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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Conto: "O Cavaleiro e a Pedra da Felicidade" - 1ª Parte - de Florbela de Castro




Ivanoel era cavaleiro há quase 2 décadas, contudo ainda não chegara aos quarenta anos. De família de origem nobre mas já arruinada antes do seu nascimento, Ivanoel crescera num lar com privações, numa casa no campo. Mas com obstinação almejou chegar a cavaleiro ainda não era homem feito. Neste momento da sua vida já combatera em muitas guerras e batalhas e encontrava-se numa rota num país distante q o levaria ao porto para embarcar no veleiro de volta para o seu país.

Acomodara-se numa ligeira encosta após se alimentar duma côdea de pão, preparando-se para descansar, quando ouviu ali um ruido abafado de passos. Ivanoel conhecia bem os sons da natureza e apercebeu-se q aquele som era metálico o que o pôs em alerta; podia ser um inimigo.

No seu campo de visão surgiu um cavaleiro em armadura, com a viseira do elmo descida. De imediato Ivanoel desembainhou a sua espada e quase no mesmo instante o outro cavaleiro dispôs a sua lança em riste.

- Quem sois? – Bradou Ivanoel. O outro cavaleiro estacou hesitante e acabou por levantar a viseira e baixar a lança.

- O meu nome é Adolfo e sou desta terra. Mas vós tendes aspecto de ser estrangeiro.

Ivanoel assentiu embainhando a espada. Contou-lhe a razão de se encontrar naquela terra. Adolfo convidou-o a saborear um peixe assado. Conduziu-os a um caudal ali perto e após boa pescaria, assaram juntos uma deliciosa refeição de peixe e pão escuro com uma bebida de malte, tudo fornecido por Adolfo. Ivanoel observava Adolfo com alguma curiosidade. Este parecia pequeno e frágil para ser um cavaleiro. Devia ser muito jovem pois o seu rosto era imberbe e de traços suaves e delicados. Adolfo deitou-lhe um olhar dissimulado e desviou os olhos parecendo perturbado e perguntando bruscamente: - Algum problema?...

Ivanoel respondeu-lhe com outra pergunta: - Que fazeis por estes caminhos?... Que destino vos leva a realizar esta peregrinação?

- Encontro-me na demanda da Pedra da Felicidade. É uma pedra tão preciosa que não existe em mais lugar algum do mundo e tem o poder da Verdadeira Felicidade.

- E para que te interessa tal pedra? – Interpelou Ivanoel francamente - Acaso não sois feliz, Cavaleiro Adolfo?

As feições de Adolfo anuviaram-se, adoptando uma expressão de amargura e resignação.

- Existe uma dama, de nome Aegle, que está presa a uma maldição que não permite que ela seja livre para amar. – A resposta de Adolfo denotou uma emoção profunda.

Ivanoel fitou-o perplexo; deduziu pelo discurso de Adolfo que este deveria dedicar um amor devoto por essa donzela. Ao concluir que tão jovem cavaleiro dedicava a sua vida naquela demanda, o seu respeito por Adolfo enalteceu-se.

- Amais essa Dama? O que ela é para vós?... E como uma Pedra pode ter tamanho poder?

- Trata-se duma pedra mágica – explicou Adolfo falando pausadamente. Calou-se por uns momentos como que vendo algo ao longe – Quem a tiver em seu poder ficará liberto de todas as amarras que impedem a felicidade.

- Sabeis onde a encontrar?- Inquiriu Ivanoel.

- Não exactamente. Busco um mago no cimo da montanha mais alta do meu país, que me dará um mapa.

- Irei convosco. – Retorquiu o moreno cavaleiro com determinação – Acompanhar-vos-ei nessa busca de tão nobre propósito.

- … Quanto à Dama… é alguém de quem sou muito próximo… - Levantou-se bruscamente como que para afastar pensamentos desoladores e agradeceu a cooperação de Ivanoel, pedindo-lhe apenas que durante toda a jornada não dormissem juntos na tenda de campanha.

Ivanoel fitou-o perplexo ao ouvir aquelas palavras, pois o pedido soava-lhe descabido mas conteve-se e preferiu respeitar a vontade do Cavaleiro desconhecido, mesmo que muito misterioso.

E assim partiram juntos naquilo que viria a ser uma aventura jamais sonhada, nas suas vidas, por qualquer um dos dois cavaleiros.


Durante longas semanas os dois homens percorreram montes e vales, planícies e planaltos. Durante aquele tempo o companheirismo cresceu entre os dois e tornaram-se como irmãos. Brincavam, riam juntos, pescavam, caçavam e cozinhavam.

Ivanoel como sempre, dormia separadamente de Adolfo, mas muitas vezes se perguntava o porquê disso, enquanto olhava para as estrelas.

Uma noite, já perto do seu destino, Ivanoel decidiu ficar acordado e foi passear nas redondezas. Qual não foi o seu espanto quando se deparou com uma formosa senhora de cabelos cor de chocolate. Como haviam passado durante o dia por uma casa numa colina, deduziu que pudesse ser habitante da mesma. No entanto era de estranhar vê-la fora de portas àquela hora, com a noite já avançada. Pressuroso, aproximou-se para oferecer-lhe a sua ajuda e protecção, contudo a misteriosa mulher fugiu ao vê-lo e Ivanoel perdeu-lhe o rasto. Perturbado, foi deitar-se após a procurar sem sucesso pelas redondezas.

No dia seguinte, contou a sua estranha aventura a Adolfo. Este ouviu-o com atenção e após um curto silêncio, replicou em voz suave que talvez fosse um espirito da natureza ou uma fada. O cavaleiro Ivanoel deixou transparecer no seu rosto a sua dúvida. A mulher parecera-lhe demasiado real para ser do reino mágico. Não quis insistir com o seu companheiro e guardou as suas interrogações para si.

Puseram-se a caminho e passado nem uma hora encontraram um velho de longas barbas no caminho. Era o Mago que Adolfo procurava. Este fitou-os com um olhar perscrutador como que sondando as suas almas.

- Viemos em busca do mapa para… - começou a falar Adolfo, sendo bruscamente interrompido pelo Velho sábio com um gesto impaciente.

- Escusais de prosseguir – replicou num tom seco – Já sei ao que vêm. Aqui têm o mapa.

Adolfo pegou no mapa primorosamente enrolado e estendeu-o um bocado hesitante e confuso com a facilidade e prontidão com que o obtivera. Quando observou o seu interior, o seu semblante esmoreceu: o local onde se encontrava a Pedra da felicidade era num país além-mar.

Ivanoel também se debruçou sobre o mapa e quando percebeu o desalento do companheiro, reafirmou o seu apoio e firmeza em continuarem na demanda da Pedra.

- Não desanimeis bravo Adolfo! – Exclamou o cavaleiro Ivanoel com vivacidade - Com tenacidade chegaremos ao porto deste país e de lá entraremos para o navio ou veleiro que nos levará para o Oriente!

Mas Adolfo deixou-se sentar pesadamente na beira do caminho. Os seus olhos marejaram-se de lágrimas.

- Estou cansado. – Desabafou com voz sumida. – Esgotado de tanta procura, de tanta espera… São muitos anos…

- Como podeis desanimar agora, companheiro? Estamos na posse do mapa e em direcção à Pedra caminharemos! Lembrai-vos da nobre Dama Aegle que vos espera, decerto ansiosa pelo vosso retorno!

Nesse momento o mago interveio em tom ambíguo: - Sei de que mal ele sofre, do mal de amor que lhe tortura o coração e a alma.

- Escutai-me nobre Cavaleiro. – Pediu suavemente Ivanoel pondo a mão no ombro de Adolfo – Pareceis-me jovem e no entanto tendes um ar demasiado melancólico para alguém tão tenaz e garboso e com tanto ainda para viver! Não percais a esperança logo agora!

Adolfo fitou-o com alguma esperança revivida e agradecido pelo entusiasmo com que o outro cavaleiro desejava ajudá-lo.

- Penso que tenho comigo algo que mitigará a vossa espera… - Replicou o mago estendendo-lhes uma pena. – Esta pena de falcão permitir-vos-á viajar numa questão de segundos até ao porto deste reino. Apenas tereis que lhe dar essa intenção. Porém a sua magia cessa aí. Guardai-a depois, porque pode ser-vos útil mais tarde.

Ao ouvir isto Adolfo pareceu renascer em contentamento. Despediram-se alegremente do mago e enquanto Adolfo tomava a dianteiro do caminho se afastando uns passos para se refrescar, o mago redarguiu em voz baixa para Ivanoel:

- Ides ao encontro do amor. Estai atento, escutai o vosso coração e não as aparências. Não sigais o que a vossa mente vos dita mas sim o que o coração vos indicar, ele é que é o sábio.

O cavaleiro olhou-o confuso. – Mas… Estais equivocado Sábio Mago! Não sou eu que procura o Amor e sim Adolfo.

- Às vezes quem nada procura, tudo encontra! – Ripostou o Mago misteriosamente e calou-se à vista de Adolfo.

Ivanoel ainda o fitou perplexo mas foi incitado pelo companheiro a encetarem a viagem até ao porto através da magia da pena.


Já no porto tomaram conhecimento do navio que partia para o Oriente e poucos dias depois embarcaram nele. A viagem foi longa mas decorreu sem incidentes de maior.

Vários meses depois desembarcavam no porto do Reino persa. Lá procuraram hospedagem e roupas. Por um acaso travaram conhecimento com um rico mercador que se mostrou agradado com os forasteiros e lhes ofereceu hospitalidade na sua própria casa. Eles aceitaram aliviados e contentes com a oferta.

A casa do mercador Navid era rica de belas colunas de mármore, trabalhadas e os dois cavaleiros foram muito bem recebidos. Cada um ficou com um quarto de hóspedes e tomaram banho, preparado pelos escravos de Navid. Vestiram bons trajes de seda e no final foram servidos de finas iguarias e manjares. Navid esmerara-se no acolhimento. Durante o repasto os dois forasteiros expuseram a sua demanda a Navid que prometeu ajudá-los.

Já no final surgiu uma linda dama velada que Navid apresentou como sua filha, Shabnan que significava gota de chuva. Navid revelou que a filha era conhecedora de magia e que talvez os pudesse auxiliar nos seus propósitos. A jovem mulher escutou tudo em silêncio e aquiesceu com a cabeça. Ivanoel agradou-se dos traços que o véu deixava adivinhar e de seus olhos e ficou estacado a mirá-la. Shabnan fitou o moreno cavaleiro demoradamente e deitou um olhar furtivo ao cavaleiro delicado. Adolfo desviou o rosto após ter-se apercebido da troca de olhares. Olhou para a lua com expressão vazia e despediu-se afirmando estar cansado da viagem. Shabnan retirou-se logo a seguir à saída de Adolfo, para grande pena de Ivanoel.

Deixou-se ficar mais um tempo até que acabou por se retirar. Qual não foi o seu espanto quando viu Shabnan sair dos aposentos de Adolfo! Não se conteve e interpelou a bela oriental. Esta olhou-o nos olhos e falou a meia voz:

- Talvez não compreendais as palavras que vou proferir agora mas viajais em direcção a um grande amor, mas por ora não vos poderei dizer mais nada. Amanhã ide com Adolfo ao poço que existe nos limites da cidade, ao entardecer e pedi ao vosso amigo para vos revelar o que mais o atormenta. O poço é mágico e perto dele qualquer pessoa só conseguirá falar a mais pura das verdades.

- Mas… porque me dizeis isto? Acaso achais que o meu companheiro não me é leal? Eu já sei o que mais atormenta o valoroso Adolfo! E isso não explica o que fazíeis nos seus aposentos.

- Sabereis esse porquê amanhã no poço… - E retirou-se sem mais delongas.

Tal como lhe aconselhara Shabnan, ao entardecer Ivanoel convidou Adolfo a ir passear até ao poço mas sem lhe revelar o seu propósito. Este assentiu com um ar melancólico. Estava assim desde que acordara para espanto de Ivanoel. Seguiram em silêncio até ao poço e lá descansaram. Ivanoel interpelou então o amigo o que o atormentava. Sem saber como, Adolfo respondeu-lhe que até ao dia anterior sofria por querer encontrar a Pedra mas que agora sofria por Ivanoel.

- Mas porquê por mim?...

- Porque vos amo e percebo que estais apaixonado por Shabnan! – Quase gritou Adolfo com intensidade. Ivanoel sentiu-se fulminado por aquela revelação absolutamente inesperada. Adolfo instintivamente tapou a boca com uma mão ficando petrificado, mas segundos depois corria veloz dali.


Autoria de : Florbela de Castro

imagens retiradas internet

2013

Link da 2ªparte:
http://artlira.blogspot.pt/2013/02/conto-o-cavaleiro-e-pedra-da-felicidade_21.html

Link da 3ªparte-Final:
http://artlira.blogspot.pt/2013/02/o-cavaleiro-e-pedra-da-felicidade-3.html

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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Conto: "O Sapateiro e a Tesoura Mágica" - 2ª Parte - Final - de Florbela de Castro





(Continuação)



Ao lado havia um bilhete com instruções para o fabrico duns sapatos de festa, junto com um par de sapatos para tirar o molde.

O sapateiro não se fez rogado e trabalhou afincadamente na manufactura. O trabalho corria-lhe veloz pelas mãos e admirou-se de concluir o serviço em 3 horas.

Gerard acabou por cear e deitar-se sem encontrar vivalma, de tão exausto que estava. A madrugada já se instalara quando uma nuvem apareceu mesmo aos pés da cama do homem. Perplexo viu surgir um ser masculino de quase 2 metros, encorpado que lhe falou com uma voz de trovão.

- Sapateiro!...Admirado deves estar por seres possuidor de tão invulgar talento! Não te perguntas como este dom te veio parar às mãos?!... – E fitava-o com um olhar misto de arrogância e condescendência, vendo as feições do homem se ruborescerem. E sem se deter contou a Gerard como ele próprio já havia aparecido aos seus bisavôs, oferecendo-lhes uma Tesoura Mágica para o molde e manufacturação do calçado. O instrumento tinha o condão de abrir caminhos na vida das pessoas, conforme os seus desejos mais recônditos. Após esta revelação, perguntou em voz melíflua se Gerard não havia jamais pensado em dar um rumo diferente à sua vida. O sapateiro pestanejou, hesitante. Magnus, o gigante, redarguiu que Gerard podia escolher o destino que desejasse, tão somente o sentisse no seu intimo e formulasse esse desejo e confeccionasse um par para si mesmo. Já não bastaria de vida sem sabor e sem alegria? Afinal com aquela Tesoura podia sonhar e saber que tudo se realizaria. Com um sorriso trocista viu a expressão do sapateiro iluminar-se. Com uma gargalhada despediu-se dizendo para Gerard dormir sobre o assunto. O homem de meia-idade deitou-se e adormeceu com a cabeça fervilhando de ideias grandiosas.



No dia seguinte acordou estremunhado em sua própria casa. Durante um tempo perguntou-se se tudo não teria passado dum sonho. Porém lembrou-se das palavras de Magnus e a única de maneira de comprovar tudo seria fazendo uns sapatos para si. Pôs mãos à obra e executou um par de sapatos para o baile que haveria nessa noite.

Os sapatos sem dúvida ficaram belos, forrados a maravilhoso acetinado e de fivela de prata. Gerard calçou-os ansiosamente e fitou-se no espelho:

A sua desengonçada figura metamorfoseara-se num belo e garboso homem de estatura alta, robusto mas esbelto, de sedosos cabelos louros ondulados e brilhantes olhos verdes.

O seu ar atónito depressa se desfez num sorriso. Estava pronto a conquistar o mundo.



A partir daquela noite Gerard tornou-se um “habituée” dos bailes e serões literários, dos salões das mais nobres famílias da região e das regiões vizinhas. Cedo, as donzelas se tomaram de amores por tão bom partido.

Gerard sentia-se poderoso com tanta adulação e rapidamente tirou partido dessa situação namoriscando com quase todas as pretendentes que lhe caíam aos pés.

A certa altura Elsa começou a aparecer em alguns bailes e serões. Os sapatos haviam-lhe proporcionado outra posição social e deixara de ser dama de companhia. A vaidade e atração do gentil-homem, foram estimuladas por esta nova oportunidade e não tardou em fazer-lhe a corte e tornar-se seu prometido. Contudo nem esta nova reviravolta afastou Gerard da sua faceta oculta de conquistador. Sentia o seu amor-próprio insuflado pela fama que ganhara junto ao público feminino.

Como a vida dele adquirira uma nova côr!... O homem mantinha uma vida dupla pois ninguém desconfiava que o sapateiro era o galhardo gentil-homem que fazia inveja ao próprio príncipe.




Não era sempre, mas Gerard começou a ter sonhos estranhos. Sonhava que estava num mundo aparte, num mundo que existia mas ele não sabia como nem onde. Frequentemente lhe surgia a figura doce e quase surreal duma mulher que parecia flutuar. Com o tempo julgou reconhecer semelhança com a camponesa que lhe indicara em tempos o caminho para o castelo, contudo as vestes divergiam e esta tinha o ar ainda mais surreal e etérico. A figura instava-o a desistir do caminho que tomara na vida, daquele comportamento duplo e camuflado e a melhorar por si mesmo. Quando acordava nem sempre Gerard se lembrava dos sonhos. Às vezes permaneciam fragmentos, outras vezes era a desmemória total.

Mas do pouco que se lembrava, mesmo não entendendo o significado dos sonhos, Gerard murmurava para os seus botões que não mudaria nada das suas escolhas, pois merecia o caminho que trilhava, após as agruras que passara na vida.


Enquanto a natureza se encontrava serenada e antes do raiar da aurora, havia-se reunido um conselho de seres da natureza: O Rei dos elfos encontrava-se face àquela singular aglomeração, tendo na sua frente Alienor, a bela elfa de beleza surreal.

Esta exortava com empenho a uma intervenção mais definida junto de Gerard, contudo o rei parecia estar reticente.

- Se não intercedermos com mais veemência Gerard pode estar perdido para sempre! E jamais se reunirá a nós para voltar a ser o Príncipe Alaric, dotado da capacidade de gerar caminhos!...

O rei interrompeu-a com um gesto brusco, silenciando-a:

- Sim, bem sei que a família que recebeu Sua Alteza e fez o papel de sua família verdadeira, se aliara com gnomos e duendes o que facilitou o trato. Tomou o nome de Gerard derivado à sua missão, cujo papel era um dia ser salvador da natureza deste reino. A tesoura acompanhou-o como presente e apoio reunido dos gnomos, duendes e elfos. E é de acrescentar que graças à ajuda das fadas, permaneceu de identidade escondida e sem memória ou conhecimento dos seus antecedentes. – Replicou o rei – Mas Gerard escolheu outros caminhos escusos…

- Oh, ele foi influenciado pelo gigante Magnus! – Exclamou Alienor com intensidade.

- Foram as suas escolhas…- Reiterou o rei com paciência mas firmeza - E quando se escolhe a Natureza age em conformidade.

- Mas algo mais que os sonhos que lhe envio tem de ser feito! – Voltou a exclamar Alienor quase de lágrimas nos olhos – Senão, como me vou reunir com O Escolhido?... Ou vão permitir que ele continue a desequilibrar o curso da Natureza com o que faz?

Com aquelas palavras gerou-se um burburinho. Realmente a situação não podia prosseguir por muito mais tempo ou as consequências seriam nefastas tendo em conta as leis da natureza. Mexer com o que não se era suposto, era forçar os acontecimentos para um curso não natural e isso traria um desequilíbrio no curso/ fluxo normal da Vida.

Convocaram a Fada que os ajudara em tempos. Esta surgiu e falou:

- Sabem que nem tudo pode ser desfeito ou revertido, tendo em conta o que já foi feito. Mesmo aliando o meu poder ao rei dos elfos, o máximo que podemos reverter, é fazê-lo ter consciência e memória de tudo mas a união poderá estar comprometida para sempre.

O rei dos elfos aquiesceu e continuou por seu turno: - A sua essência original de elfo vai ser reactivada. Gerard ganhará consciência de quem é mas não de quem tu és. Poderão ver-se mas não conseguirão ficar juntos se ele não mudar de rumo. E mesmo que mude, a união física poderá nunca ter lugar a não ser que ele ganhe consciência de tudo.

- A sua aparência permanecerá como a do príncipe dos elfos. – Acrescentou ainda a fada – Mas um véu de esquecimento descerá sobre os humanos e estes não se recordarão mais de quem era Gerard antes destas mudanças. Só ele se aperceberá de todas estas alterações.

E a reunião terminou deixando Alienor pesarosa e preocupada com o desfecho vaticinado para Gerard.


Os dias e semanas que se seguiram à reunião dos elfos, foram para Gerard, confusos e avassaladores. Lembranças dum passado que nunca antes houvera memória, atropelavam-se na cabeça dele como certezas indubitáveis. Sensações familiares mas que lhe eram absolutamente estranhas, invadiam-no. Durante uns tempos andou nesse estado febril de perturbação e quase julgou enlouquecer. Até a cidade e todos seus conhecidos pareciam ter entrado numa loucura colectiva pois ninguém parecia recordar da aparência e afazeres anteriores de Gerard e saudavam-no, felicitando o seu bom aspecto como se fosse normal uma transformação física tao drástica… ou pior: pareciam nunca tê-lo conhecido doutra forma.

Até que reviu a camponesa surreal em sonhos, desta vez cm percepção total dos mesmos, já acordado, que lhe foi elucidando sobre o teor de tudo que lhe assaltara à mente.

Pouco tempo depois, Gerard casou com Elsa, pois o enlace já estava programado mesmo antes da memória original de elfo ser reactivada nele. O casamento foi de pompa e algum tempo depois um filho vinha a caminho.

A vida parecia finalmente presentear o ex-sapateiro com tudo aquilo que ele mais almejara: riqueza, prestígio, popularidade, enfim ventura em todos os aspectos. Gerard pusera as re-memórias um pouco de lado com o próximo nascimento do rebento. Contudo, nada o fazia realmente vibrar: o vazio permanecia enraizado e acumulado por aquelas lembranças bizarras. Aliás, esses pedaços duma existência paralela eram a única coisa que nutria mínimamente o seu íntimo.

Foi então que A reviu: a figura da mulher surreal mirava-o junto à igreja do outro lado da praça. O seu olhar fundiu-se com o dela trazendo-lhe a impressão duma intimidade e reconhecimento extraordinário, sem no entanto desvendar a razão de tal. Tão depressa a viu como deixou de ver e apesar de ter tentado apanhá-la, a mulher parecia ter-se sumido como da primeira vez.

Primeiro veio a epidemia. Mortal e altamente contagiosa. Encerravam-se ruas e casas, ostracizavam -se pessoas e famílias, queimavam-se corpos e haveres.

Elsa foi uma das numerosas vítimas do flagelo. Gerard sentiu-se esmagado pelo peso da amargura, derrota e consternação com o rumar dos acontecimentos, pois a sua percepção de elfo lhe dizia que assistia ao retorno que a Natureza lhe dava por influenciar o seu curso. E pouco depois caiu doente, sendo exilado da cidade como os que não tombavam logo vítimas daquela enfermidade.

Quando Gerard voltou à cidade, esta tornara-se uma cidade fantasma tal como tantos outros lugares daquelas regiões. Partiu para a floresta e após caminhar um bocado surgiu-lhe Alienor. Esvaído, ele suplicou:

- O que faço?... Porquê isto tudo?...

A elfa acercou-se dele e soprou-lhe no coração fazendo-o lembrar-se da união dos dois. Os olhos dele marejaram-se de lágrimas.

- Alienor!... Como me pude alhear tanto de ti e do teu amor?... – E mirava-a a transbordar de amor, enquanto Alienor chorava de emoção.

Estavam quase a cair nos braços um do outro quando a Fada surgiu, interferindo. Explicou ao Príncipe elfo qual era a sua identidade e a sua missão, a intromissão de Magnus, que desejava a tesoura e ainda mais derrubar Gerard, aliás, o príncipe Alaric, e como este mesmo malograra a sua missão e a sua própria vida, sofrendo as consequências já por si conhecidas. Elucidou também como funcionava o equilíbrio da natureza e o quanto eles tinham intercedido para ele não ficar perdido para sempre.

- Infelizmente, mesmo tendo os nossos poderes, o teu destino já foi deliberado em conselho com todos os seres da Natureza. E terás que permanecer cristalizado por tempo indeterminado, até um dia em que o Amor novamente e a Natureza te resgatem a alma, através duma nova vida.

Gerard encarou a Fada um bocado confuso. Mas esta não se deteve e virando-se para Alienor disse, antes de se eclipsar: - Vocês já não têm muito tempo visto que já anoiteceu há um pedaço e depressa a Aurora raiará e quando isso acontecer, ele ficará cristalizado.

E os dois elfos envolveram-se nos braços um do outro como se pudessem suspender o tempo.



Quando a aurora veio, os dois amados, fitaram-se e beijaram-se docemente, enquanto o corpo do príncipe se cristalizava progressivamente.

Alienor olhou o sol. Estava triste mas tinha esperança. Eles eram imortais e de qualquer forma a mãe Natureza presenteava-a pois no seu ventre já germinava o fruto daquela ligação.



Fim

Autoria de Florbela de Castro

Link da 1a parte: http://artlira.blogspot.pt/2012/05/conto-o-sapateiro-e-tesoura-magica-1.html

Primeira imagem autoria de Feimo

As outras imagens são de autoria desconhecida


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"21.12.12 - Nova Era"

Duas telas em acrilico de 30x40 cm
Autoria de Mónica Hadik e Florbela de Castro
2012

domingo, 16 de dezembro de 2012

domingo, 18 de novembro de 2012

"Home"

Tela pintada a acrilico
Autoria: Mónica Hadyk
2012

"Flor de Lótus"

Tela pintada a acrilico
Autoria: Mónica Hadyk
2012

"Percurso - "20 Anos de Vida"

Pimtada a acrilico
Autoria: Mónica Hadyk
2012

"Explosão de Sentimentos"

Tela pintada a acrilico
Autoria: Mónica Hadyk
2012

"Alegria"

Tela pintada a acrilico
Autoria: Mónica Hadyk
2012

"Flor da Vida"

Tela pintada em acrilico
Autoria: Mónica Hadyk
2012

"Fusão"

Tela pintada a acrilico
Autoria: Mónica Hadyk
2012

"União de Almas"

Tela pintada a acrilico
Autoria: Mónica Hadyk
2012

"Caminhos"

Tela pintada a acrílico
Autoria: Mónica Hadyk
2012

"Dá-me Vida!"

Tela pintada a acrílico
Autoria: Mónica Hadik
2012

"Girassóis"

Tela pintada a acrílico
Autoria: Mónica Hadyk
2012