negócio que se tinha conseguido estabelecer na cidade vizinha e com muito sucesso.

-Era o meu maior desejo – confidenciou com vivacidade o ex-caixeiro-viajante – visto que sou natural de lá.

E empolgado encomendou um par de sapatos a Gerard que permanecia um tanto ou quanto incrédulo. Mas como o cliente estava a apagar adiantado, o artífice nem pestanejou.

E novamente pôs mãos à obra. Também, pudera, há uma semana que só fazia pequenos arranjos.

Novamenteo caixeiro-viajante retornou no dia seguinte para vir buscar a sua preciosa encomenda. Alegremente se despediu de Gerard.

Uma semana depois a cena repetiu-se e o forasteiro estava de volta, desta vez acompanhado duma senhora, que este apresentou como sua esposa. Nesta ocasião encomendaram um par de calçado para cada um, com a finalidade de acorrerem a um baile no palacete dum barão, para o qual haviam sido convidados, exactamente após o ex-caixeiro calçar os sapatos manufacturados por Gerard.

Espantado,mas já menos descrente, Gerard pôs as mãos ao trabalho. Laborou afincadamente nas suas encomendas e três dias depois o casal comparecia para levar o calçado e deixar uma quantia generosa. Gerard agradeceu efusivamente enquanto que o forasteiro, já seu conhecido, afiançava:

-Tem aqui um cliente e amigo para a vida. O calçado feito por si, são verdadeiras obras-primas que têm o condão de nos conduzir aos nossos desejos.

Despediu-se alegremente deixando Gerard a pensar. Tudo aquilo parecia-lhe fazer sentido,no entanto, o que ele estranhava um pouco era como o caixeiro sabia e houvera descoberto realmente que o calçado tinha propriedades mágicas. Contudo reservou as suas interrogações para um dia mais tarde serem esclarecidas.

A fama de Gerard foi-se espalhando e os clientes e as encomendas aumentaram consideravelmente. As pessoas eram em geral abastadas e voltavam sempre para mais encomendas ou indicando alguém, contando como os seus pares de sapatos modificavam suas vidas.


Numa das suas deslocações pela cidade para comprar mais tecidos e peles, Gerard passou por um palacete e reviu uma linda mulher jovem, de quem ele ao longo dos anos sempre se encantara, através das vidraças duma janela. Como era bela! Gerard suspirou à vista daquela figura graciosa por si admirada ao longo dos tempos. Contudo achava-se demasiado feio para conseguir chamar-lhe a atenção. Acabrunhado foi à sua vida.

Ocasionalmente,o sapateiro voltou a ver a dita donzela e contemplava-a ao longe sem nunca ter coragem de tomar uma iniciativa.

Elsa de seu nome, era uma jovem fidalga de beleza tipicamente germânica; cabelos loiros quase platinados, olhos dum azul semelhante a uma turquesa cinzelada, de pele alva, faces levemente ruborizadas; esguia, o que fazia com que a sua estatura mediana a fizesse parecer mais alta. Elsa não primava pela simpatia e o seu porte altivo de queixo afilado e sorriso que não desmantelava as sua sfeições de boneca de cera, corroboravam esses atributos da sua personalidade.

Gerard já a conhecia de vista desde jovem mas devido à diferença de estatuto jamais tivera o ensejo de a conhecer pessoalmente. Com o passar da vida, arrumara essa recordação tão deliciosa, que o tempo trouxera de volta.

Porém desta vez Elsa, não saía da sua cabeça. Sonhava em poder cortejá-la, passear com ela, mostrá-la ao mundo, ao seu lado.

Inesperadamente,um dia a figura graciosa de Elsa irrompeu pela sua loja! Fazia-se acompanhar por mais uma senhora jovem e por uma senhora de idade. Gerard a custo conseguiu disfarçar a sua perturbação.

Encomendaram lindos sapatos para um baile enorme dado no Paço Real a fim de anunciar o noivado do jovem Príncipe.

Elsa tagarelava entusiasmada com as outras duas senhoras agindo como se nem sequer visse Gerard. Este sentiu-se acabrunhado. Decerto se fosse rico e belo como o príncipe teria todas as mulheres aos seus pés.

Devido à magnitude e importância do evento muita gente importante iria comparecer no baile.



Um par de dias depois, Gerard recebeu uma missiva que descobriu ser do seu tão bem conhecido caixeiro-viajante convidando-o para se deslocar à sua cidade natal para uma encomenda de calçado para o baile real.

Nesse mesmo dia pôs-se a caminho; tomou uma carruagem de passageiros que viajou durante algumas horas até o centro da cidade vizinha. A noite já caia e Gerard ainda tinha de se dirigir para os lados de uma aldeia perto da montanha. Alugou um burro e partiu para a segunda etapa do trajeto apesar dos murmúrios e resmungos do estalajadeiro onde alugara o animal, avisando-o da distância e dos perigos da montanha e das entidades sobrenaturais que nele habitavam. O sapateiro seguiu com um encolher de ombros.

Consigo transportava um farnel, o seu banquinho, a tesoura, agulha, linha e várias amostras de peles e tecidos. Já tinham avançado cerca de uma hora quando caiu uma tempestade seca com rajadas fortes, trovões e relâmpagos.

Passou por uma vedação e pensou abrigar-se da tormenta que se avizinhava. Um intenso relâmpago revelou a presença de uma linda camponesa. O rosto feminino pareceu-lhe surreal. Fios negros pendiam desarranjados num coque solto emoldurando o rosto esguio e oval de um tom leitoso e aveludado. Os lábios carnudos e redondos tinham um tom rosa-cereja completando o quadro de beleza que pairava como uma miragem na sua frente. Gaguejando inquiriu onde era o palacete do caixeiro-viajante. A jovem apontou-lhe o caminho dizendo que após virar a colina encontraria a única habitação das redondezas, não havia que enganar, era só mais meia hora de caminho. Tão depressa o homem olhou para a frente para ver direções como ao retornar o olhar a jovem havia se eclipsado!

Foi já debaixo de uma chuva fustigante que se encontrou perante um castelo, um tempo depois. Não cruzou com vivalma nos pátios e entrou por uma ala lateral. O sapateiro sentia-se confuso e atónito com a magnificência do interior do castelo onde habitava o seu amigo caixeiro-viajante.

O castelo era profusamente ornado a ouro e mármores raros. A cada passo podia encontrar do bom e do melhor. Veludos da Prússia, tapetes da Pérsia, sedas da China, porcelanas de Limoges, cristais de Boémia…

Encontrou mesa posta, servida em salva de prata, e cama feita em alvos lençóis de Cambraia.
(Continua)



Autoria de Florbela de Castro

Link da 2a parte- final :http://artlira.blogspot.pt/2012/12/conto-o-sapateiro-e-tesoura-magica-2.html

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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Conto: "O Pintor de Quadros" - 2ª e última parte - de Florbela de Castro





Intrigado ele pôs-se a caminho. Sentia-se, a um tempo, aliviado, esperançado e oprimido. Mas porquê oprimido? Nem ele próprio sabia explicar o que a sua voz interior lhe tentava avisar.


Chegado à aldeia, facilmente conseguiu capturar o maravilhoso rapaz e com ele rumou para o seu palácio. O jovem, de coração de ouro e alma cristalina, possuía uma rara beleza. Pele diáfana, cabelos loiros de reflexos dourados, feições suaves e doces e os olhos eram castanhos, tão claros e límpidos que quase se assemelhavam a ouro em fusão. Era alto, mas não corpulento.


Julgava Alexander que de alguma forma miraculosa os predicados do precioso rapaz passariam para si. Sentia-se poderoso e regozijava-se interiormente com o desfecho.


Contudo o que o pintor não esperava era que Nathalie, quando esta se acercou do rapaz de coração de ouro e alma cristalina, encantara-se por ele. Este parecia corresponder-lhe, tratando-a com simplicidade e dedicação. A cada dia que passava, iam-se tornando mais unidos.


Ferido pelo ciúme e raiva, Alexander congeminava em separá-los e acabou por seguir um impulso desastroso. Decidiu apunhalar vilmente o rapaz, para assim arrancar-lhe o coração e a alma e torna-los definitivamente seus. Não podia suportar aquela afronta!


Um dia avistou-se com o rapaz nos jardins e puxou de uma adaga para tentar desferir um golpe cobarde e fatal. Nesse momento o céu escureceu, trovejou, o palácio desmoronou-se, os criados desapareceram e Nathalie tombou fulminada. Ferido, o rapaz de ouro e alma cristalina bradou:


-Porque fizeste isso. Acaso julgas que uma boa alma se compra ou se rouba?

Logo a seguir fez-se ouvir um riso estridente da feiticeira.


-Incauto! Perdeste tudo e perdeste-te a ti. E porquê? Por um rabo de saia? O amor é para os tolos. – E rindo a bandeiras despregadas, a voz desapareceu.


Aterrado, Alexander balbuciou:

-Mas tu disseste que tudo aconteceria naturalmente.


Contudo foi o rapaz de coração de ouro e alma cristalina que lhe respondeu.

-Sim, e aconteceu. Ao encontrar Nathalie despertei nela o sentido do amor verdadeiro. Nathalie foi criada por ti mas não tinha um coração para amar. No entanto ela é uma parte de ti mas ao encontrar-me aconteceria a fusão com a alma cristalina e o coração de ouro. Agora que atentaste contra a vida o poder de criar já não é mais teu. – E dito isto o rapaz afastou-se, partindo para a floresta.


Alvoraçado e incrédulo, Alexander procurou tintas e pincéis nos escombros, tentando pintar. Porém, após o raiar de um novo dia, nada se transformou.


Agora estava sem dom, sem amor, sem tecto, sem bens, se casa, sem nada.


O jovem pintor vagueou chorando e soluçando dias a fio as suas mágoas e penas. Só queria morrer e após caminhar exaustivamente, deixou-se cair no solo, onde mergulhou num estado febril. Prdeu a noção do tempo.


Assim permaneceu, definhando. Não procurou ajuda, mas também não o podia pois encontrava-se demasiado fraco.


Ali perto ouvia-se rumorejar das águas de um rio, as folhas das árvores dançavam ao sabor do vento produzindo um som fresco; alguns pássaros trinavam nas redondezas.


Por entre os seus olhos enevoados, Alexander julgou vislumbrar umuma silhueta masculina; assemelhava-se a o rapaz de ouro e alma cristalina, contudo parecia rodeá-lo uma auréola luminosa. O rapaz ajudou-o dedicadamente naquele momento de fraqueza e debilidade. Permaneceu o tempo necessário e para além da sua convalescença. Por fim o pintor já se encontrava restabelecido. Durante aquele período de tempo pouco haviam falado, mas a atmosfera entre os dois sempre fora leve e calmante. Porém Alexander pensara muito na sua vida e resolvera partir em peregrinação. Como que lhe lendo os pensamentos, o rapaz perguntou:


- Acaso desejas fugir de ti mesmo?


O jovem de cabelos negros olhou-o perplexo por uns momentos.


-Preciso pensar, encontrar-me. Porque estou vivo?... Qual o meu lugar aqui?... Porque nasci? Eu só queria…


As palavras morreram-lhe na garganta. Engoliu em seco.


- E Natalie?... – perguntou o rapaz suavemente.


- Natahalie está perdida para sempre! – Os seus olhos negros encheram-se de lágrimas - Ela já não está mais entre nós e a culpa é minha! Nathalie está perdida para mim. Não a mereço. Mas também não consigo viver com esta dor. De ora em diante viverei só para expiar as minhas culpas e longe daqui.


E virando-se lentamente para o companheiro, acrescentou:- Apesar de eu não merecer, sei que és especial e podes ajudar-me a concretizar esta minha decisão…


- Alimentares mágoas e culpas não te vai trazer paz interior, nem é o melhor caminho. Contudo respeito a tua decisão. A partir de hoje correrás mundo levando contigo o coração de ouro. Nathalie não está perdida e o Poder Maior conceder-lhe-á a Alma Cristalina e voltará a viver. Nada mais te posso dizer sobre ela. A não ser que consigas fazer a Verdadeira Reunião.

Tal como previsto o ex-pintor correu mundo. Durante anos percorreu países onde a neve era uma constante e outros onde o estio se perlongava; palmilhou montes, montanhas e vales, planícies e planaltos; atravessou rios, lagos, mares e oceanos; conheceu bosques, florestas e desertos.


Ao longo dos tempos conheceu também pessoas de todos os géneros e raças e culturas, sempre sentindo o seu coração de ouro agir como um magneto nesses encontros. Ao início isto parecera-lhe estranho pois ele sempre fora adverso à convivência, mas com o passar dos anos e das aprendizagens, sentia-se unificado com este.


Havendo decorrido 20 anos, Alexander estabelecera-se há cinco anos no Oriente, num Oásis com uma povoação considerável, alojada. Tornara-se vendedor de tecidos e trajava-se como os demais. Apesar do seu ofício, muitas pessoas vinham pedir-lhe conselhos e ouvi-lo falar. A sua fama espalhou-se por terras longínquas. Forasteiros vinham ouvi-lo falar e pedir orientações.


Um dia ouviu-se falar de uma peregrina que teria o dom de curar as pessoas.


Essa peregrina acabou por ocupar lugar como sacerdotisa num tempo na periferia do Oásis. Porém a mesma não era bem vista pela comunidade que murmurava entre si se ela seria realmente uma curandeira ou na verdade uma maga. Dizia-se que os pacientes que a visitavam voltavam fascinados, principalmente os homens.



Isto causou burburinho entre o povo, especialmente nas mulheres e mães de família. Os falatórios rápido subiram de tom. Alexander tentava acalmar o povo que se reunia em ajuntamentos no mercado local. Não conhecia a dita mulher contudo sentia-se no dever de trazer a harmonia e o bom senso à população. Porém desta vez ninguém deu-lhe ouvidos. As desavenças multiplicavam-se em tom crescente até que num dia em que o sol brilhava numa intensidade chamejante, o tumulto aconteceu. Homens viraram-se contra mulheres, famílias discutiam, amigos defrontavam-se, até o caos se instalar definitivamente no mercado. Alexander assistia a tudo estarrecido Os confrontos tornaram-se de tal forma incontroláveis que fizeram deflagrar um incêndio que se propagou por todo o Oásis!


Em pânico centenas de pessoas fugiam para o deserto, tentando salvar haveres e outros conterrâneos. O terror gerado pela violência das labaredas, causara um efeito de choque, levando todos os habitantes à atitude de união. Alexander certificou-se que todos saiam a salvo.


De repente lembrou-se da peregrina. Estaria ainda no Templo já tomado pelas chamas? Correu para lá, cruzando-se com o último grupo de pessoas em fuga. Um dos membros desse grupo, um mendigo, ao vê-lo dirigir-se para o Templo exclamou:

-Vais salvar a mulher de Alma Cristalina? Então tens de correr como o vento. – Alexander esbugalhou os olhos ao som destas palavras.

Seria possível?...


No interior do Tempol, já deserto, encontrou Nathalie desanimada, pegou nela e correu lesto dali. Já fora do alcance das labaredas estacou esbaforido, ansiando que ela acordasse, insuflando ar para os seus pulmões e ela aos poucos voltou a si.


Felizes pelo reencontro conduziram o povo pelo deserto onde a certa altura depararam-se com o rapaz de coração de ouro e alma cristalina.

-Sou um Anjo. – Revelou este – E venho conduzir-vos para a Nova Terra.


Todos exultaram e enquanto o anjo estendeu uma tela, pincéis e uma palete a Alexander, dizendo a este para pintar.


Então o pintor criou uma belíssima cidade como um arco-íris, cuja entrada era uma gruta. Tudo apareceu imediatamente ali no Deserto.


Extasiados e felizes todos festejaram, enquanto Alexander e Nathalie agradeciam ao anjo. Este presenteou-os com uma bola de luz e sorrindo disse:

-Agora sim, está efectuada a fusão do coração de ouro e da alma cristalina porque vocês se reencontraram e estão prontos para se unirem como casal nesta cidade paradisíaca. – E dito isto voou para longe enquanto o casal lhe acenava de mãos dadas.


FIM

Autoria de Florbela de Castro


Link da 1ª parte:
http://artlira.blogspot.pt/2011/11/conto-o-pintor-de-quadros-1-parte.html


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domingo, 6 de novembro de 2011

Conto: "O Pintor de Quadros" - 1ª parte - de Florbela de Castro





Nos tempos da Renascença, onde florescia a arte, vivia na Rússia um jovem de origem modesta, que almejava ser pintor. O seu nome era Alexander.

Alexander era magro, de estatura média, pele quase cor de baunilha pálido, olhos amendoados e negros como os seus cabelos ondulados, usava bigode fino e pera.

Apesar de bonito e em idade casadoira, Alexander não arranjava pretendentes, pois interiormente era uma pessoa um pouco fechada e abrupta.
Alexander tinha um sonho: tornar-se um pintor famoso. Porém não tinha posses para frequentar uma academia, nem conhecimentos influentes para se tornar pupilo de algum mestre famoso. Os seus pais também reprovavam essas atividades e apesar do filho ser detentor de um dom nato não o incentivavam a pintar. Ao início Alexander pintava e desenhava às escondidas, mas após seus pais descobrirem, foi instado a abandonar os seus sonhos.

No presente momento, Alexander ficara órfão e como era filho único, sem família, conjecturou voltar a pintar. E como faria para arranjar dinheiro para os materiais? Cedo arquitectou uma forma. Foi vendendo o recheio da casa até quase a esvaziar. A seguir foi pondo mãos à obra, noite e dia, e produziu um quadro de natureza morta. Estava maravilhoso; Alexander admirou até altas horas e por fim adormeceu sonhando em ganhar um bom dinheiro com este.

No dia seguinte acordou bem cedo para ir para a feira levando a sua obra debaixo do braço. A feira estava apinhada, com banca de doces, tecidos, hortaliças, pratas, tamancos e uma profusão de pessoas.

Enquanto se dirigia ao local para vender o seu quadro, Alexander sentia fome e já sonhava deliciado com o deglutir de uma nêspera sumarenta e de um pão com queijo. Ao caminhar tropeçou em várias frutas e até ouviu uma peça de vidro fragmentar-se em mil pedaços "Estes mercadores se não têm cuidado só verão prejuízos no final do diz", pensou ele. Finalmente alguém lhe perguntou o que ele levava ali. Tratava-se de um casal de uma certa idade e de aspecto abastado. Talvez fosse algum meirinho.

-Este quadro retrata uma maravilhosa taça de cristal adornada de belos frutos - anunciou Alexander, virando a tela para o casal de meia idade.

Os seus rostos ficaram sem expressão ao fitar aquela obra enquanto o jovem pintor ostentava um sorriso triunfante. à medida que o abastado cliente transfigurava a sua expressão curiosa numa de ira, o sorriso de Alexander desmaiava no seu rosto.

-Patife! - vociferou o velho - Tomais-me por idiota?? Como ousas querer enganar-me!?

-Enganá-lo, senhor?... - o jovem artista estava perplexo - Se a minha tela não vos agrada... - foi interrompido pelos sorrisos e gargalhadas de sarcasmo de uns e os impropérios iracundos de outros.

Só então o pintor olhou para a sua tela e o que viu fê-lo empalidecer de espanto. Nada havia ns mesma a não ser um fundo castanho escuro que ele tão primorosamente pintara. Mas...como era aquilo possível??...

Alexander estava desnorteado, contudo teve de fugir lestamente para não ser atacado pela multidão. Derrotado e esfomeado, chegou a casa sem compreender o sucedido. Pensou, pensou e por fim adormeceu angustiado, pois dormir já era meio sustento. Ao acordar de manhã uma interrogação tomou forma na sua mente: A taça que se partira e as frutas pelas quais tropeçara na feira seriam as do quadro?

Assomou-lhe então uma ideia à cabeça e sem mais delongas pôs-se a esboçar um quadro onde o tema era uma lauta refeição. Terminou-o já noite alta e extenuado e enfraquecido adormeceu. Acordou de manhãzinha com uma mesa farta e deliciosos aromas. Sim, mesa que ele nem sequer tinha mas que havia desenhado, adornada de uma vistosa toalha vermelha. Vitorioso Alexander atirou-se à bela refeição esfaimado.

A partir dali, ele passou a desenhar as suas refeições diárias e voltou a mobilar a sua casa. Tentou ser discreto com a vizinhança, fazendo-os acreditar que vendia os seus quadros numa vila longínqua. Passaram-se longos meses. O dom tomara a cabeça de Alexander. Este afastara-se da aldeia e, entrando na floresta, havia desenhado um belo palacete com um luxuoso palacete. Depois, criados, belas carruagens e cavalos, magnificas roupas.

Haviam-se passado três anos. Apesar da criadagem, sentia-se só. Lembrou-se então de desenhar uma mulher.



Três dias gastou a desenhar, pintar e aprimorar uma bela mulher. No final Alexander mirou o quadro satisfeito, sentindo-se um Deus, pois brevemente teria a sua Deusa nos seus braços. Aliás, passou o resto do dia admirando a sua obra e a bela mulher; até fez as suas refeições nos seus próprios aposentos para não desfitar os olhos da pintura. Bem sabia que no dia seguinte ela ganharia vida.

Tentou deitar cedo, mas custou-lhe a adormecer. Finalmente mal abriu os olhos, saltou da cama e e deparou-se com a formosa mulher. Esta era de estatura média, delgada, de olhos claros esverdeados, cabelo escuro e ondulado, de beleza delicada mas selvagem; tão genuína era a sua essência que não parecia ter sido inventada por um pintor mas sim diretamente criada por fonte divina.



Alexander permaneceu de olhos esbugalhados a contemplar a linda mulher e imediatamente se viu apaixonado por ela.

A partir daquele dia o homem tornou-se um delicado companheiro da bela Nathalie, de seu nome; presenteava-a com os mais belos vestidos, tecidos, toucados, jóias e perfumes. Brindava-a com finas iguarias, exóticas frutas, deliciosas sobremesas. Conversava e passeava com ela à noite...na realidade, Alexander monologava pois a mulher permanecia sem emitir qualquer som desde que surgira.

Mas o homem, louco de paixão, nem se parecia importar com isso. Por ela pintou mais retratos, casas, jardins, o mundo...Contudo a jovem permanecia calada e reservada, suspirando de vez em quando.

Alexander bem via que a sua paixão não era correspondida e que nada fazia feliz a sua Nathalie. Isso também o deixava infeliz. Porém a paixão dominava-o e só o fazia teimar na sua conquista. Febrilmente pintava presentes magníficos, manjares deliciosos, luxos ostensivos continuamente, mas nada disso trazia o amor de Nathalie…

Desesperado, um dia, interpelou a linda moça do que fazer para a conquistar.

Esta, por fim, respondeu-lhe em voz clara e límpida.

-Amarei aquele que tiver uma alma cristalina e um coração de ouro.

Esta resposta deixou Alexander confuso. Uma alma cristalina?... Um coração de ouro?... Como pintar isso?...

Passou semanas errático e cismático, acabrunhado por não saber como pintar aquilo e torná-lo seu.

Até que um dia ouviu falar numa velha feiticeira que vivia na orla da floresta e resolveu visitá-la apresentando-lhe todo o seu caso.

Esta deu uma gargalhada e disse que a fama de Alexander precedia-o. Pausadamente falou que tinha a solução para ele. A três aldeias dali vivia um rapaz de coração de ouro e alma cristalina e que Alexander só precisava ir buscá-lo e assinar um pacto com ela, lacrado com o seu sangue. Excitado mas ainda confuso, o pintor tartamudeou como iria reconhecer o rapaz e como iria conseguir transferir o que ele queria para ele mesmo.


A velha estendeu-lhe uma pulseira de diamante afirmando que esta brilharia intensamente mal ele se acercasse do rapaz e que à vista desta, o pobre rapaz perderia a reação dando espaço para o pintor lhe colocar a pulseira, fazendo segui-lo fielmente.

-Quanto ao resto, tudo acontecerá naturalmente – respondeu a velha misteriosamente e já atarefada com a elaboração escrita do pacto.

Alexander não imaginava o quão malogrado se tornava naquele momento.

Link da 2a parte -final: 

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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Açucena: CHAPTER IX - 1ª Temporada - de Florbela de Castro


Édouard abriu os olhos vagarosamente e deparou-se com o tecto de vigas escuras e carcomidas. O braço e nu e feminino de uma mulher enlaçou-o. Olhou-a meio impaciente. Mulheres!
Interessavam-lhe para seu bel-prazer, mas após determinado tempo tornavam-se incomodativas. Charlotte não era excepção.
Ergueu-se com gestos bruscos fazendo menção de se vestir.
-Já vais? – A voz feminina soou magoada e os seus olhos enchiam-se de lágrimas. - … E as crianças?...
-Detesto este tipo de cenas! – Cortou Édouard agreste.
Já vestido foi secundado por ela até ao exterior onde, antes de montar no seu belo alazão, pegou no queixo dela e beijou-a.
-Quando puder, volto. – E sem mais delongas partiu a galope.
Charlotte era fascinada por Édouard. Este achava-a bela e satisfazia-lhe a ideia de que a tinha à sua inteira disposição, submissa e doce, completamente subjugada. Contudo, com ela não sentia o mesmo do que com Açucena, a sua bela esposa. Esta despertava-lhe o desejo de uma forma mais viva.
O duque sorria interiormente, comparando-as mentalmente e revivendo os seus momentos de luxúria com cada uma.
O sol subia no horizonte, causando canícula. O meio-dia acercava-se.
Passando por um riacho decidiu apear-se e lestamente despiu as suas vestes, pronto a entrar nas águas frescas e cristalinas do caudal. Parte do arvoredo descia quase tocando no purificador líquido, adornando as margens serpenteadas.
Entrou, mergulhou, sentindo-se imediatamente revigorado. Satisfeito deu umas braçadas fortes, mergulhando novamente e emergindo. No seu campo de visão desenhou-se o que ele julgou ser uma ninfa: cabelos cor de fogo e pele nimbada; a bela figura banhava-se como uma Afrodite nas águas.
A formosa jovem, que não era nada mais que Evelyn, que olhou  igualmente surpreendida a esbelta aparição masculina. A mulher não sentiu pudor de ser assim mirada por um homem desconhecido; o género masculino não a assustava nem a domava, pelo contrário. Quase imediatamente uma atracção brotou entre os dois, como uma força da natureza.
Édouard foi apanhado de surpresa por aquele novo sentimento; só gostava de Açucena; às outras mulheres achava-lhes graça, atraiam-no, mas tratava-as como joguetes. Mesmo Charlotte, que fora um pouco a excepção à regra, não conseguia segurar o duque estroina.
Os dois miravam-se fogosamente e quase ao mesmo tempo caminharam em direção um ao outro. Pararam, sustendo a respiração. A água escorria do corpo de Evelyn, tal como do corpo de Édouard, fazendo com que os seus corpos reflectissem as gotículas como cristais ao sol. Perplexo, este viu a ruiva desconhecida rodeá-lo com os seus braços e fundir-se num beijo profundo.
Mais do que o seu corpo estremecer, estranho foi o que sentiu no seu peito: Primeiro um aperto, um pulo, depois uma abertura, uma dor que se expandiu num bem-estar infinito. 
O que era aquilo?
Pela primeira vez Édouard sentiu algo de novo. 
Pela primeira vez Édouard olhou para o interior de uma mulher.      
E pela primeira vez sentiu que devia frear-se.
E freou-se. 
Docemente. Suavemente. 
Ela entendeu e sorriu.


Link da 8ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-viii_30.html
Link da 10ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2014/06/acucena-10-capitulo-2-temporada-de.html


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Autor da imagem: Heise Jinyao

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Açucena: CHAPTER VIII - 1ª Temporada - de Florbela de Castro



No dia seguinte, Miss Klaus surgiu pontualmente na sua carruagem para a ir buscar. Chegadas ao convento, elas entraram e percorreram os claustros. Após chegarem às traseiras do edifício, Philippe esperava-a acompanhado de um frade. Este último cumprimentou respeitosamente Miss Klaus e retiraram-se sem mais delongas.
Philippe, delicadamente retirou o capuz da sua capa e fez o mesmo ao de a Açucena, fitando-a nos olhos, intensamente. A mulher sentiu um arrepio perpassar-lhe todo o corpo, da cabeça aos pés. Silenciosamente o príncipe conduziu-a por uma pequena porta lateral, percorrendo vários corredores até a um compartimento de paredes nuas, unicamente com uma mesa, duas cadeiras e uma cama. Sentaram-se nas cadeiras. Philippe encarou-a profunda e continuamente; os dois contemplavam-se; enquanto Açucena não conseguia desviar-se quer dos belos olhos azuis quer dos seus lábios rosados e carnudos, enquanto ele engolia em seco.
Inesperadamente, Philippe tomou-a nos braços e beijou-a ardentemente. Açucena sentiu como uma descarga eléctrica percorrer todo o seu corpo; o beijo tocava-lhe até à alma. À medida que suas línguas se tocavam, sentiu também o homem estremecer mais que uma vez. O abraço dele tornou-se mais lânguido e masculino. Ela, um pouco assustada, tentou parar, mas ela própria não conseguia controlar o que sentia, rendendo-se aos encantos do seu amado.
O amor por Philippe abria-lhe o coração com violência; sentia que lhe pertencia desde sempre.
Num abrir e fechar de olhos, pegou nela, pousou-a na cama e despiu a parte cima do seu uniforme. A jovem mulher sentiu as pernas fracas, pois sabia o que aqueles gestos significavam, mas não conseguiu conter as suas mãos e numa troca de carícias se foram desnudando. Depressa, o alto e musculado homem, a possuiu com muito amor e paixão avassaladora. Açucena nem queria acreditar que pudesse haver tanto amor num acto daqueles.
Depois de a deitar em seu peito, Philippe fitou-a com um olhar que ela nunca vira antes.
-Amo-te tanto, meu amor! – Exclamou ele beijando-a mais uma vez. – És a mulher da minha vida, o sol da minha alma, a luz do meu olhar.
Açucena incrédula não cabia em si de extasiada, de felicidade.
Apaixonados, uniram novamente os seus corpos numa troca de promessas e juras de amor eterno. No final permaneceram quietos uns momentos, Philippe enlaçou-a com um braço e disse na sua voz grave mas suave:
-Foi maravilhoso. Há muito tempo que eu esperava por este momento. Sempre te amei. Estou feliz por finalmente ser correspondido. – E encostou a sua testa na dela.
-Eu também te amo muito…eu lutei contra o meu amor por ti…eu não estava preparada…nunca pensei que pudesses andar…fui cruel para ti… - A expressão de Philippe tornou-se dorida e engoliu em seco.
Ergueu-se vagarosamente e olhou-a do alto.
-Sim, foste cruel. Mas não foi por isso que deixei de te amar. – Tentou adoptar uma ar e atitude casual e desviando o assunto e o olhar, começou por contar todo o seu percurso durante estes sete anos.



Link da 7ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-vii.html~
Link da 9ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/07/edouard-abriu-os-olhos-vagarosamente-e.html


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Açucena: CHAPTER VII - 1ª Temporada - de Florbela de Castro



Açucena olhava para a sua imagem no espelho: usava um vestido de seda e gaze rosa velho, vaporoso e brilhante; o decote embelezava o busto e o colo era adornado por um maravilhoso colar de pérolas rosa. O cabelo encontrava-se preso, no alto, numa chuva de anéis por entre a tiara, igualmente de pérolas.
O aristocrata até recuou, imperceptivelmente, quando a encarou. Estendeu-lhe o braço concedendo-lhe a primazia para entrar no coche.
No pátio do palácio foram encontrar imensas carruagens, coches e liteiras. O paço real encontrava-se iluminado e engalanado. Pajens e criados encontravam-se junto às escadarias para receber as estolas e capas dos ilustres convidados.
O salão encontrava-se repleto de belas damas e gentis-homens vestidos em trajes de festa; alguns destes usavam uniformes militares.
Seguiu-se uma série de cumprimentos que incluíam a vénia e saudação ao casal real. Os reis receberam-nos com cortesia e algum afeto, felicitando-os pelo nascimento do rebento. Porém, ao olhar de águia do monarca não escaparam os olheirentos da duquesa e alguns vestígios de marcas roxas disfarçadas pela maquilhagem. Perguntou ao duque de Antigny o porquê daquelas marcas, ao que este respondeu, rapidamente, ter-se tratado de uma queda desastrada dela. O rei calou-se conjecturando em silêncio. Contudo foi interrompido por alguns nobre que lhe perguntavam pelo príncipe de Angelis.
Édouard aproveitou-se para voltar-se para Açucena apertando-lhe o pulso; sussurrou entre dentes instando-a ao silêncio. De seguida integrou-se num grupo de fidalgos que percorriam os corredores reais até à sala de jogos, onde já se formavam grupos para jogar.
A bela duquesa ficou como sempre abandonada no meio do salão. Esta decidiu recolher-se a um canto e aproximou-se de um dos balcões para tomar ar. Um mordomo acercou-se com uma bandeja e ela foi mordiscando algo. Algumas senhoras nobres entretiveram-na com breves conversas frívolas, às quais ela só prestou metade da sua atenção.
Apercebeu-se ao longe que o tal príncipe chegara e, pelos vistos, parte do baile era em sua honra. As damas riam-se em burburinho, suspirando e tagarelando o quão belo, poderoso e bom partido era aquele convidado real, que pelos visto não era ainda casado. Açucena encolheu os ombros esgueirando-se pelo salão como podia e evitando os casais que se formavam no centro para valsar. Quase se chocou com uma alta figura masculina de uniforme militar; ergueu o seu rosto a fim de se desculpar e ficou petrificada.
Na sua frente erguia-se um atlético homem, que rondava um metro e noventa e trinta e poucos anos; o seu rosto de traços másculos era quase dourado clarinho, de belíssimos olhos azuis expressivos e cabelos muito louros e escorridos.
Philippe!
Do rubor inicial, a bela mulher passou para a palidez e sentiu uma vertigem. Não podia ser! Os seus olhos pregavam-lhe partidas. Permaneceu hirta, gelado, de olhos esbugalhados. Um sentimento de amor trespassou-lhe o coração.
O belo homem fitava-a aparentando um semblante sereno, mas Açucena apercebeu-lhe os olhos marejados de lágrimas e uma névoa de mágoa toldar-lhe o olhar. O príncipe engoliu em seco enquanto o amor tomava conta do seu peito.
Alheios ao choque profundo daqueles dois seres, um aristocrata apressou-se a fazer as apresentações.
-Príncipe Philippe de Angelis, a duquesa Açucena de Antigny.
Articularam cumprimentos e vénias enquanto entre os dois se levantava um clima de embaraço. Philippe, para os salvar daquela situação convidou-a para dançar. Depressa se misturaram entre a multidão que dançava. Os dois não tiravam os olhos um do outro, num perfeito arrebatamento de amor. Açucena sentia-se nas nuvens: Philippe a andar! Mas como??
-Estás tão linda! – A voz do príncipe tão varonil soou apaixonada e embargada.
A duquesa sentiu-se desfalecer. Ele agarrou-a com mais força, apertando-a nos seus braços.
-Sim, sou Philippe.
-C…co...como? ... – Conseguiu articular ela, mas a voz morreu-lhe na garganta.
-Um milagre de Deus. – Respondeu-lhe como que adivinhando. – Recuperei a mobilidade, o vigor, a destreza e muito mais…Sempre fui príncipe mas o trono da minha família havia sido usurpado por uma família rival que conspirou contra nós.
A dama bebia-lhe as palavras fixando-se nos lábios dele. Imaginava-se a beijarem-se cheios de uma paixão avassaladora. Encontrou o olhar doce dele que perscrutava o seu rosto e sentiu-se ruborizar.
-Parece que te perturbei com a minha presença, o nosso encontro. Não sabia que produzia esse efeito em ti.
-Philippe…eu…pensei muito estes anos todos…eu sinto…eu nunca imaginei… - Titubeou ela e a voz morreu-lhe novamente na garganta.
No entanto os seus olhos gritaram ao homem louro o quanto ela o amava.
-PHILIPPE! – Soou uma estridente e feminina voz, um pouco alcoolizada. – Não sejas desmancha-prazeres! Já dançaste três valsas com a mesma dama.
E praticamente arrancou o nobre dos braços da duquesa. Pendurou-se no braço dele, segredando-lhe algo ao ouvido, com as mãos em concha.
O homem endireitou-se à medida que escutava e após breves momentos sério, afivelou um sorriso de circunstância, fez uma vénia de despedida e bailou com a desconhecida.
Açucena reparou então que alguns aristocratas a olhavam murmurando e disfarçando sorrisos. Por isso não teve outro remédio se não afastar-se e misturar-se com os demais.
Disfarçadamente ficou a observar ao longe Philippe com aquela mulher.
A duquesa fitou-a, analisando o seu porte. Os cabelos de Miss Klaus eram ruivos e longos, em perfeitos anéis, pendendo-lhe sobre o busto. Os seus olhos eram de um tom esmeralda reluzente e atractivos, a sua tez de um branco imaculado e angelical que contrastava num vestido de seda natural em verde água, evidenciando o corpo curvilíneo, sedutor.
O alto homem de uniforme, parecia divertir-se imenso com ela e ia deitando um olhar furtivo a Açucena. Esta sentia uma ponta de ciúme a tomar conta do seu coração.
A festa prosseguiu pela noite dentro. Porém o príncipe retirou-se cedo, alegando afazeres inadiáveis. Açucena teve de ficar à espera que o marido regressa-se da sala de jogos. Algo dentro dela lhe dizia para não revelar ao marido a verdadeira identidade do príncipe.
Édouard acabou por levá-la para casa sem saber ou ter conhecido o príncipe.
Na noite seguinte, a duquesa encontrava-se pronta para se retirar para os seus aposentos, quando surgiu Francine com um ar agitado e misterioso. Édouard havia-se deslocado novamente ao salão de jogos.
-Que se passa, Francine?
-Está aqui uma dama para a ver…
-Eu já vou, mas de quem se trata? – Indagou Açucena intrigada pelo adiantado da hora.
-Miss Klaus
O nome era-lhe completamente estranho. Esta desceu para o andar inferior, decidindo receber a ilustre desconhecida na sala de música; qual não foi o seu espanto quando se lhe deparou a mesma jovem que acompanhava Philippe no baile!
Uma ponta de ciúme invadiu novamente o coração da duquesa. A sua mente já fervilhava: “O que quererá essa mulher comigo? Pedir para afastar-me de Philippe?”
Só esta conjectura, causou uma dor no seu peito. Sentiu pânico. Talvez fosse melhor não receber a dama…sim…dar uma desculpa…porém, enquanto pestanejava atordoada com o que lhe assomava ao pensamento e coração, a jovem Evelyn vira-se.
Após os cumprimentos iniciais e de Evelyn ter aceite chá e bolinhos, Francine deixou-as. Então Miss Klaus abandonou o seu ar de circunstância e frívolo, adoptando um semblante grave.
-Venho aqui em nome do príncipe Philippe. – Confidenciou ela, num quase sussurro e enquanto Açucena a fitava confusa, Evelyn estende-lhe uma missiva. Por seu turno, o olhar de Evelyn, quase imperativo, instava-a a ler. A duquesa abriu a missiva e o seu coração pulou ao ver a letra de Philippe.
«Açucena, é necessário que nos encontremos. Temos muito que conversar. Vai ter comigo amanhã nos claustros do Convento.
Philippe»
Açucena olhou Evelyn perplexa. Esta como que lhe adivinhando os pensamentos, redarguiu:
-Sou amiga de Philippe e estou aqui para vos ajudar. Philippe ama-a e voltou por si, porque não a consegue esquecer. Vocês têm de se encontrar.
Açucena sentiu uma vertigem ao ouvir aquelas palavras e concordou debilmente. No resto do tempo, Evelyn explicou como conhecia Philippe e sua família. Por fim retirou-se dizendo que voltaria no dia seguinte.
Açucena deitou-se na sua cama voando com o pensamento. Philippe não a esquecera! Philippe amava-a! Philippe voltara por si! Todas estas afirmações gritavam comovidas no seu cérebro. Deu-se conta que sorria feliz, cheia de esperança. Finalmente as emoções venceram-na pelo cansaço. 




Link da 6ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-vi.html
Link da 8ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-viii_30.html


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Açucena: CHAPTER VI - 1ª Temporada - de Florbela de Castro



Édouard passeava impaciente pela ante sala dos aposentos da esposa. Apertava os lábios e mantinha o sobrolho franzido. Açucena já perdera duas crianças. Em parte por conta da sua brutalidade para com ela, mas também porque os rapazes não vingavam no ventre dela.
Apesar disso Édouard sofria porque ansiava um filho varão.
Açucena! Édouard era obsessivamente apaixonado por ela. Para ele, ela era tão desejável que todos os homens a cobiçavam e isso deixava-o louco. Não podia suportar nem admitir isso; pensar que ela podia gostar ou interessar-se por algum outro. Olhou para trás quando ouviu um choro de criança. O seu rosto iluminou-se. Pouco depois Francine aparecia com um embrulhinho e este olhou para o rosto vermelhusco do recém-nascido.
-É uma menina senhor duque. – Anunciou Francine quase num sussurro. E graças a Deus está muito bem…
Édouard fez um trejeito desinteressado e desiludido saindo desabridamente da ante sala e invadindo o quarto da esposa. Olhou-a sentindo piedade e ternura pela sua frágil figura, exausta pelo esforço. Porém fez tudo para afivelar um ar arrogante.
-Como…como estás?... – A sua voz grave soou mais suave que o pretendido.
A esposa olhou-o com a vista pesada, respondendo que estava bem e quase imediatamente adormeceu de cansaço. O homem mirou-a por uns minutos e inclinou-se beijando-lhe a testa; Fitou-a novamente, fascinado pela beleza dela e beijou-a nos lábios saindo de seguida dos aposentos.
~~*~~
Édouard entrou de rompante na divisão em que ecoava um choro de bebé.
-Alguém cala essa fedelha!?
Açucena acorreu pressurosamente e lesta ofereceu o seu seio ao minúsculo ser, que o agarrou avidamente sossegando. Édouard olhou para a cena enciumado.
-Nunca a largas! Estás sempre agarrado a esse bebé! – Resmungou contrariado.
-Se a largo ela chora. Ela é muito pequenina. – Redarguiu Açucena suavemente para o marido, mas beijando a bebé. – A nossa filhinha precisa de cuidados…
-Existem amas para cuidar dela! – Ele ripostou com veemência. – Eu quero-te ao meu lado a cuidar de mim! Além do mais logo vamos ao baile do Rei!
Esta e Francine encararam-no atónitas. Haviam tão poucas semanas que ela dera à luz e ainda não estava totalmente recuperada mas o fidalgo não estava com meias medidas para negociar. Necessitava da influência dos monarcas para minorar as suas dívidas.
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domingo, 13 de março de 2011

Açucena: CHAPTER V - 1ª Temporada - de Florbela de Castro


Açucena abriu os olhos com o sol a irromper-lhe pelas janelas. O dia já raiara, iluminando o quarto pois os pesados reposteiros nem sequer tinham sido cerrados.
A sensação de desalento já era sua companheira há muito tempo. Levantou-se maquinalmente do toucador. O espelho devolveu-lhe a sua face pálida, magra, de olhos encovados. Ao lavar-se e empoar-se recordou as nódoas negras que tinha de disfarçar. Apesar de franzina, notava-se a sua avançada gravidez. Era já a terceira. O primeiro filho não vingara e na segunda gravidez perdera a criança ao quinto mês após uma grande desavença com o marido. Édouard! Só de pensar nele, o seu coração bateu descompassado de medo. Este não se encontrava no paço, provavelmente sairá para uma noite de jogatina, ou estava com alguma das suas amantes.
Olhou novamente para a sua cara no reflexo do espelho; ia ser impossível disfarçar o inchaço daquele olho. Suspirou. Quase sentia alívio ao pensar que o marido podia estar com uma amante. Era quando vinha mais calmo.
Bateram à porta do aposento. Devia ser a criada anunciando a visita de mais um credor. Efetivamente era a criada, mas trazendo uma missiva; tratava-se de um convite para um baile no palácio Real dali a cinco semanas. Suspirou. Mais endividamentos e fingimentos em prol dos favores do Rei. Teria ela própria de costurar uma indumentária para o evento. Mas nem tecidos tinha. Talvez desse para reformar algum vestido mais antigo.
Chamou de novo a criada e com voz cansada combinou os arranjos. A criada olhou-a de alto a baixo, com ar reprovador mas amigável e disse:
-A senhora acha que está em condições de ir a algum baile? Mal se segura em pé!
-Francine, sabes perfeitamente que se eu fizer menção de não ir, Édouard arrasta-me nem que seja pelos cabelos…Sem mim ele perde influência junto ao Rei…
Açucena era muito querida pelos monarcas e já conseguira alguns favores e indulgências reais que os tinham salvo da ruína. Contudo sabiam que até a paciência do monarca tinha limites. Suspirou. Naquele momento ouviu-se o trote dum cavalo e um vozear no pátio. Era Édouard que chegara. Açucena ficou logo agitada.
Nos primeiros meses do casamento Édouard ainda fora minimamente gentil com ela. Contudo, com o tempo, tornara-se ébrio e batia-lhe com alguma frequência, tendo acessos de ciúmes totalmente infundados.
Açucena sofria muito e durante aqueles 7 anos, pensara frequentemente em Philippe. A lembrança dele trazia-lhe conforto, alento e força para ir enfrentando o momento presente e os piores momentos. Também guardava uma caixinha de música que Philippe lhe oferecera poucos anos depois de se mudar para o bairro dela. Philippe! Nunca mais soubera dele. Não sabia sequer se estava vivo ou morto. Mas preferia pensar que estava vivo, pois o contrário como que lhe tirava a vontade de continuar viva. Sim, ela sentia em seu coração que ele estava vivo. Às vezes, quando Édouard a surrava, nomeava Philippe e o amor que o professor lhe devotava, enchendo-os de impropérios.
Açucena recordava as lições do loiro professor com saudade e afeto. Não, mais que isso: com amor. Após todos aqueles anos percebera que a doença de Philippe era irrelevante. Agora, entendia tudo o que ele lhe tinha tentando transmitir na altura. Rememorava a declaração de amor de Philippe com doçura e o seu quase beijo com enleio. Como fora tonta e ingénua!
Gentilmente pegou na caixinha de música que o louro homem lhe oferecera e ficou a ouvi-la com ar doce. Sim, ela amava Philippe.
-Sentada à minha espera? – A voz de Édouard soou arrastada e irónica vinda da porta do aposento.
-Sim meu querido. – Devolveu-lhe ela com voz sumida.
Olhou-o de soslaio. Ele continuava extremamente atraente. Édouard avançava lentamente até ela, olhando-a vorazmente. Açucena ainda não se tinha vestido. O marido agarrou-a abruptamente, beijando-a sem cerimónia. Esta debateu-se um pouco devido à brusquidão. O duque atirou-a para cima da cama com violência. Açucena chorava suplicando-lhe para ele ser gentil.
-És minha! Pertences-me! – Rugiu ele fitando-a duramente. – Eu, como teu marido, possuo-te como e quando eu bem entender!
Açucena gritou com a dor. Confuso Édouard olhou para os lençóis alvos que se encharcavam com um líquido viscoso e avermelhado. A bolsa das águas rebentara e a mulher entrara em trabalho de parto.



Link da 4ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-iv.html
Link da 6ª parte: http://artlira.blogspot.pt/2011/05/acucena-chapter-vi.html


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Açucena: CHAPTER IV - 1ª Temporada - de Florbela de Castro


Era noite alta. As bodas já haviam decorrido e as festas estavam perto do desfecho, naquele momento, talvez Açucena e Édouard estivessem já na lua-de-mel.
A lua firmava-se alta e bem perto. Philippe encontrava-se perto das margens do rio, olhando para o seu caudal fixamente, sem no entanto nada ver, tendo como pano de fundo a sobriedade de um grande convento. Encontrava-se mergulhado em um estado de apatia e resignação alternando com uma tristeza silenciosa. Lágrimas escorreram-lhe pela cara. Ergueu o rosto totalmente para o céu e acabou por fechar os olhos.
Porque a vida o castigara assim? A dor de alma que o assolava era lancinante. Açucena! Tinha de a esquecer! Tinha de mitigar aquela dor. Mas como, se Açucena era a alegria da sua existência? Seria melhor que Deus o levasse naquele momento! O seu corpo era sacudido por soluços pungentes.
-Por favor, meu Deus, fá-la feliz! Eu troco a minha vida pela feliz existência da minha amada! Leva-me! Eu não aguento mais este sofrimento, que me despedaça o coração!
-Alto! Que fazeis meu filho? – a figura de um velho frade, magro e de barba pontiaguda como as nuvens, surgiu no seu campo de visão. – Qualquer que seja o teu sofrimento não vale perderes a tua alma, acabando com a tua vida.
Philippe encarou-o perplexo por uns momentos, mas depois retrucou, entendendo-o.
-Não senhor frade, o meu desejo não é matar-me, mas sim que Deus me leve!
E confessou ao frade todas as suas mágoas.
-Meu filho, compreendo a tua dor. O teu coração é puro, é genuíno e tens uma alma nobre e generosa, capaz de amar incondicionalmente. Essa jovem parece boa moça, mas ainda não aprendeu a defender-se das artimanhas mundanas. Tem fé que um dia a tua amada alcance a razão e dê valor ao teu amor. Há coisas que nem todo o ouro do mundo paga, tais como um amor e dedicação inabaláveis quanto os teus.
-Neste momento sou um homem amargurado; perdi a fé e a esperança e sinto-me um inútil.
-Filho, não te deixes afetar por essa dor de coração que te consome. Não permitas que ela te contamine a alma também. És filho de Deus e ele não abandona os seus.
-O meu coração está completamente estilhaçado. – Retorquiu Philippe com os olhos húmidos. – Preciso sair daqui, desta cidade, deste país…
-Pode ser que eu tenha a solução para ti. – Redarguiu o frade com a cara iluminada por um sorriso misterioso.




link da 3ªparte: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-iii.html
link da 5ªparte: http://artlira.blogspot.pt/2011/03/acucena-chapter-v.html

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Imagem da autoria de Jasmin Darnell.

Açucena: CHAPTER III - 1ª Temporada - de Florbela de Castro

Era véspera das bodas, a tarde caía. Apesar de ainda em convalescença, Philippe chamou uma charrete e dirigiu-se ao paço dos duques, a fim de parlamentar com Édouard.
Os dois homens encontraram-se nos jardins principais da propriedade. Édouard mirava Philippe com um misto de comiseração, altivez e inimizade. O atraente duque notava a beleza e porte do professor e considerou que, se não fora a cadeira de rodas, o pobre seria um bom partido… estas conjecturas atingiam o ego do vaidoso aristocrata, deixando-o um tanto arreliado. “Tolice! Philippe não possuía fortuna nem nada de seu.”
Philippe também mirava Édouard com apreensão. Bem via o quanto ele era sedutor e subjugador, pois esse atributos estavam como que gravados na fisionomia do moreno fidalgo. Alcançava agora, o quanto a inocente bem-nascida estava iludida e deslumbrada com aquele conquistador.
- Conheço a sua fama de valdevinos, Sr. Duque de … - Falou Philippe numa voz firme. – Venho lhe pedir que não faça mal a Açucena. Se for necessário desista do casamento. Açucena é uma mulher pura, delicada, honesta e ingénua. Ela…
Édouard interrompeu bruscamente com um sorriso de escárnio:
-Ora, ora, ora! Afinal a sua afeição por Açucena não é fraterna, Sr. Philippe! Muito nobre da sua parte vir até aqui vir defender a honra da donzela! – Tapou a boca com a mão num gesto teatral, enquanto arregalava os olhos, num fingido pesar. – Ooh, que digo eu? Ela não é mais donzela! ...
Philippe cerrou os punhos e apertou os lábios, indignado, e de boa vontade se levantaria da cadeira para dar uma tareia em Édouard. Este ria sarcasticamente.
-Quer-me desafiar para um duelo? – E num tom gradativamente mais provocador o fidalgo acrescentou olhando com desdém para a cadeira de rodas. – Aah, é verdade! Não pode.
E ria com gargalhadas cheias de escárnio. Philippe virou-se de costas, desolado com o facto daquele estroina já ter tocado em Açucena. A sua querida amada entregara-se àquele vilão. Viu que não tinha mais nada a fazer ali e decidiu partir.
-Já vai? Tão cedo? Que pena! – Édouard prosseguia em tom trocista. – Logo agora que a conversa estava tão boa.
E abaixando-se até Philippe, sussurrou em tom ameaçador:
-Desista, Philippe, já é tarde para si.
O homem louro afastou-se com dignidade, sem lhe responder, e abandonou o local. Meia hora depois, estava em casa de Açucena. Esta ficou surpreendida quando viu Philippe fora da cama. Sentou-se na sala de estar, junto a ele, enquanto o homem lhe pegava na mão, olhando-a nos olhos profundamente. Açucena sentiu um arrepio vindo da alma, com aquele olhar.
-Açucena, eu amo-te de verdade. Estou apaixonado por ti desde o primeiro olhar. Eu tenho a certeza que és a minha alma gémea. Sinto uma união com o teu coração, deveras flagrante. Eu sinto que tu me amas mas não reconheces o nosso amor nem o nosso valor e por isso te iludiste com Édouard. O verdadeiro amor é mais que um corpo físico e sumptuosidade. É algo que vem do coração, da alma. Está para além da vida e da morte. É o que nós somos.
Açucena escutava-o perturbada pelo que sentia em seu âmago. Naquelas palavras parecia redescobrir Philippe como um homem que sabia o que queria. A energia viril e de amor que ele emanava, entrava forte em seu coração e em todo o seu ser. Philippe aproximou perigosamente o seu rosto do de Açucena e os lábios dela começaram a tremer ao sentir o hálito quente e perfumado que saia daqueles lábios masculinos. Sentia-se afectada como nunca antes Édouard a deixara. A verdade é que a jovem nunca tinha visto o amigo de outra forma que não a de irmãos.
-Nãaao! – Gritou Açucena fugindo. Queria parar aquele momento, sentia medo do que estava a sentir e da completa confusão. – Não posso…eu estou comprometida. – E deixou-se estar a um canto.
Philippe suspirou e proferiu: - Assim seja.
À saída estacou, fitando-a intensamente, mas a rapariga não teve coragem de olhá-lo nos olhos.
Açucena não conseguia pregar olho, alvoroçada com o que sentira ao ouvir Philippe. Meu Deus, ele quase a beijara! Mas o mais insólito é que tudo isso mexera com ela de uma forma inusitada. Estaria ela tão enganada assim quanto aos seus sentimentos por Édouard. Perdeu-se assim em pensamentos que a transportaram em despiques sobre o que era estar nos braços de Édouard e o que seria estar nos braços de Philippe.
Philippe! Como este a surpreendera! E na verdade ele era extremamente belo. Mesmo, com um rosto miscelânea de feições delicadas e masculinas. Mas não! ... Ele era entrevado e de qualquer forma ela já dera a sua palavra… e o casamento era já amanhã. Talvez o tempo a ajudasse a esquecer Philippe…


E estando nestas conjeturas finalmente adormeceu.








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